28.6.06

Breve no Polishop


Ter personal alguma coisa está na moda. Pelo que me lembro, tudo começou com personal trainer. E nem invente de chamar de professor particular, que não é isso. É personal trainer. Fica mais chique. Na verdade, tudo com personal na frente fica mais chique. Personal language, poderia ser professor de idiomas. Personal maid, empregada e personal mate, sinônimo para namorado. Imagine só:
- Fatinha, esse é o Marcelo, meu personal mate.

Aqui em Vitória, onde a população de peruas e emergentes é a maior per capita do país, imagino até um personal guide. Seria assim: você quer fazer compras, mas a Praia do Canto é tão grande que tem medo de se perder. Para ter certeza de que vai ao lugar certo, chama seu personal guide. Ele sabe exatamente onde encontrar o que você quer e no número que precisa, entre todas as opções que a Praia do Canto, o Jardins capixaba, oferece.

E quando chegar em casa, caso tenha problemas em combinar aquela peça de roupa com as outras de que já dispõe em seu closet de 20m², você vai chamar quem, quem, quem? Seu personal stlyler, claro! Se precisar fazer uma viagem, pra que esquentar a cabeça cheia de laquê com malas? Chame o personal organizer, que sabe como ninguém separar os coringas do seu armário e dobrar tudo tão lindamente que você vai ter pena de usar. Tudo isso, enquanto a personal nutricionista prepara o cardápio para seus personal filhos.

Ironias à parte, acho que um personal pode ser útil de verdade em alguns casos. Se tivesse que escolher um, escolheria (ou inventaria) logo um definitivo: o personal me. Não limitaria tarefas. O personal me faria tudo aquilo que não estivesse a fim de fazer. Banco, supermercado, trocar óleo, velórios, reuniões e alguns eventos sociais. Imagina a cara dos outros quando chegasse lá meu personal e dissesse:
- Olá, boa noite. Sou o personal me da Val. Ela me mandou aqui porque tinha outros compromissos marcados. Disse que sente muito e que não perderá o próximo. A propósito, bela festa, parabéns.

Além de ser bem mais simpático que eu, ele ainda reverteria a situação. Em vez de ficarem chateados com minha ausência, os anfitriões ainda sentiriam-se honrados com minha preocupação em enviar um representante. Fora que, o Zig Zag e o Paulo Octavio noticiariam o ocorrido no dia seguinte, lançando a moda em proporções tsunâmicas pela alta capixaba.
O personal me também poderia ser usado para fins mais baixos. Se alguém dá uma fechada no trânsito, você anota a placa calmamente e passa para seu personal, que perseguirá o infeliz e devolverá a gentileza assim que possível.

Ou seja, o personal me tornaria o mundo um lugar mais preguiçoso e vingativo.
Alguém quer patentear?

Ilustração do Galvão: www.vidabesta.com

13.6.06

Amar é não sentir irc


Quando a gente sabe que realmente ama alguém? Que sinal, que prova, em que momento a gente tem essa descoberta tão necessária e importante e, ao mesmo, tempo tão difícil de precisar? Eu arrumei minha maneira. Descobri que amar é não sentir irc. Irc é, para mim, um dos piores sentimentos que você pode ter por alguém. Por isso determinei que ele é muito mais forte do que todas aquelas baboseiras juntas: superar as dificuldades, perdoar, se doar, ser companheiro, ser verdadeiro, sentir tesão de segunda a segunda, ter pinto grande, ter bunda dura, ter dinheiro no banco. O irc é o vírus que destrói o amor.

Faça o teste para saber se você já sentiu irc por alguém:
1) Vocês vão a um restaurante fresquinho, desses cheios de talher e copos na mesa. Ele está lindo, bem arrumado e cheiroso. Mas não sabe pegar o garfo direito, pendura o guardanapo no pescoço e bebe o vinho tinto na taça de água. Como você se sente? Se nem ligou, ótimo, você não tem irc. Mas se se irritou, minha amiga, é provável que você tenha irc.

Quanto aos homens, não sei se eles sentem irc. Até porque eles são meio desligados para alguns detalhes. Se você é homem e está lendo este texto, por favor, dê sua opinião.

O irc não é a aversão a um defeito de alguém. É o nervosinho que você sente pelo jeito de uma pessoa a ponto de não conseguir tolerar nem mais um mês ao lado da pobre ou do pobre coitado. O irc começa aos poucos, você nem percebe direito. É difícil de controlar, é crescente, é dominante. Se você sente irc por alguém, dificilmente ele ou ela vai ser o amor da sua vida. Eu superei os ircs, acho que posso dizer que já sei amar.

3.6.06

A difícil arte de ser simples


Por um momento pensou em chamá-la de alma gêmea. Desistiu. Não queria rebaixá-la a alma gêmea de alguém tão imperfeito.
Ele tão bruto, tão cru. Não sabia esconder seus sentimentos. Eles vinham à tona de um jeito descontrolado. Que nem soluço. Jurava para si mesmo que tentaria ser mais discreto. Incomodava o fato de ele ter as emoções que sentia por dentro sempre estampadas no rosto. Queria saber mentir, ou simplesmente disfarçar, mas nem isso conseguia. Acreditava que essa transparência era uma qualidade, mas desejava aprender a controlá-la. Era incapaz de engolir certas angústias. "Melhor assim", dizia a mãe dele. "Engolir frustrações pode até dar câncer". Ela não imaginava o quanto ele gostaria de correr o risco.

Sentia-se um louco quando, diante da mulher que tanto amava, tinha ataques aparentemente infundados. Experimentava tudo com tamanha intensidade que na adolescência, cercado de espinhas e ignorância, pensava se não era gay. Um homem pode ser assim, tão sensível a tudo? Chegou a considerar a hipótese de ser evoluído demais. Ou ao menos de estar um passo acima da humanidade na escala da evolução. Porque via os pormenores de tudo, ia além do que qualquer um poderia ver. Nada era o que parecia ser. Cansado da teoria darwiniana partiu para a da loucura. Estava convencido de que era doido, maluco mesmo. Que dava proporções absurdas a qualquer coisa.

