30.8.06

Como acabar com um dia em menos de 24 horas



Teve um daqueles sonhos ruins. Lembrava-se de absoltamente nada, mas sentia resquícios amargos de pesadelos, como uma ressaca. Levantou-se rapidamente e foi direto lavar o rosto e tentar despertar o cérebro para uma nova realidade. Ao olhar-se no espelho viu que mantinha as sobrancelhas e a testa franzidas. Tratou de relaxar e mentalizou "foi só um sonho". Foi tomar o café e, no caminho para a cozinha, deu bom dia a todos. Apesar de seguir o ritual matutino, sua irmã notou uma expressão diferente e perguntou:
- Tá nervosa com o quê?

Achou a pergunta engraçada. Tudo bem, ela sabia que não era lá uma mulher calma, mas em vez de bom dia ouvir tá nervosa? era demais. Não se considerava atacada, mas a maioria dos amigos diziam que ela era sim. Dentro dela, sabia bem a diferença entre sentir raiva e sentir tensão. Mas por fora, devia ser que nem o Ricardo Macchi: não demonstrava a menor diferença entre as duas expressões. Daí a razão de todos sempre acharem que ela estava puta da vida quando na realidade estava só exaltada. Falava alto, com paixão, com gestos fortes. Mas isso não era raiva. Quando ficava com raiva, estressada, atacada, como diziam, ela ficava era quieta. Mas por mais que tentasse explicar isso pra alguém, sempre achavam que era desculpa.

- Nervosa? Não. Tive algum sonho estranho. Um daqueles que some da memória, mas deixa uma sensação ruim.
- Odeio esses sonhos, odeio.
Terminou o café e resolveu tomar um banho com seu óleo preferido, pra ver se chamava boas energias ou se conseguia chamar o sonho de volta, pra pelo menos entender o motivo do mal-estar.

Saiu para a aula. Era dia de Estatística. Chegou tarde, já que sua irmã, que odeia tudo, nesse dia odiou sair com pressa de casa e atrasou todos que estavam de carona com o pai. Entrou na sala, sentou, arrumou os cadernos em cima da mesa apertada, guardou uns livros embaixo da cadeira e respirou fundo. Agora começaria a assistir à aula.

- Eliane.
- Sim, professor - desde quando o professor sabe meu nome, pensou ela.
- Pela sua cara vejo que passou a noite estudando.
- Não, dormi mal mesmo.
- Tá irritada?
- Não, professor, tudo bem.
- Então aproveite que está bem e venha ao quadro responder à questão 6.
Ir ao quadro era um terror para ela. Até cogitou a hipótese do sonho ruim ter
sido exatamente isso. Mas pior ainda era ouvir de novo "tá irritada?". Porra,
mas será que por mais que se esforçasse, sempre parecia nervosa?
Terminada a aula, recebe um telefonema de Rafael.
- Bom dia, tchuquinha.
- Oi, môzin, bom dia.
- Tudo bem? Tá com uma vozinha triste.
- Impressão sua, tá tudo bem.
- Mô, tô ligando pra dizer que não vou poder jantar com seus pais hoje.
- Mas tá marcado há mais de um mês, Rafa.

E de repente, como se fosse sugada por um ralo, viu o sonho ruim voltar à sua mente. Via seu namorado com um abadá, abraçado a duas mulheres, uma lata de cerveja em cada mão dizendo "eu falei que comigo era assim. se quiser agüenta." Milésimos de segundos depois, tragada de volta ao telefone, piscou os olhos rapidamente e balançou a cabeça, tentando eliminar a vertigem.

- Porra, Rafa.
- Lili, não fica nervosa.
- Desculpa. Acabei de lembrar do sonho. Foi ruim mesmo. E o que você falou
não ajudou. Posso te ligar depois?
- Credo... não precisa estressar.
- Por que todo mundo cismou que tô estressada? é a terceira pessoa hoje, que coisa. não é estresse. Só preciso me recompor.
- Quem tá calma não precisa se recompor.
- Me ajuda, mô, vai.
- Ajudar a quê? Você tá me maltratando.
- Não tô maltratando, porra.
- Ó, já tá até xingando.
- Falei porra, nada demais, nem é xingar. É que nem poxa, putz, caramba.
- Se é igual você podia ter falado "não tô te maltratando, poxa".
- Rafa, sério, na boa. Deixa eu desligar. Te ligo depois, tá?
- Você tá puta porque desmarquei o jantar, fala a verdade.
- Rafa... Rafa... eu tive um sonho ruim com você e acabei de lembrar, tá? Acordei ruim, cheguei atrasada, fui pro quadro. Só que além de lembrar do sonho horrível que tive, acabei de ouvir de novo que tô estressada. Enfim, preciso respirar um pouco, deixar isso passar.
- Agora tá me culpando? Com todo mundo você foi calma, comigo é que fica dando ataque.
- Que ataque? Do que você tá falando? Tá doido? Não mudei o tom, não levantei a voz.
- Não, Eliane, quem tá doida é você. Tá nervosa comigo porque sua manhã foi uma merda.
- Eu não disse isso.
- Então agora eu também sou mentiroso?
- Não, Rafael, você tá entendo tudo errado.
- E burro também?!
- Melhor não falar mais nada.
- Também acho. Quer saber? Vou desligar e você fica aí pensando no seu pesadelo.
- Mas era isso que eu queria fazer desde o início.
- Então você já tava planejando essa conversa??
- Não, Rafael, eu.... ai, cansei.
- Eliane, quer saber. Se você queria terminar comigo, poderia ter feito ao vivo.
- Rafael, do que você tá falando? Meu Deus, que coisa sem sentido isso tudo
- Sem sentido mesmo. Quer saber? Depois a gente conversa.
tu tu tu tu tu.

Sem conseguir levantar o queixo, Eliane foi caminhando em direção à cantina. Inspirava e expirava lentamente. Decidiu pedir seu suco preferido. Pior não poderia ficar.
- Um suco de maracujá, por favor.
O coração ainda estava disparado, mas se recusava a entregar sua manhã à tanto mal-entendido. Jogou suas esperanças pro suco que logo logo ficaria pronto. Ia até colocar açúcar em vez de adoçante. E no final ia chupar e morder todos aqueles gelinhos, bem devagar, pra ajudar a espantar a tensão e o calor. E quando só sobrasse aquela espuminha no fim, puxaria com um canudinho até fazer barulho. Os outros que olhassem, ela nem ligaria.
- Suco de maracujá é de quem?!
- É meu, meu! - Ela respondeu feliz, quase saltitando, certa de que a salvação do dia estava naquele copo sujo de vidro, onde dois canudos, provavelmente anteriormente usados, a levariam ao nirvana.
- Suco de maracujá é bom pra acalmar.
- An-rã.
- Tá nervosa?
Sim. Agora ela estava.

ilustração: vlad paiva.

