30.11.06

Aniversário de um ano - nossa declaração de amor ao blog.


Ó, docinho, fez um ano o nosso blog. Adorei conseguir manter isso, escrever de 15 em 15 dias, com poucos atrasos, nenhum furo e muito orgulho dos nossos poucos e fiéis leitores. Podemos chamar de conquista? Pra mim foi até mais. Exorcizei alguns fantasmas, troquei a análise pelos textos e oba, economizei. Conheci pessoas novas que conhecem mais de mim do que minha própria mãe. Com o Redatoras de Merda, abri uma caixa de pandora, acho que daqui não deixa mais de sair nada. Também não tô ligando se pensarem pô, esse menina só fala dela mesma, que coisa chata. Gostei muito de conseguir escrever sem precisar ter um job na frente. Querido blog, parabéns pra você.

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Lembra quando começamos a trocar textos que escrevíamos quando vinha a vontade de gritar? Lamentamos fazer isso com pouca freqüência. Daí surgiu a idéia do blog. Afinal, bem ou mal, sabemos conviver bem com prazos e obrigações. E transformamos escrever em um dever de casa, uma terapia, uma diversão. Lembra no início, como sentíamos vergonha de postar? Do frio na barriga? De descobrir que alguém lia?! Meu Deus, alguém lia aquilo, ai, socorro. E ainda lê. Depois ainda comentaram. Ficamos tímidas, mas felizes que nem crianças. Ainda ficamos, na (e de) verdade. Quando ninguém comenta, falamos “ninguém tá lendo porra nenhuma” e caímos na gargalhada. Obrigada, brógui por me aproximar de mim, da docinho e de pessoas fofas que apareceram no caminho.
(docinho, meu texto ficou maior que o seu pra manter a tradição, tá?)

ilustração: vlad paiva. adoramos:)

16.11.06

Sem pensar


Acordei pensando, pensando, pensando, cansada como se não tivesse dormido. Como se tivesse passado a noite inteira pensando, pensando. Acho que minha cabeça tem o maior HD do mundo. Cabe tanta coisa, tanta coisa, que pra ela ficar bem ocupada, tenho que enchê-la de informação.Quando tenho poucas coisas pra fazer e pensar, parece que os pensamentos tomam uma dimensão grande, incham, inflam e recebem mais atenção do que deveriam. É um perigo isso. Começo a pensar besteiras de todos os tipos e desenvolver assuntos que não têm que ser desenvolvidos.

Eu não gosto de nada complicado, não acredito que por trás de tudo que alguém diz ou faz exista outro significado. Não fico procurando duplo sentido em tudo que leio e escuto. Mas ser simples é difícil quando eu tenho espaço demais pra pensar. Porque acabo destrinchando demais as coisas. E aí fico chata, questionadora, implicante, querendo explicação pra tudo. Quem sofre mais são as pessoas que mais amo. É uma covardia isso, mas é histórico. Descarregar qualquer coisa em que mais amo é um defeito vergonhoso e que juro, venho lutando contra faz tempo. Com bons resultados. Falei que é covardia, porque brigar com quem gosta da gente é ter a garantia da desculpa. É esperar compreensão de volta. Fora que me parece uma busca desesperada por atenção.

Quando minha cabeça fica vazia, eu começo a procurar defeitos. Encaro o espelho e vejo imperfeições inaceitáveis, temíveis. Onde existem as usuais celulites e estrias, vejo deformidades que nem os melhores maquiadores hollywoodianos poderiam reproduzir.
Preciso encher a cabeça de ocupações. Divagando sou um perigo. Leio as entrelinhas quando elas não existem.

Difícil foi enxergar isso tudo e questionar: será que minhas reclamações conferem ou estou perdendo a razão? Se estivesse com problemas de verdade, estaria colocando chifre em cabeça de cavalo? Com certeza não. Piora quando, além de reclamar, grito, xingo e perco a razão. Mesmo estando com a razão. E aí, fico ainda mais nervosa, porque mesmo argumentando, vão achar que é apenas mais um piti.

Ainda não levantei da cama. Preguiça, vontade de não fazer nada. O gato entra no quarto e me olha com carinha de quem quer ser levado pra passear na varanda. Meu peixe olha pra mim querendo comida. Como é fácil vida de bicho. Acho que quero ser gato na próxima vida.

Ilustração do Galvão: www.vidabesta.com

3.11.06

Me tire daqui


De segunda a sexta acordo entre seis e seis e meia. Ando quatro quilômetros por dia. Às vezes, seis. Às vezes na areia da praia, às vezes no calçadão. Muitas vezes pela manhã. Poucas, à noite. Tomo café da manhã todos os dias. Nunca deixo de tomar. Nem de escovar os dentes. Fio dental eu tenho preguiça, às vezes esqueço. Vou à manicure uma vez por semana, depilo de 20 em 20 dias. Corto o cabelo a cada três ou quatro meses.