Estar ao lado dela era a prova maior de que sua mente funcionava de forma misteriosa. Ela sempre calma. Demonstrava algumas inquietações. Mas não chorava diante de pequenos imprevistos ou quando algum programa de TV mostrava dois irmãos se reencontrando depois de anos. TPM, rompantes, ataques. Nada disso acontecia com ela. E quem poderia culpá-la? Apenas invejá-la pela simplicidade com que encarava tudo. Sim, poderiam acusá-la de ser superficial. Pura inveja. Quantos como ele, que não só vêem beleza na tristeza, como gostam de degustá-la, não sonhavam em conseguir ser como ela? Não complicar a vida. Não ter que disfarçar o que sente porque simplesmente não sente. Não se sentir refém de qualquer emoção vagabunda. Não ter medo de se arriscar por desconhecer o tamanho do tombo que pode levar. Não questionar o quanto se é capaz, não se comparar a outros. Apenas fazer o que acreditava fazer bem. Não precisar sofrer, cair, apanhar pra conseguir ver graça em piadas bobas ou comédias românticas.

Ele a admirava. Lutava pra tentar chegar perto do que ela era. Mas sempre que se via diante uma situação em que perdia o controle de suas lágrimas, percebia que nunca conseguiria. Aquilo era sua natureza. E aquilo um dia, ainda acabaria com tudo.
E de fato foi isso que aconteceu. Ele terminou. Não suportava mais tentar entender por que ela o amava e como eles davam certo apesar de tão diferentes. Pensava tanto que não tinha tempo de ser feliz. Que estúpido.

Ilustração: Paulo Prot
http://deliriumtremens.zip.net

24.5.06

Só nos resta viver


Encontrei a solidão esses dias, entre 9 e 10 da noite. Era uma terça-feira, e as terças-feiras sempre se mostraram difíceis e ardilosas. Sinto o gosto da terça-feira, nem chega a ser amargo, tem gosto de inseto que entra pela boca quando você está distraído. As memórias de outras terças-feiras, do peso do dia que parece ter mais de 24 horas, que parece ser longo como um sermão na igreja, que é insuportável como o horário político. É terça-feira, estou sozinha, vulnerável, o tempo é gelado, o vento é cinza. Perfeito para um encontro com ela, justamente de quem mais procuro fugir, me esconder, evitar esbarrões desnecessários.

A solidão é supérflua, não preciso dela, não sinto falta, não desejo e aprendi a me livrar dela com o tempo. Aliás, fazia muito tempo que não pensava nela. Mas bastou ser terça-feira, fazer frio e ser 9 horas da noite, entrar no carro, dar algumas voltas pela rua, ver os bares com casais, ver outros bares vazios, não ver nenhuma mulher sentada sozinha em nenhum deles para me sentir sozinha. Vejo um homem sozinho no bar, bebendo e fumando. A solidão veste melhor um homem que uma mulher. A visão de uma mulher no bar, sozinha, fumando e bebendo é dura e estranha. Além da solidão ainda encontro o preconceito. Estou muito bem acompanhada nesta terça, como já deu pra notar.

De nada adianta os livros que li, o quanto amadureci antes do tempo, todos os perrengues que passei, não adianta o que algumas pessoas já falaram de mim, que sou forte, que agüento tudo, que seguro qualquer coisa. As frases prontas estalam na cabeça: você não precisa de ninguém para ser feliz, você tem que se bastar, você não pode depender de ninguém. Quem falou tudo isso não estava no meu lugar, numa terça-feira fria, com a solidão ali, sentada no banco do carona olhando pra mim. E quanto mais voltas eu dava, querendo encontrar um lugar para me livrar dela, mais ela se recostava no banco e ria. Também dói em mim saber que a solidão existe e insiste.

16.5.06

Sem querer querendo

Odeio pedir desculpas por várias razões. Orgulho nem é a pior delas. O que mata é o que vem por trás das desculpas. Algumas situações são simples de lidar. Um pisão no pé, por exemplo, foi mal aê resolve. Mas em outros casos, desculpa só soa como uma palavra vazia, que tenta reverter algo que não tem volta.

Outro dia eu fui, digamos, um tanto quanto grossa com alguém que amo na frente de outras pessoas. Sim, eu sabia que estava fazendo merda. Mas dentro de mim, em algum lugar, tem um botão que aciona meu Personal Pica-Pau Mau. Não sei precisar o que faz isso surgir, mas normalmente é algo que mexe, de forma que nem eu entendo bem, com meu orgulho ou minha segurança. E aí não consigo me controlar. Vem brotando lá das profundezas do pior lado do cérebro um pensamento maldoso que toma a temida forma de uma frase extremamente escrota, dessas capazes de acabar com o clima de qualquer situação. E aí, depois de um papelão desse, me sinto ainda mais estúpida de ter que pedir desculpas. Como se pronunciar a palavra fosse consertar o que aconteceu. Sim, eu sei que o objetivo de se desculpar não é reparar o passado, mas mostrar que está arrependido, que sente muito pela cagada que fez. Mas a culpa, a consciência de que a qualquer momento algo pode novamente acionar aquele botão do pica-pau mau, faz qualquer desculpa parecer inútil. Não para o outro, mas para mim.

Desculpas não têm propriedade de fazer o fato passado entrar em ebulição e evaporar no ar. A grosseria continua lá, registrada na mente de quem sofreu com minha estupidez. Assumir o erro não faz a culpa sumir. Continuo envergonhada por um bom tempo, até provar pela convivência, que a merda que fiz foi exceção e não regra.