18.8.06

Do you wanna dance?


Tenho inveja de quem sabe dançar. E a culpa por eu não saber deixo toda com a minha mãe, que não me colocou no balé quando eu tinha três anos de idade, nem falou pra eu fazer jazz quando tinha dez. Não tenho ritmo, não sei acompanhar as coreografias inventadas na hora nas festinhas bagaceiras, sou desajeitada até.

Teve um filme que ficou seis meses em cartaz no cinema da UFES, o Metropólis. Acho que o nome era Vem dançar comigo, se não me engano era um filme australiano. Pelas filas que se formavam na porta do cinema, imagino que muita gente compartilha comigo a inveja de não saber rodopiar nos salões de baile com a elegância de uma bailarina russa (meu deus, de onde tirei isso?).

Se tenho um sonho, ou mais um, é aprender a dançar. E não é só isso. Sonho em ser levada pelos braços por alguém que também dance como Fred Astaire. Que me pegue pela mão na hora da música perfeita, que o tempo pare na hora, que a vida fique em câmera lenta. Na verdade, não precisa tanto. Já iria ficar feliz só com a encenação de uma dancinha de corpos encaixados, rostos colados e pés certamente pisados.

Perto do meu trabalho tem um clube, o Centenário, onde um professor chamado Emerson Barreto dá aulas de dança de salão. Quase todos os dias penso em ir lá me inscrever, mas ainda não consegui coragem suficiente. Fico pensando na seguinte cena: Olá, boa noite. Eu vim fazer a aula de salão. Se eu sei dançar? Não, não. Se eu gosto de musicais? Sim, por quê? Bee Gees, não, nunca dancei nenhuma música dos Bee Gees. E neste exato momento vem lá de dentro um rapaz de terno branco que atende pelo nome de Tony Manero, me puxa pela mão, as luzes se apagam, o globo espelhado começa a girar e só conseguimos ouvir ah, ha, ha, ha, stayin' alive, stayin' alive. Dançar pode ser muito arriscado.

9.8.06

Desisto

Qual é a hora de desistir? Quando tenho que tirar o time de campo? Como é que vou saber se estou sendo sensata ou se estou amarelando? Lembro de quando tinha uns 18 e alguns anos. Disse aos meus pais:
- Quero fazer aula de dança Flamenca.
Meu pai então respondeu:
- Mais uma coisa que você vai começar e parar pela metade.

Na época, não sei quantas coisas já havia largado no meio. Mas agora resolvi fazer uma retrospectiva. Balé eu fiz quando morava no Rio. Chegando aqui fiz Jazz. Devo ter saído porque aulas de Jazz pararam de existir. Até me apresentei no Carlos Gomes. Um talento desperdiçado. Inglês fiz até o fim. Foram 7 anos. Piano eu parei. Não gostava do professor. Voltei quando estava já na faculdade. Mas era meio carinho, não deu pra levar. Caratê. Fui até a faixa amarela. Parei porque minha coluna doía. Curso de escalada. Apesar de ter amado não continuei praticando. Curso de italiano. De francês. Faculdade. Pós-graduação. Hidroginástica. Body Jump. Duas aulas de alemão gratuitas. Curso de teatro. Cursos, cursos.

E agora eu penso: por que diabos eu teria que terminar tudo que começo?
Não tenho o direito de mudar de idéia? Sei que meu pai, em sua função difícil de educar uma cabeçuda, estava apenas me alertando para algo que julgava poder se transformar num problema. Imagina eu não conseguindo terminar nada?

Uma vez o Gaiarsa, aquele psiquiatra com idéias polêmicas, disse que não existe isso de uma relação "não dar certo". Enquanto existe dá certo, oras. E acho que ele tem razão. Quando não há mais prazer em realizar algo fica impossível aproveitar. E aí, desistir não é covarde. E até bem corajoso. Veja bem. Não estou falando em ver um problema pela frente e chutar o balde sem mesmo tentar. O meu desistir passa por todas as fases: a do prazer, a da dúvida, a da persistência, a da persistência, a da persistência e só então da aceitação de que acabou.

O problema é saber quando acaba. Aquele minuto em que você diz: não dá mais. Uma amizade, por exemplo. Como saber a hora em que ela não existe mais? É quando as pessoas param de se ver? De se falar? Ou dura enquanto há amor? Se bem que amor não basta. Mesmo. Então é até quando há sintonia, coisas em comum? Como saber a hora de desistir de um projeto? Ou menos até. Como mudar de idéia com a certeza de que você não está se deixando levar pelos outros, mas simplesmente pensando de outra forma?

Pra que meu pai foi dizer aquilo. Virei uma paranóica (como é bom culpar alguém). Triste admitir, mas a gente já faz tanta coisa por obrigação. É conta pra pagar, cliente pra acatar, vizinho pra agüentar, horário pra cumprir. E quando quer desistir não pode simplesmente porque tem que ser firme, íntegro, mostrar persistência?

Por isso, pai, sinto muito, mas desistir não tem nada a ver com perder e ser derrotada. Tem a ver com chegar cada vez mais perto do que eu quero ser. Bem. Mesmo que eu não tenha a menor idéia do que eu queira ser. Mas que mal há em continuar procurando? Pelo menos vou aprendendo e me divertindo, sabendo que desistir não vai apagar nenhuma experiência passada. Apenas abrir a possibilidade para outras muito mais interessantes.