Vou ao dentista, cardiologista, ginecologista uma vez por ano. Vou ao cinema uma vez por semana, aos domingos. Mas estou preferindo as quartas mais em conta. Tenho vontade de chorar pelo menos uma vez por mês, mas não posso ver gente chorando na TV que também choro junto. Choro sempre que vejo uma cena de Crash, quando a menininha entra na frente do moço que atira no pai. Choro muito. Leio todas as noites antes de dormir. Durmo cada vez mais e leio cada vez menos. Menos de uma página por noite. É quase um ano para ler um livro. Uma vez por mês gosto de ir a um bom restaurante, japonês de preferência. Viajo uma vez por ano por pelo menos dez dias. Encontro minhas amigas de adolescência a cada dois meses ou mais. Muito pouco. Faço sexo nos finais de semana. Ou nos feriados. Muito pouco também. Vou ao supermercado todas as sextas-feiras. Pego filme na locadora às sextas também. Escrevo de quinze em quinze dias para este blog. Tento comer doce apenas nos fins de semana.

Trabalho todos os dias. E todos os dias me imagino saindo dessa rotina. Me imagino indo segunda à tarde para o cinema, dormindo até meio-dia em plena quarta-feira, nadando às cinco da tarde qualquer que seja o dia, almoçando em uma barraquinha na praia, sumindo por dois dias sem avisar a ninguém, bebendo vinho numa tarde fria, fazendo curso de teatro às 10 da manhã, lendo um livro inteiro em um dia, andando de barco, visitando uma exposição no centro da cidade, indo a uma festa na terça à noite e chegando às 8 da manhã em casa. E mais que tudo isso, imagino por quem, além de mim mesma, me motivaria a fazer tudo tão diferente.

27.10.06

Pra você


Olho pra você e não sei o que aconteceu. Não, não precisa ficar preocupada. Ainda te amo sim, tanto que olha só, já sorri lembrando de seu rosto. Será que você está mais triste? Não consigo enxergar bem. Será que fiquei míope com você? Sinto falta de nossas conversas, de ouvir uma frase saindo de você como se eu a tivesse pronunciado. E de ver sua expressão impressionada ao escutar eu descrever um pensamento que você já tinha há tempos, mas não contou porque precisou sair correndo pra atender ao telefone.

Acredito que seja só cansaço. Você tá cansada, né? Se eu fosse mais melosa, ofereceria colo. E se você também fosse mais grudenta, aceitaria. Mas a gente é assim e se ama sem frescura. É, colo não é frescura, mas não combina com a gente, porque um olhar é tudo que você precisa pra me consolar quando estou triste. Mesmo quando você fala pouco, eu escuto tanto, porque tem muito por trás de tudo que você faz e diz. Mas agora, tá tão amuada. Quer um café? Faço um capuccino pra você, quer? Compro a revista que você gosta ou uma roupa nova da sua marca preferida.

Ixi. Eu vi! Vi um brilhinho aí. Vi um fósforo riscando e um foguinho se acendendo. Será que...será que....Será que você está apaixonada? Já se viu no espelho quando fala o nome dele? Cara de boba, de feliz, de garota propaganda de sandálias. Qual foi mesmo a última vez em que vi esse sorrisão? Não, aquela piada não vale. Tô falando de sorriso que vem acompanhado de um suspiro que esvazia o pulmão e deixa você asfixiada. Você já fez planos com ele? Não me engana não, que conheço sua cabecinha. Aposto uma bolsa nova como já se imaginou dando pra ele. Acertei, não é? Mas o mais assustador é pensar que você já fechou os olhos imaginando como seria o primeiro beijo. Não me sinto trocada não. Até porque esse tipo de prazer eu não posso dar pra você. Se vai dar em algo? Aí já não sei. Mas quem disse que precisa dar em algo? O ruim é que quando esse novo objeto da sua paixão some, você volta a ficar quietinha, calminha, encolhidinha.

Se eu estiver errada e essa calmaria for apenas uma paz que você lutou tanto pra atingir, pode dizer que estou errada. Ofendida eu não vou ficar, só mais feliz ainda.

Chega de falar tanto. Vamos ao cinema, na sessão das 19h, ver um filme bobo e chorar pelos problemas dos outros. E os nossos problemas? Ah, vamos fazer o que sempre fomos mestras. Vamos rir deles?

19.10.06

Hoje eu iria embora


Hoje eu iria embora, embora tantas amarras me prendam aqui. Sem temor, acreditando em poder ficar longe disso tudo, iria embora. Ficaria bem longe dos seus gritos, da ausência de entendimento entre nós que a cada dia fica maior e mais difícil de se controlar. Tão grande que invade os lugares que mais tentei proteger. Lá onde acho o amor e a alegria que sinto por você. Não me importa mais, a dor ficou maior, o grito fala mais alto, todas as minhas lágrimas inundam os cantos de tudo que temos juntos.