E é essa a razão maior de eu odiar desculpas: saber que eu cheguei ao extremo, que passei por várias etapas, que tive a chance de parar antes, mas fui adiante, até chegar ao ponto de cometer um erro cretino e ter que me desculpar. Pior que isso é saber que pedir desculpas não me livra de cometer o mesmo erro novamente e aí então, me sentir um cocô outra vez.

Por isso que tenho pavor de gente que faz da desculpa um hábito, um vício. Que ofende, erra, trai, mente e pensa que tudo se resolve com um olhar de cachorro que caiu da mudança e um “me desculpa”. Pra agredir mais só falta dizer “sou humano”. Sou capaz de mandar se fuder.

Como hoje estou num dia bom, vou ser otimista. Vou acreditar que se guardar direitinho na minha memória a sensação ruim que é se arrepender e ter que se desculpar, talvez cometa menos erros. E quando ainda assim vacilar, não vou sofrer tanto quanto ou até mais que a vítima. Porque pior que ter que pronunciar essa bendita palavra, é não admitir o erro e negar se desculpar.

Ilustração do Galvão. www.vidabesta.com

4.5.06

Merda

Vou fazer jus ao nome deste blog. Vou falar sobre cocô. O pior deles, na minha opinião. Aquele que insiste em ficar nadando e se exibindo no fundo do vaso. Geralmente, o tipo é um cocozinho pequeno, mas desafiador. Observe a cena: sua mão está determinada, uma, duas, três vezes você aperta o botão da descarga. E o que acontece? Nada. O maldito cocozinho sobe, desce e finge que se vai no redemoinho formado pelas corredeiras que saem de todos aqueles furinhos da louça. Mas quando tudo volta ao normal, as águas da latrina se acalmam, lá está ele de volta. Parece um personagem de filme de terror – quando você pensa que tudo acabou bem, ele ressurge das profundezas.

Ele nada contra a corrente, é praticamente um subversivo. Só o que vai por água abaixo nessa brincadeira é sua consciência ecológica. Cada desejo de ver o mísero cocô desaparecer da sua frente significam, dizem, 25 litros de água limpa indo parar em alguma praia longínqua. Essa merda de cocozinho não merece tanto. Então porque ele não vai embora de uma vez, que nem os outros? Já sei porque. Enquanto ele brinca de dançar no fundo da privada ao mesmo tempo me encara e deixa bem claro a que veio. O tal cocozinho é o medo que tenho de errar, o pavor que tenho de falhar, o pânico que me bate de esquecer. Por isso ele fica ali, me fazendo lembrar que preciso ficar atenta até mesmo depois de, você sabe. Senão, o sujeito principal deste texto volta de onde nunca deveria ter saído pra contar pra todo mundo: ela cagou.

26.4.06

Descarga



Hoje é um desses dias que sinto vontade de agredir todo mundo. É, assim mesmo, sem motivo. Ou melhor, por qualquer motivo que me derem.

- Bom dia, Val. Dormiu bem?
- Ahhh.... vá se fuder que você não tem nada a ver com isso.

- Ontem minha namorada fez um pavê de chocolate só pra mim.
- Se afoga nessa merda de pavê. Morra.

- Fire Comunicação, boa tarde.
- Oi, da onde fala?
- Da putaquetepariu, seu bastardo, filho duma égua. Como é que você liga prum lugar sem saber onde é? Seu escroto!

- Valeria, o tanque do carro tá pela metade (nesse caso minha consciência falando comigo).
- Pega esse tanque e enfia sabe onde, porra (nesse caso eu agredindo a mim mesma).

- O elevador tá subindo?
- Sua anta, é o último andar. Vai subir pra onde? Tinha é que subir sangue é pra essa sua cabeça cheia de merda.

- Valeria, hoje é dia de mudar sua série de exercícios.
- É dia de mudar o caralho. Mudo essa desgraça quando quiser. O corpo é meu, eu que pago seu salário. Vai cagar, sai daqui. Xô.

- Por favor, leia a questão seis do seu livro.
- Eu ler? Nem fudendo, lê você se quiser.

- Amiga.... tô mal hoje. Queria xingar todo mundo.
- Fica assim não, Val.
- Hunpf...
- Ah, lembra que ia depilar a virilha em formato de rosa? Eu fiz! Ficou jóia.
- Mas hein? Eu triste e você falando da depilação? Foda-se sua buceta! Tomara que você nunca mais dê essa rosa pentelhuda nem prum cachorro, sua insensível.

- Val, eu vi até o 12º episódio de Lost, lálálá lá lááá lá. Se eu quiser posso contar, lálá lá lááá lá.
- Conta, por favor, conta. Conta que arranco seu olho no dente, seu inútil, seu puto. Quero que você se foda muito, vai se fuder, você e o 12º episódio de Lost.

- Você cortou o cabelo, Val?
- Não, ele diminuiu, seu retardado. Que pergunta estúpida. Sempre te achei um
bosta mesmo.

- Olha, Val, você tem um blog.
- Sim, eu e Elisa.
- Mas que texto grande. Tenho preguiça de ler.
- ENTÃO VÁ SE FODER. Não pedi pra você ler porra nenhuma, pedi?
Então não me enche a porra do saco, sua piranha. Pega um desses rolos de macarrão, sabe? Então, e enfia nessa bunda gorda e roda ele até sair macarrão pela boca, sua vaca.


Me sinto melhor agora. Não é que consegui até rir? Descarregar uma raiva infundada no papel, sem gritar com ninguém, é bem divertido, saudável e o melhor, não deixa seqüelas nem provoca brigas.
Só queria conseguir isso mais vezes.