Ilustração: Vitantonio Semeraro (meu pai)

31.7.06

Declaração de ódio



Odeio quem buzina. Não quem faz um bi rápido, mas quem faz questão de descer a mão e soltar um biiiiiiiiiii de doer a alma. Ou quem pára em frente ao portão de alguém e cria uma melodia: bibi bibibibi bi bi biiiiii. E repete isso umas quatro vezes. Odeio quem não pede licença, não dá bom dia no elevador e se faz de sonso ao entrar numa fila. Odeio o Faustão, Gugu e seus genéricos. Antes de ter TV paga, assistia à TV Cultura aos domingos. Prefiro os programas que mostram elefantes e pavões em seus habitats naturais. Odeio gente estressada o tempo todo e gente que não muda o discurso: ai, menina, to tão cansada, to trabalhando tanto...Só você né, fofa? Odeio gente blasé. Odeio gente mal-educada, pedante, arrogante e gente que arrota alto no meio da rua. Odeio gente grossa. Odeio axé e daí pra baixo. Odeio peruinhas com som alto que tocam, adivinha o que, axé em pleno sábado de manhã pra anunciar uma micareta qualquer. Odeio gente que quer se enturmar rápido demais. Odeio Campari. Odeio bar com lâmpada florescente e mesa de plástico, a não ser nos pés sujos originais. Odeio médico que atrasa no consultório e não pede desculpa pela demora. Odeio cachorro pincher quando late e poodle pintado de rosa. Odeio puxa-saco. Odeio simpatia em excesso. Odeio e-mail com mensagens mela-cueca. Odeio drama e gente melindrada. Odeio escândalo. Odeio frescura mas também odeio machos muito machos. Odeio gente que bebe e perde a noção. Odeio cocaína. E, por fim, odeio bala de coco.

21.7.06

Dente

Acho que não comprei a revista TPM que falava sobre dor, senão releria agora. Se comprei não lembro. Aliás, consigo pensar em pouca coisa. Tudo que lateja em minha cabeça é dor, dor, dor, dor. Não aquela de tristeza, de perda, de saudade, de amor. Falo da dor física em sua forma mais cruel, aquela que paralisa, que tira o pé do chão de tão intensa. Aquela dor que não dá intervalos, que varia entre fina e pesada o dia inteiro. Nenhum outro pensamento tem vez. Impossível me concentrar em qualquer outro objeto ou assunto. O enredo da minha mente gira em torno da dor: será que vai passar? Por que o remédio não funciona?

Uma das piores sensações é a de que nunca vai acabar. Depois de três dias de dor intensa, a memória esquece como é se sentir bem. Tento lembrar, mas não ficou nem um pedacinho pra eu me apegar. Por mais que me concentre, dormir uma noite inteira e acordar normalmente parecem vultos na minha lembrança, como memórias da infância ou flashs de um sonho.

A vontade de ser forte vai se distanciando e tudo que quero é ficar dopada, estirada numa cama, ouvindo vozes lá longe. A paciência para respirar fundo, manter a calma e esperar passar começa a ser invadida por ondas de desespero. Queria apertar o off e ser religada quando meu corpo puder sentir a ausência da dor. Desabitá-lo um pouco e só voltar quando a faxina com amoxicilina já estiver feita.

Coisa injusta é dor. Por que não sinto a não-dor com tanta intensidade quanto sinto dor? Por que quando estou ótima, com a saúde perfeita, meu corpo não reage inversamente e provoca uma incrível sensação de plenitude? Algo tão grande e tão insistentemente presente quanto a dor, só que agradável.

Sou resistente à idéia de tomar remédio. Adio o máximo que posso, para entender, até onde for suportável, o que está acontecendo com meu corpo. Mas nesse caso não dá mais. Quero meu raciocínio de volta. Minha rotina, meu sono, a capacidade de poder escolher no que pensar, sem ser dragada de novo para uma realidade escura, fechada e apertada, que me prende a um único pensamento.

Entrego então esse dia à dor. Aceito os antibióticos, antiinflamatórios, o repouso que for preciso para amanhã não mais vê-la. Deixo ela derramar seu sadomasoquismo todo em mim. Sadomasoquismo sim, porque se ela fosse apenas cruel, má, uma assassina fria, me mataria logo. Mas não. Ela é esperta. Deixa sofrer, penar, agonizar, porque sabe que se me matar, morre junto.

Ilustração: Vlad Paiva

10.7.06

Sonho de bicicleta


Suas vontades eram as mais simples, e ainda assim não conseguia entender porque era tão difícil realizá-las. Sonhava em ter uma bicicleta para andar nas tardes de domingo, quando fazia sol. Domingos assim deixavam-na mais triste que domingos de chuva. Era o dia em que sentia inveja. Olhava as praças, via mães, filhos e maridos saudáveis vivendo o domingo da forma como sempre quis. Perguntava-se porque não podia viver também.

Era doído ver o sol que entrecortava as folhas formando desenhos dançantes nas calçadas. Só de ouvir o som das risadinhas de crianças sentia vontade de chorar. Meninas magras com suas roupas esportivas cortavam o vento, seus cabelos se enrolavam na sua melancolia. Não parava de se perguntar porque todas aquelas cenas incomodavam tanto. Por que ela não conseguia fazer parte daquele ambiente? Tinha filhos, marido e dinheiro para comprar uma bicicleta, mas sabia que aquele mundo não era para ela. Se comprasse a bicicleta certamente iria empatar um dinheiro para ficar na garagem servindo de abrigo para casa de aranha.

Um domingo ensolarado numa tarde de inverno era, definitivamente, o pior dia que poderia existir. Ligou a TV, jogou-se no sofá e esperou ansiosamente pelo fim do programa.

28.6.06

Breve no Polishop


Ter personal alguma coisa está na moda. Pelo que me lembro, tudo começou com personal trainer. E nem invente de chamar de professor particular, que não é isso. É personal trainer. Fica mais chique. Na verdade, tudo com personal na frente fica mais chique. Personal language, poderia ser professor de idiomas. Personal maid, empregada e personal mate, sinônimo para namorado. Imagine só:
- Fatinha, esse é o Marcelo, meu personal mate.

Aqui em Vitória, onde a população de peruas e emergentes é a maior per capita do país, imagino até um personal guide. Seria assim: você quer fazer compras, mas a Praia do Canto é tão grande que tem medo de se perder. Para ter certeza de que vai ao lugar certo, chama seu personal guide. Ele sabe exatamente onde encontrar o que você quer e no número que precisa, entre todas as opções que a Praia do Canto, o Jardins capixaba, oferece.

E quando chegar em casa, caso tenha problemas em combinar aquela peça de roupa com as outras de que já dispõe em seu closet de 20m², você vai chamar quem, quem, quem? Seu personal stlyler, claro! Se precisar fazer uma viagem, pra que esquentar a cabeça cheia de laquê com malas? Chame o personal organizer, que sabe como ninguém separar os coringas do seu armário e dobrar tudo tão lindamente que você vai ter pena de usar. Tudo isso, enquanto a personal nutricionista prepara o cardápio para seus personal filhos.