Como sou eu que estou escrevendo falo por mim e falo das minhas dores. Da dor que causei em você quando não acreditei no que você me oferecia, era o começo e, muitas vezes, preciso começar devagar. Da dor que sinto de não conseguir desfazer esse sentimento em você. Da dor de não ter sido querida o suficiente por você por minha própria culpa. De sempre ver um pé seu do lado de fora. Da dor de ver o tempo passar e não mudar na direção que quero. De que é feito o amor? Construir coisas juntos é amar? Então a gente se amou pouco. Tudo sempre com tentativas, um medo que ronda a maior parte do tempo, a falta de fé, de esperança, de amor, não entre nós, mas em todo o resto.

Não vejo mais saída, eu que sempre acreditei. Assumo que não quero mais como está – e que fique bem claro que é como está. Também não sei se um dia foi diferente, se um dia deixamos de sofrer um por causa do outro. Pois estou me protegendo agora, e não o que temos em comum. Eu, eu e eu não quero mais isso pra mim. Não quero chorar por você, não acredito mais em um tempo melhor. Não acredito que possamos ficar uma semana sem brigar com toda essa intensidade. Aposto comigo mesma que não, estamos esperando o que para mudar essa história, pra interromper o caminho. Por que é tão difícil enxergar? Eu choro, você grita, não nos entendemos, não aceito o jeito de você falar, não me esforço pra entender mais. Não tenho mais força para querer. Quero apenas pensar em não sofrer. Já medi os sentimentos, acho que sei até onde posso ir. Não posso ir mais desse jeito, já dissemos isso um ao outro.

Disse que iria embora e vou. Já fiz meu roteiro. Estou lendo, lendo, lendo. Quero decorar os caminhos que agora vou percorrer sozinha. E sem dor.

Ilustração: Radael Jr.

11.10.06

Poltrona 4


Lá estava eu em mais uma viagem de ônibus repentina. Entrei e ocupei minha poltrona executiva do lado da janela. Guardei a mochila no compartimento acima da cabeça, coloquei a bolsa encostada no apoio do braço e lembrei que havia esquecido o Dramim em casa. Ô, merda. E se viesse aquela pessoa que vale por duas sentar do meu lado? Sem Dramim, como é que eu ia dormir? Ou ao menos abstrair a invasão do meu território?

Fiquei com o olhar parado, mirando a entrada do corredor do ônibus. Entrou um senhor. Passou reto. Entrou uma adolescente, loira e lisa de mentira. Passou reto. Entraram mais umas senhoras simpáticas, um homem sério e uma jovem com cara de cansada. Nem um deles sentou ao meu lado. Droga, pareciam todos aptos a não me proporcionar uma viagem com conversas. Fui ficando tensa, imaginando o que o destino, ou a maldita mulher do guichê da Águia Branca, havia aprontado pra mim. Fiquei lembrando se tinha sido simpática com ela. Dei bom dia, obrigada, por favor, paguei tudo rápido. É, não tinha por que ela colocar alguém fedorento, falador e enorme ao meu lado. Entraram mais algumas pessoas. Alguns congelaram todo o meu sistema nervoso. Um bombado, com bermuda florida foi um deles. Depois um outro jovenzinho, que já entrou no ônibus falando "aê, galera, boa noite!". Esse aí me deu até falta de ar. Mas ele passou direto pela minha poltrona.

De repente, vejo o motorista entrar no ônibus. Ele segue até o corredor, cumprimenta os passageiros, diz que vai nos conduzir até o Rio, numa viagem de aproximadamente 8 horas, que pararemos em Campos por 20 minutos e que no final do corredor tem água e café à disposição. Disse também que é totalmente proibido fumar no interior do ônibus, inclusive no banheiro. Terminado aquele bem treinado discurso, invenção de algum marqueteiro, com certeza, ele foi para sua cabine e iniciou a viagem. Parecia mentira de tão bom que era. Eu ia sozinha até o Rio, com duas poltronas só pra mim. Dormi tão bem que teria ido até o Acre.

Era hora de voltar para Vitória. Entro agitada no ônibus e quase arranco cada pentelho meu de raiva quando lembro que novamente esqueci o Dramim. Não, não daria a mesma sorte da ida. Essas coisas não acontecem duas vezes. Agora era certo que um ogro, melequento, flatulento, bafudo e tarado sentaria ao meu lado. E sem meu Dramim eu passaria oito longas horas encolhida que nem feto pra não encostar sequer a ponta da unha nele.