Ilustração do Galvão. www.vidabesta.com

17.4.06

Nada a reclamar

Mudei com meus pais para Vitória quando tinha 14 anos. Achei a cidade uma droga. Eu morava em Brasília, tinha lá meus amigos, minhas histórias de infância, minha escola onde estudei desde pequena, todas as minhas referências. Mudar para Vitória foi o primeiro trauma que vivi. No avião, vindo pra cá, chorei nas 2 horas que duraram o vôo. Nem a visão da praia de Camburi, que eu ainda não sabia que era poluída, serviu para me alegrar. Que se dane a praia, quero minha rua, que lá em Brasília a gente chama de quadra. Quero jogar vôlei aos domingos, andar de bicicleta no Parque da Cidade, ir aos shows da Plebe Rude. Ninguém aqui conhece a Plebe Rude? Um absurdo. Passei um ano inteiro trocando cartas com todos os meus queridos amigos de Brasília, que me contavam detalhes das melhores festas, quem havia ficado com quem, quem havia terminado com quem. Falavam também do futuro, do vestibular que iriam fazer, para onde iriam nas próximas férias. Como era de se esperar, o tempo passou, as cartas sumiram, o contato se perdeu.

Tenho 33 anos agora, ainda moro em Vitória e resolvi que preciso me apaixonar pela cidade. E não preciso esquecer Brasília pra isso acontecer. Na verdade, moro em Vila Velha. Mas como são municípios próximos – Vitória, Vila Velha, Serra e Cariacica - acabo chamando tudo pelo nome da capital. Conheço pouco sobre a história do lugar onde vivo – e pelo que tenho visto, meu filho também não tem aprendido muito. Não sei dizer se isso é geral, mas acho que as escolas não dedicam muito tempo às histórias locais. Decidi então que vou conhecer e respeitar a cidade onde moro. Geograficamente falando, acho Vitória linda. É um privilégio morar numa ilha, ter um porto no centro da cidade, ter o mangue, as praias, a baía, o canal. Os recortes são bonitos, as pedras e montanhas, ah, sim, os morros com suas casinhas formando as favelas. Que cidade não tem isso? Vitória tem tudo para ser uma cidade charmosa. Não sei por que ainda não é. Sinto falta de livrarias com cafés, de cinemas nas ruas, de mais praças, de calçadas bem cuidadas, de menos lixo, de fachadas bonitas nas lojas. De música, de festivais, de teatro, de cultura popular, de expressividade. De bares com mais identidade, de restaurantes com mais a oferecer do que um cardápio sem nexo. De pessoas perambulando nos finais de semana, andando, almoçando mais tarde, visitando exposições de arte. Sinto que falta em Vitória as pessoas viverem a cidade. Fiz minha parte no último fim de semana. Fui ao Museu de Arte do ES ver uma exposição chamada Universo do Cordel. Aproveitei e também fui no Museu da Vale do Rio Doce ver outra exposição. No próximo fim de semana quero pegar uma escuna e conhecer os mangues que permeiam a cidade.

Tudo que quero mesmo é parar de reclamar, reclamar sem realmente saber do que estou falando. Resolvi começar pela cidade. E assim quero que seja com as pessoas, com o trabalho, com a vida. Reclamar é muito chato.

Ilustração: Claudio França. Links: www.vitoria.es.gov.br;www.maes.es.gov.br

7.4.06

Texto ultrapassado

Chegou a conta de celular de fevereiro. Mês de Rolling Stones, Franz Ferdinand, carnaval. Ou seja, mês de pagar o maldito deslocamento. Nem cito valores, para não reviver a tristeza que senti ao ver o quanto tive que desembolsar.
Resolvi então ir à loja da minha operadora para trocar o plano com urgência.
Sento com uma atendente muito da grossa, com a cara cheia de espinhas e voz de macha. Lembrei do Massaranduba.
- Qual é seu plano?
- Não sei o nome. Comprei na promoção do Dia dos Pais de 2004.
- Ihh, seu plano é bem antigo.

Antigo? Mas hein? Quer dizer que agosto de 2004 agora é antigo? A noção de tempo mundial mudou mesmo, isso não é mistério. Mas daí a 2004 ser antigamente é demais. Só faltou ela falar que em algumas cavernas já encontraram até desenhos com seres humanos caçando mamutes e usando um celular igual ao meu. E isso porque o comprei em 2003. Sempre foi perfeito para mim. Nunca senti falta de máquina fotográfica, tela colorida, toques polifônicos, poliglotas, enfim.
Máquina fotográfica é igual. Quando surgiu a digital, foi aquele furor anal nos famintos por lançamentos tecnológicos. De repente, ter uma máquina de 2 MP passou a ser credo, ridículo, que vergonha. Comprei a minha com 5 MP, pensando em também usar sua poderosa definição e recursos fantásticos em layouts. Na colação de grau do meu irmão, uma mulher sentada ao meu lado olhou para minha máquina com aquela carinha de inveja e perguntou:
- Quantos megapixels a sua tem? Sete?
- Não. Tem 5.
Pronto. A expressão dela voltou a relaxar e um sorriso de canto de boca aflorou naquela cara cheia de pancake:
- A minha tem 7.
Mal sabe ela que provavelmente nunca vai desfrutar de seus tão bem-dotados sete megapixels. Que pra uma câmera ser boa, outros fatores também têm que ser considerados. Optei por fazer minha boa ação do dia. Fiquei quieta.
E nem foi só a tecnologia que ficou mais perecível. Tudo vai ficando ultrapassado com uma velocidade maior que nossa memória e conta bancária podem suportar. Até as relações pessoais. Acompanha só:
Você quer conhecer uma banda nova. Vai e baixa em casa mesmo. Só que não tem tempo pra escutar. Então compra um MP3 player. Mas celular e MP3 player ocupam muito espaço. Compra um celular com MP3 player e máquina fotográfica. A resolução da máquina fotográfica não é tão boa assim. Compra um supermáquina digital. Aí você começa a tirar foto de tudo quanto é coisa: você no espelho, amigo bêbado, fotos poéticas. Pensa então: vou criar um fotolog. Aproveita e entra no Orkut também. Olha!, que jóia, todos seus amigos lá, até aqueles sumidos. Adiciona todos no Messenger. Toda vez que entra na internet, faz malabarismo indo ao Orkut, fotolog, checando seus emails, baixando músicas e ainda falando pelo Messenger. Quando você vê, tudo que foi criado pra “ganhar” tempo, “ganhar” espaço, só fez você passar mais horas num mundo virtual, fazendo a manutenção de tudo que criou. E por mais que as maravilhas da modernidade deixem tudo mais prático, nada se compara a encontros ao vivo, pessoas reais.
- Me deu um ninja, hein?
- Foi mal, não deu pra ir. Não viu o recado que deixei pra você no orkut?
- Não acessei essa semana.
- Também mandei email.
- Não acessei também.
- Te mandei torpedo, cara.
- Meu celular quebrou, contei não?
- Porra, assim fica difícil te encontrar. Mas bem que tentei avisar.
- Mas por que você não foi?
- Marquei de encontrar uma amiga que mora na Inglaterra no Skype.
- Porra, cara, mas era nosso chope mensal.
- Foi mal. Mas é que antigamente eu tinha mais tempo. Entra aí no Messenger que a gente se fala mais.