Ironias à parte, acho que um personal pode ser útil de verdade em alguns casos. Se tivesse que escolher um, escolheria (ou inventaria) logo um definitivo: o personal me. Não limitaria tarefas. O personal me faria tudo aquilo que não estivesse a fim de fazer. Banco, supermercado, trocar óleo, velórios, reuniões e alguns eventos sociais. Imagina a cara dos outros quando chegasse lá meu personal e dissesse:
- Olá, boa noite. Sou o personal me da Val. Ela me mandou aqui porque tinha outros compromissos marcados. Disse que sente muito e que não perderá o próximo. A propósito, bela festa, parabéns.

Além de ser bem mais simpático que eu, ele ainda reverteria a situação. Em vez de ficarem chateados com minha ausência, os anfitriões ainda sentiriam-se honrados com minha preocupação em enviar um representante. Fora que, o Zig Zag e o Paulo Octavio noticiariam o ocorrido no dia seguinte, lançando a moda em proporções tsunâmicas pela alta capixaba.
O personal me também poderia ser usado para fins mais baixos. Se alguém dá uma fechada no trânsito, você anota a placa calmamente e passa para seu personal, que perseguirá o infeliz e devolverá a gentileza assim que possível.

Ou seja, o personal me tornaria o mundo um lugar mais preguiçoso e vingativo.
Alguém quer patentear?

Ilustração do Galvão: www.vidabesta.com

13.6.06

Amar é não sentir irc


Quando a gente sabe que realmente ama alguém? Que sinal, que prova, em que momento a gente tem essa descoberta tão necessária e importante e, ao mesmo, tempo tão difícil de precisar? Eu arrumei minha maneira. Descobri que amar é não sentir irc. Irc é, para mim, um dos piores sentimentos que você pode ter por alguém. Por isso determinei que ele é muito mais forte do que todas aquelas baboseiras juntas: superar as dificuldades, perdoar, se doar, ser companheiro, ser verdadeiro, sentir tesão de segunda a segunda, ter pinto grande, ter bunda dura, ter dinheiro no banco. O irc é o vírus que destrói o amor.

Faça o teste para saber se você já sentiu irc por alguém:
1) Vocês vão a um restaurante fresquinho, desses cheios de talher e copos na mesa. Ele está lindo, bem arrumado e cheiroso. Mas não sabe pegar o garfo direito, pendura o guardanapo no pescoço e bebe o vinho tinto na taça de água. Como você se sente? Se nem ligou, ótimo, você não tem irc. Mas se se irritou, minha amiga, é provável que você tenha irc.

Quanto aos homens, não sei se eles sentem irc. Até porque eles são meio desligados para alguns detalhes. Se você é homem e está lendo este texto, por favor, dê sua opinião.

O irc não é a aversão a um defeito de alguém. É o nervosinho que você sente pelo jeito de uma pessoa a ponto de não conseguir tolerar nem mais um mês ao lado da pobre ou do pobre coitado. O irc começa aos poucos, você nem percebe direito. É difícil de controlar, é crescente, é dominante. Se você sente irc por alguém, dificilmente ele ou ela vai ser o amor da sua vida. Eu superei os ircs, acho que posso dizer que já sei amar.

3.6.06

A difícil arte de ser simples


Por um momento pensou em chamá-la de alma gêmea. Desistiu. Não queria rebaixá-la a alma gêmea de alguém tão imperfeito.
Ele tão bruto, tão cru. Não sabia esconder seus sentimentos. Eles vinham à tona de um jeito descontrolado. Que nem soluço. Jurava para si mesmo que tentaria ser mais discreto. Incomodava o fato de ele ter as emoções que sentia por dentro sempre estampadas no rosto. Queria saber mentir, ou simplesmente disfarçar, mas nem isso conseguia. Acreditava que essa transparência era uma qualidade, mas desejava aprender a controlá-la. Era incapaz de engolir certas angústias. "Melhor assim", dizia a mãe dele. "Engolir frustrações pode até dar câncer". Ela não imaginava o quanto ele gostaria de correr o risco.

Sentia-se um louco quando, diante da mulher que tanto amava, tinha ataques aparentemente infundados. Experimentava tudo com tamanha intensidade que na adolescência, cercado de espinhas e ignorância, pensava se não era gay. Um homem pode ser assim, tão sensível a tudo? Chegou a considerar a hipótese de ser evoluído demais. Ou ao menos de estar um passo acima da humanidade na escala da evolução. Porque via os pormenores de tudo, ia além do que qualquer um poderia ver. Nada era o que parecia ser. Cansado da teoria darwiniana partiu para a da loucura. Estava convencido de que era doido, maluco mesmo. Que dava proporções absurdas a qualquer coisa.

Estar ao lado dela era a prova maior de que sua mente funcionava de forma misteriosa. Ela sempre calma. Demonstrava algumas inquietações. Mas não chorava diante de pequenos imprevistos ou quando algum programa de TV mostrava dois irmãos se reencontrando depois de anos. TPM, rompantes, ataques. Nada disso acontecia com ela. E quem poderia culpá-la? Apenas invejá-la pela simplicidade com que encarava tudo. Sim, poderiam acusá-la de ser superficial. Pura inveja. Quantos como ele, que não só vêem beleza na tristeza, como gostam de degustá-la, não sonhavam em conseguir ser como ela? Não complicar a vida. Não ter que disfarçar o que sente porque simplesmente não sente. Não se sentir refém de qualquer emoção vagabunda. Não ter medo de se arriscar por desconhecer o tamanho do tombo que pode levar. Não questionar o quanto se é capaz, não se comparar a outros. Apenas fazer o que acreditava fazer bem. Não precisar sofrer, cair, apanhar pra conseguir ver graça em piadas bobas ou comédias românticas.

Ele a admirava. Lutava pra tentar chegar perto do que ela era. Mas sempre que se via diante uma situação em que perdia o controle de suas lágrimas, percebia que nunca conseguiria. Aquilo era sua natureza. E aquilo um dia, ainda acabaria com tudo.
E de fato foi isso que aconteceu. Ele terminou. Não suportava mais tentar entender por que ela o amava e como eles davam certo apesar de tão diferentes. Pensava tanto que não tinha tempo de ser feliz. Que estúpido.

Ilustração: Paulo Prot
http://deliriumtremens.zip.net

24.5.06

Só nos resta viver


Encontrei a solidão esses dias, entre 9 e 10 da noite. Era uma terça-feira, e as terças-feiras sempre se mostraram difíceis e ardilosas. Sinto o gosto da terça-feira, nem chega a ser amargo, tem gosto de inseto que entra pela boca quando você está distraído. As memórias de outras terças-feiras, do peso do dia que parece ter mais de 24 horas, que parece ser longo como um sermão na igreja, que é insuportável como o horário político. É terça-feira, estou sozinha, vulnerável, o tempo é gelado, o vento é cinza. Perfeito para um encontro com ela, justamente de quem mais procuro fugir, me esconder, evitar esbarrões desnecessários.

A solidão é supérflua, não preciso dela, não sinto falta, não desejo e aprendi a me livrar dela com o tempo. Aliás, fazia muito tempo que não pensava nela. Mas bastou ser terça-feira, fazer frio e ser 9 horas da noite, entrar no carro, dar algumas voltas pela rua, ver os bares com casais, ver outros bares vazios, não ver nenhuma mulher sentada sozinha em nenhum deles para me sentir sozinha. Vejo um homem sozinho no bar, bebendo e fumando. A solidão veste melhor um homem que uma mulher. A visão de uma mulher no bar, sozinha, fumando e bebendo é dura e estranha. Além da solidão ainda encontro o preconceito. Estou muito bem acompanhada nesta terça, como já deu pra notar.

De nada adianta os livros que li, o quanto amadureci antes do tempo, todos os perrengues que passei, não adianta o que algumas pessoas já falaram de mim, que sou forte, que agüento tudo, que seguro qualquer coisa. As frases prontas estalam na cabeça: você não precisa de ninguém para ser feliz, você tem que se bastar, você não pode depender de ninguém. Quem falou tudo isso não estava no meu lugar, numa terça-feira fria, com a solidão ali, sentada no banco do carona olhando pra mim. E quanto mais voltas eu dava, querendo encontrar um lugar para me livrar dela, mais ela se recostava no banco e ria. Também dói em mim saber que a solidão existe e insiste.

16.5.06

Sem querer querendo

Odeio pedir desculpas por várias razões. Orgulho nem é a pior delas. O que mata é o que vem por trás das desculpas. Algumas situações são simples de lidar. Um pisão no pé, por exemplo, foi mal aê resolve. Mas em outros casos, desculpa só soa como uma palavra vazia, que tenta reverter algo que não tem volta.

Outro dia eu fui, digamos, um tanto quanto grossa com alguém que amo na frente de outras pessoas. Sim, eu sabia que estava fazendo merda. Mas dentro de mim, em algum lugar, tem um botão que aciona meu Personal Pica-Pau Mau. Não sei precisar o que faz isso surgir, mas normalmente é algo que mexe, de forma que nem eu entendo bem, com meu orgulho ou minha segurança. E aí não consigo me controlar. Vem brotando lá das profundezas do pior lado do cérebro um pensamento maldoso que toma a temida forma de uma frase extremamente escrota, dessas capazes de acabar com o clima de qualquer situação. E aí, depois de um papelão desse, me sinto ainda mais estúpida de ter que pedir desculpas. Como se pronunciar a palavra fosse consertar o que aconteceu. Sim, eu sei que o objetivo de se desculpar não é reparar o passado, mas mostrar que está arrependido, que sente muito pela cagada que fez. Mas a culpa, a consciência de que a qualquer momento algo pode novamente acionar aquele botão do pica-pau mau, faz qualquer desculpa parecer inútil. Não para o outro, mas para mim.

Desculpas não têm propriedade de fazer o fato passado entrar em ebulição e evaporar no ar. A grosseria continua lá, registrada na mente de quem sofreu com minha estupidez. Assumir o erro não faz a culpa sumir. Continuo envergonhada por um bom tempo, até provar pela convivência, que a merda que fiz foi exceção e não regra.

E é essa a razão maior de eu odiar desculpas: saber que eu cheguei ao extremo, que passei por várias etapas, que tive a chance de parar antes, mas fui adiante, até chegar ao ponto de cometer um erro cretino e ter que me desculpar. Pior que isso é saber que pedir desculpas não me livra de cometer o mesmo erro novamente e aí então, me sentir um cocô outra vez.

Por isso que tenho pavor de gente que faz da desculpa um hábito, um vício. Que ofende, erra, trai, mente e pensa que tudo se resolve com um olhar de cachorro que caiu da mudança e um “me desculpa”. Pra agredir mais só falta dizer “sou humano”. Sou capaz de mandar se fuder.

Como hoje estou num dia bom, vou ser otimista. Vou acreditar que se guardar direitinho na minha memória a sensação ruim que é se arrepender e ter que se desculpar, talvez cometa menos erros. E quando ainda assim vacilar, não vou sofrer tanto quanto ou até mais que a vítima. Porque pior que ter que pronunciar essa bendita palavra, é não admitir o erro e negar se desculpar.

Ilustração do Galvão. www.vidabesta.com

4.5.06

Merda

Vou fazer jus ao nome deste blog. Vou falar sobre cocô. O pior deles, na minha opinião. Aquele que insiste em ficar nadando e se exibindo no fundo do vaso. Geralmente, o tipo é um cocozinho pequeno, mas desafiador. Observe a cena: sua mão está determinada, uma, duas, três vezes você aperta o botão da descarga. E o que acontece? Nada. O maldito cocozinho sobe, desce e finge que se vai no redemoinho formado pelas corredeiras que saem de todos aqueles furinhos da louça. Mas quando tudo volta ao normal, as águas da latrina se acalmam, lá está ele de volta. Parece um personagem de filme de terror – quando você pensa que tudo acabou bem, ele ressurge das profundezas.

Ele nada contra a corrente, é praticamente um subversivo. Só o que vai por água abaixo nessa brincadeira é sua consciência ecológica. Cada desejo de ver o mísero cocô desaparecer da sua frente significam, dizem, 25 litros de água limpa indo parar em alguma praia longínqua. Essa merda de cocozinho não merece tanto. Então porque ele não vai embora de uma vez, que nem os outros? Já sei porque. Enquanto ele brinca de dançar no fundo da privada ao mesmo tempo me encara e deixa bem claro a que veio. O tal cocozinho é o medo que tenho de errar, o pavor que tenho de falhar, o pânico que me bate de esquecer. Por isso ele fica ali, me fazendo lembrar que preciso ficar atenta até mesmo depois de, você sabe. Senão, o sujeito principal deste texto volta de onde nunca deveria ter saído pra contar pra todo mundo: ela cagou.

26.4.06

Descarga



Hoje é um desses dias que sinto vontade de agredir todo mundo. É, assim mesmo, sem motivo. Ou melhor, por qualquer motivo que me derem.