31.3.06

Hormônio, hormônio meu


Sacaneio demais meus hormônios e eles, em troca, fazem meu corpo produzir leite. Sim, fico com os peitos cheios como uma vaca - e não se deixe enganar, não é gravidez. Se fico estressada, eles agem assim, me aprontando essa. Quando não são os peitos é a pele que começa a pipocar, fica em erupção parecendo um abacaxi. Além de me estressar um dia sim o outro também, tomo o anticoncepcional só quando lembro. Ou seja, sempre na hora errada, duas ao mesmo tempo e por aí vai. E nessa bagunça os tais hormônios começam a entrar em parafuso. Malditos. Brincam de montanha russa com o meu humor, me fazem chorar que nem louca.

Esses dias fiquei sabendo que o pior ainda está por vir. Sim, os hormônios aprontam mais. Lá entre os 40 e 50 anos, quando a gente mais precisa deles, puf, os desgraçados somem. O resultado é desastroso: a vagina resseca (pra mim isso é o pior), o cabelo cai em tufos, a gente fica anêmica e sem falar nas tais famosas ondas súbitas de calor extremo. Por serem tão danados, comecei a culpar meus hormônios por tudo de ruim que me acontece. Xinguei no trânsito? Briguei com meu filho? Dormi mal? Tudo culpa deles. Tem quem culpe a TPM, mas acho que esse argumento ficou meio fraquinho, hormônio é mais científico. Eu e eles vivemos em crise, disso tenho certeza. Mas pelo menos tenho alguém em quem pôr a culpa.

23.3.06

Nulo


Ela prometeu que não esqueceria mais a toalha molhada na cama, não deixaria louça acumulada na pia e que, tudo que abrisse, fecharia.
Ele prometeu que beberia menos, que ouviria Motörhead bem baixo e só veria os amigos quando ela deixasse.

Ela jurou que não o chamaria mais pra ir à missa, que falaria menos ao telefone e que nunca mais atrasaria.
Ele jurou escutá-la mais atentamente, não discutir política com o sogrão e parar de arrotar nas refeições.

Ela disse que pararia de rir tão alto, que compraria menos sapatos, se era isso que ele queria.
Ele falou que dirigiria mais devagar, que deixaria o futebol pra lá e voltaria a malhar.

Um dia se olharam e viram que não havia mais nada a pedir. Mais que isso, que já não conheciam nem ao outro, nem a si.
De tantas afirmações e exclamações, sobrou apenas uma pergunta: cadê a pessoa com quem me casei?

Ilustração: Ramon Alves (http://semsabersonhar.blogspot.com)

16.3.06

Espinhos para a vida


Comprei dez cactos para enfeitar minha janela. Muito bonitinhos, cada um de um jeito, fofos mesmo. Fiquei bastante feliz por comprá-los, estava recém-separada, indo morar com meu filho de um ano em um apartamento simples e, como descobri mais tarde, muito quente. Mas, ainda assim, representava uma conquista, uma nova etapa na minha vida, um passo dado – tanto o apartamento quanto a coleção de cactos. Enquanto a vida passava, os cactos se mantinham ali na janela, uns bem, outros nem tanto. A vida passava pra mim também.

Dois cactos morreram na mesma semana. Fui demitida de um emprego, sete meses depois minha querida vó morreu - meu irmão se foi um ano antes. Fique com oito cactos. Fui para um novo emprego, que me deu muita experiência, meus primeiros prêmios e a maturidade que hoje me faz entender que poderia ter aproveitado aquela época melhor.

Sobraram dois cactos, a janela agora é uma varanda. Me mudei novamente, agora para meu próprio apartamento, graças ao meu pai. Apenas um cacto foi comigo. Fui demitida mais uma vez, tive problemas de sobra, alguns ainda não estão totalmente resolvidos, pelo menos não dentro da minha cabeça. Não corro mais o risco de ser demitida. Troquei-o pelo risco de falir. Da minha varanda vejo o mar, o apartamento é bastante arejado. Posso dizer que agora está tudo melhor. O último cacto ainda está comigo. Nós sobrevivemos, mesmo com todos os espinhos.

Ilustração: Claudio França.

10.3.06

Levanta-te e anda, minha filha.



28 de novembro. A despedida. Fiquei sem imaginar como seria passar um mês sem lentes de contato, apenas de óculos. Totalmente dependente daquela armação modernosa e aquelas lentes nojentamente arranhadas. Sair à noite seria um pesadelo. Ninguém ia me querer, em sentido algum. Por que alguém bateria papo com uma pessoa com cara de nerd? Com uma menina que parece ter saído do trabalho direto pra noite? Com tantos olhos bonitos, com lápis preto, delineador e sombra, quem olharia pra um par de lentes grossas? E não adiantava ninguém falar. Pra mim, sair de óculos é praticamente virar óculos. Algo que chama tanto a atenção pra si que neutraliza qualquer outro acessório ou atributo que eu destacasse. Se eu saísse correndo pelada de cabeça pra baixo, ninguém gritaria:
- Olha, uma menina pelada de cabeça pra baixo!
Apenas diriam:
- Olha, uma menina de óculos! E veja isso, não acredito! Ela está de cabeça pra baixo!