- Bom dia, Val. Dormiu bem?
- Ahhh.... vá se fuder que você não tem nada a ver com isso.

- Ontem minha namorada fez um pavê de chocolate só pra mim.
- Se afoga nessa merda de pavê. Morra.

- Fire Comunicação, boa tarde.
- Oi, da onde fala?
- Da putaquetepariu, seu bastardo, filho duma égua. Como é que você liga prum lugar sem saber onde é? Seu escroto!

- Valeria, o tanque do carro tá pela metade (nesse caso minha consciência falando comigo).
- Pega esse tanque e enfia sabe onde, porra (nesse caso eu agredindo a mim mesma).

- O elevador tá subindo?
- Sua anta, é o último andar. Vai subir pra onde? Tinha é que subir sangue é pra essa sua cabeça cheia de merda.

- Valeria, hoje é dia de mudar sua série de exercícios.
- É dia de mudar o caralho. Mudo essa desgraça quando quiser. O corpo é meu, eu que pago seu salário. Vai cagar, sai daqui. Xô.

- Por favor, leia a questão seis do seu livro.
- Eu ler? Nem fudendo, lê você se quiser.

- Amiga.... tô mal hoje. Queria xingar todo mundo.
- Fica assim não, Val.
- Hunpf...
- Ah, lembra que ia depilar a virilha em formato de rosa? Eu fiz! Ficou jóia.
- Mas hein? Eu triste e você falando da depilação? Foda-se sua buceta! Tomara que você nunca mais dê essa rosa pentelhuda nem prum cachorro, sua insensível.

- Val, eu vi até o 12º episódio de Lost, lálálá lá lááá lá. Se eu quiser posso contar, lálá lá lááá lá.
- Conta, por favor, conta. Conta que arranco seu olho no dente, seu inútil, seu puto. Quero que você se foda muito, vai se fuder, você e o 12º episódio de Lost.

- Você cortou o cabelo, Val?
- Não, ele diminuiu, seu retardado. Que pergunta estúpida. Sempre te achei um
bosta mesmo.

- Olha, Val, você tem um blog.
- Sim, eu e Elisa.
- Mas que texto grande. Tenho preguiça de ler.
- ENTÃO VÁ SE FODER. Não pedi pra você ler porra nenhuma, pedi?
Então não me enche a porra do saco, sua piranha. Pega um desses rolos de macarrão, sabe? Então, e enfia nessa bunda gorda e roda ele até sair macarrão pela boca, sua vaca.


Me sinto melhor agora. Não é que consegui até rir? Descarregar uma raiva infundada no papel, sem gritar com ninguém, é bem divertido, saudável e o melhor, não deixa seqüelas nem provoca brigas.
Só queria conseguir isso mais vezes.

Ilustração do Galvão. www.vidabesta.com

17.4.06

Nada a reclamar

Mudei com meus pais para Vitória quando tinha 14 anos. Achei a cidade uma droga. Eu morava em Brasília, tinha lá meus amigos, minhas histórias de infância, minha escola onde estudei desde pequena, todas as minhas referências. Mudar para Vitória foi o primeiro trauma que vivi. No avião, vindo pra cá, chorei nas 2 horas que duraram o vôo. Nem a visão da praia de Camburi, que eu ainda não sabia que era poluída, serviu para me alegrar. Que se dane a praia, quero minha rua, que lá em Brasília a gente chama de quadra. Quero jogar vôlei aos domingos, andar de bicicleta no Parque da Cidade, ir aos shows da Plebe Rude. Ninguém aqui conhece a Plebe Rude? Um absurdo. Passei um ano inteiro trocando cartas com todos os meus queridos amigos de Brasília, que me contavam detalhes das melhores festas, quem havia ficado com quem, quem havia terminado com quem. Falavam também do futuro, do vestibular que iriam fazer, para onde iriam nas próximas férias. Como era de se esperar, o tempo passou, as cartas sumiram, o contato se perdeu.

Tenho 33 anos agora, ainda moro em Vitória e resolvi que preciso me apaixonar pela cidade. E não preciso esquecer Brasília pra isso acontecer. Na verdade, moro em Vila Velha. Mas como são municípios próximos – Vitória, Vila Velha, Serra e Cariacica - acabo chamando tudo pelo nome da capital. Conheço pouco sobre a história do lugar onde vivo – e pelo que tenho visto, meu filho também não tem aprendido muito. Não sei dizer se isso é geral, mas acho que as escolas não dedicam muito tempo às histórias locais. Decidi então que vou conhecer e respeitar a cidade onde moro. Geograficamente falando, acho Vitória linda. É um privilégio morar numa ilha, ter um porto no centro da cidade, ter o mangue, as praias, a baía, o canal. Os recortes são bonitos, as pedras e montanhas, ah, sim, os morros com suas casinhas formando as favelas. Que cidade não tem isso? Vitória tem tudo para ser uma cidade charmosa. Não sei por que ainda não é. Sinto falta de livrarias com cafés, de cinemas nas ruas, de mais praças, de calçadas bem cuidadas, de menos lixo, de fachadas bonitas nas lojas. De música, de festivais, de teatro, de cultura popular, de expressividade. De bares com mais identidade, de restaurantes com mais a oferecer do que um cardápio sem nexo. De pessoas perambulando nos finais de semana, andando, almoçando mais tarde, visitando exposições de arte. Sinto que falta em Vitória as pessoas viverem a cidade. Fiz minha parte no último fim de semana. Fui ao Museu de Arte do ES ver uma exposição chamada Universo do Cordel. Aproveitei e também fui no Museu da Vale do Rio Doce ver outra exposição. No próximo fim de semana quero pegar uma escuna e conhecer os mangues que permeiam a cidade.

Tudo que quero mesmo é parar de reclamar, reclamar sem realmente saber do que estou falando. Resolvi começar pela cidade. E assim quero que seja com as pessoas, com o trabalho, com a vida. Reclamar é muito chato.

Ilustração: Claudio França. Links: www.vitoria.es.gov.br;www.maes.es.gov.br

7.4.06

Texto ultrapassado

Chegou a conta de celular de fevereiro. Mês de Rolling Stones, Franz Ferdinand, carnaval. Ou seja, mês de pagar o maldito deslocamento. Nem cito valores, para não reviver a tristeza que senti ao ver o quanto tive que desembolsar.
Resolvi então ir à loja da minha operadora para trocar o plano com urgência.
Sento com uma atendente muito da grossa, com a cara cheia de espinhas e voz de macha. Lembrei do Massaranduba.
- Qual é seu plano?
- Não sei o nome. Comprei na promoção do Dia dos Pais de 2004.
- Ihh, seu plano é bem antigo.