Paralelo à abstinência de lentes de contato, venho vivendo outra ainda mais dilacerante (chama de fútil que não ligo). A falta de meu carro. Eu? Sem carro? Quem poderia imaginar isso? Sou daquelas que quando entra no ônibus com um amigo escuta:
- (risadinha escrota) Que engraçado você num ônibus.
Engraçado, né? Sei. Já peguei sim muito ônibus, sem querer dar uma de filha de Francisco. Até pouco tempo atrás, ia de ônibus pro trabalho, mesmo com carro na garagem. E gostava sim. Foi a época em que mais li livros. Lia no ponto, no ônibus, no elevador. Fora que não tinha que lidar com flanelinha. Mas ficar sem minha carteira de motorista, aquela maldita habilitação para categoria B tirada com custo na terceira tentativa, me fez murchar.

Duas coisas que não imaginava ter que abrir mão, que não me enxergava sem. Pensei, meditei profundamente, gastei horas divagando sobre isso e conclui: fudeu. Amigos se afastariam, perderia rocks, oportunidades, deixaria de ir à praia, mudaria de academia, teria que virar caroneira. Tudo isso de óculos, pra garantir que a auto-estima continuaria lá no lugar dela, na chón.

(...)
Faz dois meses e dois dias que só ando de óculos e dois meses e meio que estou sem carteira. E sabe o que minha vida virou nesse tempo? Tudo, menos ruim. Eu, que nunca me considerei uma superficial, que sempre achei que conviveria bem com grandes mudanças, balancei quando precisei me despir de carro e lente. Dois meses depois, me vejo como uma menina de 15 anos, que descobre, lendo O Pequeno Príncipe e escutando Legião entre lágrimas, que é capaz de muito mais do que imaginava.

E agora, leio esse texto todo e acho que ele parece mesmo algo que eu escreveria 10 anos atrás. Será que a gente nunca aprende? Ou será que tudo é um ciclo? Se for, quero conseguir a proeza de me abster de coisas que amo de vez em quando. Deixar de ver um seriado que acompanho. Comer doce durante a semana. Faltar um dia na academia e não ficar paranóica achando que já caiu tudo. Esquecer o celular em casa, sem medo de perder o telefonema da minha vida.

É difícil, como é, tirar alguma peça-chave do dia-a-dia em nome da manutenção da identidade. Só que de vez em quando, quero lembrar que sou mais que carro, mais que lentes de contato. Quero tirar isso tudo e perguntar a mim mesma o que sobrou. Aliás, não quero ser a sobra. Quero o contrário. Vou me tirar. O que sobrar, aí sim, é resto.

Ilustração do Galvão. www.vidabesta.com

2.3.06

Defeitos

Sou eu apenas para quem eu quero ser. Não estranhe se eu não me mostrar inteira pra você, pode saber que não quero ser sua amiga ou não gostei do seu jeito. E muitas vezes não sei como dizer isso. Por isso, me fecho. Sorrio pouco, não estico a conversa, não acho graça nas brincadeiras. Não gosto de intimidades repentinas. Se você não conhece meu filho, não pergunte por ele como se conhecesse há tempos. Vai soar falso pra mim e é bem provável que, ao responder, eu faça uma careta sem perceber. Minha simpatia não é gratuita. Escolho bem para quem vou dar os meus sorrisos.

Provavelmente você vai ouvir dos meus amigos uma descrição que não bate com o que você acha que conhece de mim. Vai ouvir que sou alegre e converso bastante, que falo coisas bobas e divertidas. É, não parece a mesma pessoa. Me desculpe, não posso ser como eu sou com todo mundo. Tenho que ser conquistada com sinceridade. Gosto de pessoas autênticas, carinhosas e abertas. Não me venha com seu ar blasé, garanto a você que o meu é bem pior. Nem force a barra me comparando com você, dizendo que somos do mesmo signo, temos gostos parecidos, que somos iguais nisso ou naquilo. Comigo é devagar, é com inteligência, com humor, com refino. Sou isso mesmo que você está pensando, sou metida a besta, me acho melhor em muita coisa, gosto de ter razão, acho que estou certa na maioria das vezes, sou orgulhosa. Agora me diga você os seus defeitos, que não sejam esses que já coloquei aqui.

17.2.06

That's the way, ãrã ãrã, I like it





Envelhecer? Não obrigada. Posso só ganhar mais um ano? Posso só ficar mais esperta, ser mais experiente, ler mais livros, escutar mais músicas, saber mais do que falo? Posso continuar querendo diversão despretensiosa, indo trabalhar de ressaca de vez em quando?

Quero nunca deixar de gostar de festa. Porque festa é mais do que estar lá, no meio de pessoas suadas, dançando, lutando pra pegar uma bebida e mijando na calça na fila do banheiro. Festa é antes, durante e depois.

É pensar no que vou vestir. E de repente até comprar roupa nova. É sentir o burburinho aumentando. Você vai? Fulano vai? Vamos juntas? Quem dirige? Sabe quem vai? Ah, não acredito! Já comprou ingresso? Vai acabar, hein?
E o imediatamente antes também é bom. O se arrumar, os telefonemas de “já tô chegando”, as logísticas de quem vai com quem.