Antigo? Mas hein? Quer dizer que agosto de 2004 agora é antigo? A noção de tempo mundial mudou mesmo, isso não é mistério. Mas daí a 2004 ser antigamente é demais. Só faltou ela falar que em algumas cavernas já encontraram até desenhos com seres humanos caçando mamutes e usando um celular igual ao meu. E isso porque o comprei em 2003. Sempre foi perfeito para mim. Nunca senti falta de máquina fotográfica, tela colorida, toques polifônicos, poliglotas, enfim.
Máquina fotográfica é igual. Quando surgiu a digital, foi aquele furor anal nos famintos por lançamentos tecnológicos. De repente, ter uma máquina de 2 MP passou a ser credo, ridículo, que vergonha. Comprei a minha com 5 MP, pensando em também usar sua poderosa definição e recursos fantásticos em layouts. Na colação de grau do meu irmão, uma mulher sentada ao meu lado olhou para minha máquina com aquela carinha de inveja e perguntou:
- Quantos megapixels a sua tem? Sete?
- Não. Tem 5.
Pronto. A expressão dela voltou a relaxar e um sorriso de canto de boca aflorou naquela cara cheia de pancake:
- A minha tem 7.
Mal sabe ela que provavelmente nunca vai desfrutar de seus tão bem-dotados sete megapixels. Que pra uma câmera ser boa, outros fatores também têm que ser considerados. Optei por fazer minha boa ação do dia. Fiquei quieta.
E nem foi só a tecnologia que ficou mais perecível. Tudo vai ficando ultrapassado com uma velocidade maior que nossa memória e conta bancária podem suportar. Até as relações pessoais. Acompanha só:
Você quer conhecer uma banda nova. Vai e baixa em casa mesmo. Só que não tem tempo pra escutar. Então compra um MP3 player. Mas celular e MP3 player ocupam muito espaço. Compra um celular com MP3 player e máquina fotográfica. A resolução da máquina fotográfica não é tão boa assim. Compra um supermáquina digital. Aí você começa a tirar foto de tudo quanto é coisa: você no espelho, amigo bêbado, fotos poéticas. Pensa então: vou criar um fotolog. Aproveita e entra no Orkut também. Olha!, que jóia, todos seus amigos lá, até aqueles sumidos. Adiciona todos no Messenger. Toda vez que entra na internet, faz malabarismo indo ao Orkut, fotolog, checando seus emails, baixando músicas e ainda falando pelo Messenger. Quando você vê, tudo que foi criado pra “ganhar” tempo, “ganhar” espaço, só fez você passar mais horas num mundo virtual, fazendo a manutenção de tudo que criou. E por mais que as maravilhas da modernidade deixem tudo mais prático, nada se compara a encontros ao vivo, pessoas reais.
- Me deu um ninja, hein?
- Foi mal, não deu pra ir. Não viu o recado que deixei pra você no orkut?
- Não acessei essa semana.
- Também mandei email.
- Não acessei também.
- Te mandei torpedo, cara.
- Meu celular quebrou, contei não?
- Porra, assim fica difícil te encontrar. Mas bem que tentei avisar.
- Mas por que você não foi?
- Marquei de encontrar uma amiga que mora na Inglaterra no Skype.
- Porra, cara, mas era nosso chope mensal.
- Foi mal. Mas é que antigamente eu tinha mais tempo. Entra aí no Messenger que a gente se fala mais.

31.3.06

Hormônio, hormônio meu


Sacaneio demais meus hormônios e eles, em troca, fazem meu corpo produzir leite. Sim, fico com os peitos cheios como uma vaca - e não se deixe enganar, não é gravidez. Se fico estressada, eles agem assim, me aprontando essa. Quando não são os peitos é a pele que começa a pipocar, fica em erupção parecendo um abacaxi. Além de me estressar um dia sim o outro também, tomo o anticoncepcional só quando lembro. Ou seja, sempre na hora errada, duas ao mesmo tempo e por aí vai. E nessa bagunça os tais hormônios começam a entrar em parafuso. Malditos. Brincam de montanha russa com o meu humor, me fazem chorar que nem louca.

Esses dias fiquei sabendo que o pior ainda está por vir. Sim, os hormônios aprontam mais. Lá entre os 40 e 50 anos, quando a gente mais precisa deles, puf, os desgraçados somem. O resultado é desastroso: a vagina resseca (pra mim isso é o pior), o cabelo cai em tufos, a gente fica anêmica e sem falar nas tais famosas ondas súbitas de calor extremo. Por serem tão danados, comecei a culpar meus hormônios por tudo de ruim que me acontece. Xinguei no trânsito? Briguei com meu filho? Dormi mal? Tudo culpa deles. Tem quem culpe a TPM, mas acho que esse argumento ficou meio fraquinho, hormônio é mais científico. Eu e eles vivemos em crise, disso tenho certeza. Mas pelo menos tenho alguém em quem pôr a culpa.

23.3.06

Nulo


Ela prometeu que não esqueceria mais a toalha molhada na cama, não deixaria louça acumulada na pia e que, tudo que abrisse, fecharia.
Ele prometeu que beberia menos, que ouviria Motörhead bem baixo e só veria os amigos quando ela deixasse.

Ela jurou que não o chamaria mais pra ir à missa, que falaria menos ao telefone e que nunca mais atrasaria.
Ele jurou escutá-la mais atentamente, não discutir política com o sogrão e parar de arrotar nas refeições.

Ela disse que pararia de rir tão alto, que compraria menos sapatos, se era isso que ele queria.
Ele falou que dirigiria mais devagar, que deixaria o futebol pra lá e voltaria a malhar.

Um dia se olharam e viram que não havia mais nada a pedir. Mais que isso, que já não conheciam nem ao outro, nem a si.
De tantas afirmações e exclamações, sobrou apenas uma pergunta: cadê a pessoa com quem me casei?

Ilustração: Ramon Alves (http://semsabersonhar.blogspot.com)

16.3.06

Espinhos para a vida


Comprei dez cactos para enfeitar minha janela. Muito bonitinhos, cada um de um jeito, fofos mesmo. Fiquei bastante feliz por comprá-los, estava recém-separada, indo morar com meu filho de um ano em um apartamento simples e, como descobri mais tarde, muito quente. Mas, ainda assim, representava uma conquista, uma nova etapa na minha vida, um passo dado – tanto o apartamento quanto a coleção de cactos. Enquanto a vida passava, os cactos se mantinham ali na janela, uns bem, outros nem tanto. A vida passava pra mim também.

Dois cactos morreram na mesma semana. Fui demitida de um emprego, sete meses depois minha querida vó morreu - meu irmão se foi um ano antes. Fique com oito cactos. Fui para um novo emprego, que me deu muita experiência, meus primeiros prêmios e a maturidade que hoje me faz entender que poderia ter aproveitado aquela época melhor.

Sobraram dois cactos, a janela agora é uma varanda. Me mudei novamente, agora para meu próprio apartamento, graças ao meu pai. Apenas um cacto foi comigo. Fui demitida mais uma vez, tive problemas de sobra, alguns ainda não estão totalmente resolvidos, pelo menos não dentro da minha cabeça. Não corro mais o risco de ser demitida. Troquei-o pelo risco de falir. Da minha varanda vejo o mar, o apartamento é bastante arejado. Posso dizer que agora está tudo melhor. O último cacto ainda está comigo. Nós sobrevivemos, mesmo com todos os espinhos.

Ilustração: Claudio França.

10.3.06

Levanta-te e anda, minha filha.



28 de novembro. A despedida. Fiquei sem imaginar como seria passar um mês sem lentes de contato, apenas de óculos. Totalmente dependente daquela armação modernosa e aquelas lentes nojentamente arranhadas. Sair à noite seria um pesadelo. Ninguém ia me querer, em sentido algum. Por que alguém bateria papo com uma pessoa com cara de nerd? Com uma menina que parece ter saído do trabalho direto pra noite? Com tantos olhos bonitos, com lápis preto, delineador e sombra, quem olharia pra um par de lentes grossas? E não adiantava ninguém falar. Pra mim, sair de óculos é praticamente virar óculos. Algo que chama tanto a atenção pra si que neutraliza qualquer outro acessório ou atributo que eu destacasse. Se eu saísse correndo pelada de cabeça pra baixo, ninguém gritaria:
- Olha, uma menina pelada de cabeça pra baixo!
Apenas diriam:
- Olha, uma menina de óculos! E veja isso, não acredito! Ela está de cabeça pra baixo!

Paralelo à abstinência de lentes de contato, venho vivendo outra ainda mais dilacerante (chama de fútil que não ligo). A falta de meu carro. Eu? Sem carro? Quem poderia imaginar isso? Sou daquelas que quando entra no ônibus com um amigo escuta:
- (risadinha escrota) Que engraçado você num ônibus.
Engraçado, né? Sei. Já peguei sim muito ônibus, sem querer dar uma de filha de Francisco. Até pouco tempo atrás, ia de ônibus pro trabalho, mesmo com carro na garagem. E gostava sim. Foi a época em que mais li livros. Lia no ponto, no ônibus, no elevador. Fora que não tinha que lidar com flanelinha. Mas ficar sem minha carteira de motorista, aquela maldita habilitação para categoria B tirada com custo na terceira tentativa, me fez murchar.

Duas coisas que não imaginava ter que abrir mão, que não me enxergava sem. Pensei, meditei profundamente, gastei horas divagando sobre isso e conclui: fudeu. Amigos se afastariam, perderia rocks, oportunidades, deixaria de ir à praia, mudaria de academia, teria que virar caroneira. Tudo isso de óculos, pra garantir que a auto-estima continuaria lá no lugar dela, na chón.

(...)
Faz dois meses e dois dias que só ando de óculos e dois meses e meio que estou sem carteira. E sabe o que minha vida virou nesse tempo? Tudo, menos ruim. Eu, que nunca me considerei uma superficial, que sempre achei que conviveria bem com grandes mudanças, balancei quando precisei me despir de carro e lente. Dois meses depois, me vejo como uma menina de 15 anos, que descobre, lendo O Pequeno Príncipe e escutando Legião entre lágrimas, que é capaz de muito mais do que imaginava.

E agora, leio esse texto todo e acho que ele parece mesmo algo que eu escreveria 10 anos atrás. Será que a gente nunca aprende? Ou será que tudo é um ciclo? Se for, quero conseguir a proeza de me abster de coisas que amo de vez em quando. Deixar de ver um seriado que acompanho. Comer doce durante a semana. Faltar um dia na academia e não ficar paranóica achando que já caiu tudo. Esquecer o celular em casa, sem medo de perder o telefonema da minha vida.

É difícil, como é, tirar alguma peça-chave do dia-a-dia em nome da manutenção da identidade. Só que de vez em quando, quero lembrar que sou mais que carro, mais que lentes de contato. Quero tirar isso tudo e perguntar a mim mesma o que sobrou. Aliás, não quero ser a sobra. Quero o contrário. Vou me tirar. O que sobrar, aí sim, é resto.

Ilustração do Galvão. www.vidabesta.com

2.3.06

Defeitos

Sou eu apenas para quem eu quero ser. Não estranhe se eu não me mostrar inteira pra você, pode saber que não quero ser sua amiga ou não gostei do seu jeito. E muitas vezes não sei como dizer isso. Por isso, me fecho. Sorrio pouco, não estico a conversa, não acho graça nas brincadeiras. Não gosto de intimidades repentinas. Se você não conhece meu filho, não pergunte por ele como se conhecesse há tempos. Vai soar falso pra mim e é bem provável que, ao responder, eu faça uma careta sem perceber. Minha simpatia não é gratuita. Escolho bem para quem vou dar os meus sorrisos.

Provavelmente você vai ouvir dos meus amigos uma descrição que não bate com o que você acha que conhece de mim. Vai ouvir que sou alegre e converso bastante, que falo coisas bobas e divertidas. É, não parece a mesma pessoa. Me desculpe, não posso ser como eu sou com todo mundo. Tenho que ser conquistada com sinceridade. Gosto de pessoas autênticas, carinhosas e abertas. Não me venha com seu ar blasé, garanto a você que o meu é bem pior. Nem force a barra me comparando com você, dizendo que somos do mesmo signo, temos gostos parecidos, que somos iguais nisso ou naquilo. Comigo é devagar, é com inteligência, com humor, com refino. Sou isso mesmo que você está pensando, sou metida a besta, me acho melhor em muita coisa, gosto de ter razão, acho que estou certa na maioria das vezes, sou orgulhosa. Agora me diga você os seus defeitos, que não sejam esses que já coloquei aqui.