E aquela ansiedadezinha, a mesma que tinha aos 18 anos, e pela qual tanto estimo, vai aumentando com a proximidade da festa. Ao mesmo tempo dá até dó de pensar que o momento tão esperado finalmente tá chegando e, portanto, acabando.
Eis que a festa começa. E aí, parece que tudo dispensa palavras. Luzes piscando, gente, bebida. Música preferida! Quero dançar essa. Hora de fazer xixi. Descanso com amigos. Papo, risadas, papo, risadas, papo, risadas. Pista, mais pista. Suor, esfregação nas amigas, caras e bocas, bebida, bebida derramada no pé, cotovelada, suor, beijo. Luzes mais frenéticas. Gritos na tentativa de conversar.
De repente, o cérebro parece entrar numa outra freqüência. Tudo começa a acontecer num tempo diferente. E não é só bebida. É um tempo de festa. Uma catarse, uma hipnose. Um momento que não se mede em ponteiro, mas em sensações. E quando se cai no mundo real, já são 4 da manhã.

Apesar de ser uma degustadora de festas, assumo que é um alívio chegar em casa, tomar um banho e dormir rindo. Porque suor, pé pisado e sujo, cheiro de cigarro no cabelo e maquiagem borrada não combinam mesmo com espelho na manhã seguinte. Pro day after prefiro quando ficam só aquelas imagens picadas na cabeça, um quebra-cabeça que sempre fica incompleto, porque alguns momentos se perdem totalmente. Será que cada um guarda pra si um pedaço de recordação? Será que cada um vive um pouco da festa e ela só funciona porque esse coletivo se completa? Será que tô precisando de uma festa pra parar de inventar teorias esquisitas?

Melhor que isso tudo, só festa de aniversário. E não se trata de ser o centro das atenções. Mas de ser aquela (no meu caso “aquelas”) que reúne, que organiza, que premedita todo o evento. Ver amigos chegando, se divertindo e tudo indo bem, num dia tão significativo, é a felicidade no estado mais besta e volátil que existe.

Envelhecer? Não, obrigada. Muito menos na minha festa de aniversário.

9.2.06

As dores e o tempo


Experimente fazer um corte no seu próprio braço. Nada de mais, algo superficial. Vai doer, ficar vermelho, sangrar, arder na hora do banho. Provavelmente você tenha que colocar um band-aid. Vai incomodar. Mas no dia seguinte o corte terá uma fina casquinha. Mais dois ou três dias a casca ficará mais forte e a pele por baixo vai estar quase sarada. Em uma semana a casca já se foi e seu braço estará lá, com uma leve marca branca, um fio que irá desaparecer com o tempo. Mas você olha e tem certeza de que o machucado fechou e não abre mais, a não ser que você se corte novamente. A cicatriz não incomoda, a pele está praticamente perfeita, tudo certo.

Experimente um corte na alma. Uma dor qualquer – uma decepção, uma traição, uma perda. Você consegue saber quando a cicatriz fecha de vez? Prefiro mil cortes no braço a uma dor na alma. Não vejo o quanto ela sangra, acho que já estou curada e de repente, sem eu saber por que, a dor volta e sangra tudo novamente. O tempo cura tudo? Os cortes no meu braço, sim, na minha alma, desconfio que não. Ou pelo menos esse tempo é bem maior do que eu pensava. E também me engana, pois vejo ele passar e não vejo minha alma sarar. O problema está em mim ou no tempo? Ou nos cortes que tenho? Se souber o nome do remédio pra isso, me conte. Tempo eu já sei que não é.

Para Marcelo, meu irmão. Ilustração: Paulo Prot.

2.2.06

Dom

Amor é uma merda.

Diz meu antigo psicólogo que é criação do homem. Uma palavra inventada pra justificar uma necessidade social nossa: a de criar família, ser monogâmico e ter a obrigação moral de manter isso até que a morte nos separe (ou seria até que a morte nos salve?).
Amor que faz a gente ficar cego, surdo, mudo, paralítico, retardado, tolerante demais até.

Queria conseguir ver as pessoas que amo há tempos como quem acabou de conhecê-las. Ver seus defeitos, seus podres e chutar pra longe na primeira encheção de saco. Mas esse amor, invenção ou não, não deixa. Será que é medo? Sou uma covarde que prefere acreditar que é melhor aceitar amores incondicionais a buscar novas paixões? Ou seria o medo de deixar de ser amada?

Ah, mas que pretensão a minha. Quem disse que esses, a quem amo sem saber mais o porquê, também me amam? Quem garante que não dizem “ufa” quando desligo o telefone? Vai ver que com o tempo o amor vira isso. Uma encenação.

Tentando ser otimista, pode ser também uma forma evoluída de amor, por que não? Esse cansaço, esse nervosinho de já saber o que o outro vai dizer e fazer, pode ser algo perto da telepatia. Um sentimento transcendental, que nos coloca perto de Deus por evidenciarmos nossa bondade de espírito ao suportar o que nos é agora intragável.

Se é invenção, se é evolução, se é outra rima besta qualquer, não interessa agora. Jurei não sentir mais raiva quando fosse espizinhada por alguém que amo. Não quero perder meu tempo com isso. Nem com ódio, com lamento, com planos de vingança. Vou ser indiferente e fingir que continua tudo bem.

Porque se amor é invenção, deixar de amar é um dom.

Ilustração: Paulo Prot (Valeu, tem-tem. Vou abusar mais vezes:)

26.1.06

"Às sextas sou mais feliz"


Acordei pensando em ir pro trabalho com meu tênis adidas laranja, jeans e camiseta branca. Era sexta-feira, um dia que, mesmo sendo útil, tá mais pro clima de relax do que pra mules e saias-lápis típicas de reunião com cliente. Além da roupa, meu humor também estava mais casual. Perguntei-me se era somente o efeito sexta-feira, se só de olhar pela janela e enxergar somente os sorrisos das pessoas era uma atitude normal ou acontecia por ser o melhor dia da semana. Mas, como era sexta-feira, não quis pensar muito sobre isso. A semana tinha sido longa, quase uma montanha russa, com alterações bastante acentuadas. Já sei que são meus hormônios que se alteram, mas isso é assunto para outra história.

E já que é sexta-feira, quero usar branco, quero estar com vestidos floridos, quero ter cabelos longos e esvoaçantes, quero tomar sorvete, quero sair do trabalho antes do sol se pôr, quero ler um romance açucarado, quero ouvir cigarras cantando, quero receber um aumento, quero pegar um avião e chegar ao Rio na hora do rush. E foi numa dessas sextas-feiras que, estando desse jeito, pintei os pés e as mãos de rosa para ficar com dez pétalas me sentido flor.

Gus, obrigada pelo título e pelo incentivo.

24.1.06

Só pra mim

Nas últimas semanas vi duas cenas incríveis. Descrevendo não vai ser a mesma coisa porque, afinal, sou uma mera redatora de merda.

A primeira delas aconteceu semana passada, num típico dia sauninha. Aquele ar abafado, denso, quase sólido. Céu com algumas poucas nuvens largas, daquelas que são mais pra filó do que pra algodão. Lá no fundo, umas bem cinzas e carregadas chegavam. A luz do dia era estourada, parecia flash: bem branca, que incomoda mais do que dia de solão amarelo. Andava para o trabalho pensando em alguma besteira quando vejo passar, bem na frente das nuvens escuras, um avião. O contraste foi o que mais me chamou a atenção. O avião, que já era claro, reluzia ainda mais com os raios brancos que batiam nele. A diferença de tons entre ele e a nuvem era tão grande que o avião parecia haver sido recortado e colado lá. Depois fiquei impressionada com a imensidão daquela nuvem, que fazia aquela geringonça, de metros de largura e mais metros de altura, ficar igual a um brinquedo.

Agora a segunda história.
Voltando pra casa do trabalho, em um dia diferente, aconteceu a outra cena. O vento estava forte e eu caminhava contra ele. Contra, mas a favor, já que ele muito me apetecia naquele instante. Estava de cabeça baixa quando senti algo encostar em meu rosto. Troquei o chão pelo horizonte e olhei pra frente. As flores de uma árvore, alguns metros adiante, cansaram de resistir ao vento e passaram a segui-lo. Eram tantas que nem sei como tentar enumerar e vinham na minha direção. Com toda delicadeza elas tocavam meu cabelo, meu rosto, os braços, as pernas. O vento continuava sacudindo a árvore que já estava totalmente arqueada, provavelmente lamentando a perda das suas tão estimadas florzinhas amarelas. Elas vinham em formato de casquinha de sorvete. É cônico que se chama, né? Partiam da árvore e vinham se abrindo círculos cada vez maiores, como bolinha de fumaça de cigarro que vai se dissipando no ar.

Pronto. Foi isso.
Parece bobo, banal, simples. Mas essa é a melhor parte: não foi.

Fiquei pensando no porquê daquelas cenas terem martelado minha cabeça por dias. Me dei conta que só consegui admirar os dois momentos porque estava bem. Se eu estivesse de mau humor, ressaca ou acordado com o cabelo horroroso, acharia o avião barulhento e as flores grudentas. Mas não. Lá estava eu, uma pessoa feliz, caminhando pela Eugênio Neto. Não que eu já não fosse. Mas ser lembrada disso de forma inusitada e tão vertiginosa, me fez cair na real.
O melhor é que adorei esse gostinho de pessoa abobada, que sorri com qualquer coisa. Deve ser por isso que ando exigente. Quero o bonito, o doce, o recheio, a parte mais crocante, o último pedaço, a cereja, o elevador vazio, o ônibus no ponto, quero achar dinheiro no bolso, quero o lado bom de tudo.
A tpm vai chegar, o cabelo ainda vai ficar sem jeito, vou queimar alguma coisa na hora de passar. Mas na hora eu penso nisso. Agora quero dar bom dia pra cachorro, achar elogio de peão legal e, assim, ir transformando tudo em aviões prateados e flores amarelas.

13.1.06

Fadiga


Cansei de tudo, começando por mim (para início de ano, esse texto não me parece muito apropriado). Mas não consigo parar com a idéia fixa de cansaço. Os fogos da virada não abafaram os pensamentos que explodem cada vez mais fortes com a mesma nota. Não me diga para procurar um médico, fazer exercícios, tomar vitaminas, fazer análise. Já fiz tudo isso. Já voltei a ficar bem em alguns momentos mas o cansaço sempre volta, e cada vez mais forte, que nem gripe mal curada.

Cansei mesmo. Esses dias, me cansei da minha mãe, no outro, de ser mãe. Cansei de ter que ter tesão, cansei de ficar à toa, do meu trabalho acho que já cansei faz tempo. Cansei das minhas amigas, de saber da vida delas, de ouvi-las com os mesmos problemas. Será que elas também não se cansam daquela vidinha? Cansei de malhar, de querer emagrecer e de estar acima do peso, cansei de comer frutas e beber dois litros d’água por dia. Cansei de arrumar a casa, de escolher cores novas para as paredes, de mudar os móveis de lugar para fazer a energia fluir. Cansei de fumar maconha. Cansei de comprar roupas, fazer as unhas, cortar o cabelo.

Não pense que cansei de viver. Só me cansei da vida que aprontei pra mim. Certinha, normal aos olhos dos outros, tudo no lugar, nada pra se queixar. Nem mesmo da empregada que é honesta e esforçada. Eu me achava normal e equilibrada mas o Grande Cansaço me derrubou. Penso em fugir da minha vida pelo menos umas três vezes por dia. Estou presa a tantos papéis, acordos verbais, documentos assinados que nem sei por onde começar a cavar o túnel pra minha fuga. Notei que isso estava realmente grave quanto cansei de ler e ir ao cinema. Escrever é uma das poucas coisas de que não me cansei ainda.