Começam a entrar os ilustres passageiros. Como na ida, tinha de tudo. Alguns simpáticos, outros assustadores. Eu não acreditava que aquilo estava acontecendo de novo. Eu tensa, ombros duros, costas doendo, só de imaginar quem seria meu companheiro de viagem. As pessoas que vão entrando se aproximam da numeração da minha poltrona. Eu reparo tudo quase imóvel, apenas os olhos se mexem. E então, mais uma vez, o motorista começa o tal discurso e descubro que viajarei sozinha novamente. Tanta felicidade assim nem cabia naquelas duas poltronas executivas. Ri sozinha, olhei para os lados pra me certificar que era verdade e jurei pra mim mesma que daqui pra frente, não passo por essa tensão nunca mais.

Das próximas vezes não vou ficar imaginando quem comprou a cadeira ao meu lado. Vou ser a última a entrar e ser o pesadelo de outro passageiro. Urrárrárrá.

2.10.06

Na cama



- Vem cá, deita aqui do meu lado.
- Peraí, tô acabando de espremer um cravo.
- Faz isso não, gata, você vai ficar toda marcada. Vem cá, vem.
- Já vou, já vou.
- ...
- Meu nariz tá muito vermelho?
- Tá igual ao do Bozo.
- Pááára.
- Eu falei pra você não espremer.
- Ai, tô com frio, vou pegar uma coberta.
- Você não pára quieta.
- Quer água?
- Você sabe o que eu quero.
- Agora sim. Juro que não levanto mais.
- Humm...você tá tão cheirosinha.
- Mô, levanta um pouco o braço, você tá prendendo meu cabelo.
- Assim tá bom?
- Tá.
Triiiiiimmmmm
- Ah, não, putz...
- Deixa tocar, gata.
- Mas a Paula ficou de ligar pra gente combinar de ir ao cinema.
- Dane-se a Paula e o cinema. Quero ficar com você aqui, só existindo.
- Tá bom, chuchu.
- Ai, agora meu braço tá dormente. Vira um pouco de lado, isso. Levanta essa perna também. Agora tá bom. Quer dizer, tá meio quente aqui. Você desligou o ar?
- Só um pouquinho...
- Putz, por isso que eu tô suando. Levanta de novo e liga então. Não dá pra ficar fritando aqui.
- Tá bom, tá bom.
- Humm, vem cá, vem. Isso, agora tá ótimo.
- Coloca só esse braço aqui, assim.
- Melhorou?
- Tá ótimo.
-...
- Mô?
- Oi.
- Preciso levantar pra fazer xixi.

21.9.06

Minha grama é mais verde

Era casada. Bem casada até. Marido bonzinho, que leva café na cama, dá flores sem datas comemorativas e liga pra dar satisfação. Vivia com ele por oito anos e o amava de um jeito gostoso e tranqüilo, como nunca havia sido. A harmonia era perfeita. Combinavam tão bem quanto chocolate e tpm.

Mas um dia ela soube. Chegou ao seu ouvido que aquele tal de Fred, o rapaz lindo amigo de Betina e Davi, era perdidamente tarado por ela. Mas você vê só... o Fred. O Fred pode ter a mulher que quiser. Fred toca em uma banda. Toca bateria e faz as meninas quererem nascer bumbo na próxima encarnação. A timidez, hunpf, a timidez dele é minhoca em anzol. E como tem garota que fisga. Mas ela? Ela nunca, nunca pensou que com tantas candidatas disponíveis, seria a escolhida.

Gargalhou. Claro! Só porque ela era comprometida. O difícil é mais interessante, mais desafiador. Filho da puta esse tal de Fred. Mas que filho da puta mais gostosinho da mamãe. Filho da puta dez vezes, maldito. Por que foi querer justamente ela? Agora vivia ocupando aqueles segundos de ócio na vida dela. No momento em que mexia o açúcar no café, bu! Lá vinha o rosto dele em sua memória. Quando trocava o rolo de papel higiênico, bu! Fred na cabeça. Quando procurava o vidro de desinfetante, bu! Olha o Fred de novo. Já estava mais pra Fred Kruguer, de tanto que ele assombrava a vida dela.

Como queria nunca ter sabido disso. Agora se sentia uma estúpida, eterna insatisfeita, que tem a vida que sonhava ter desde os 12 anos, com cada meta cumprida no tempo ideal, mas desejando aquele baterista. Falando assim parece até que Fred não valia a aflição dela. Que nada. Fred era doce. Adorava animais, era fiel às namoradas, tratava a família com respeito, era esperto, tinha um emprego que amava.

Foda-se toda as qualidades do Fred. Ela queria odiar Fred. Não, odiar também não, porque aí ia acabar querendo mais ainda. Mais? Seria possível? Ele já podia entrar na justiça e pedir usucapião por tempo de ocupação da mente dela. No banho, imaginava ele entrando no box. Quando trocava de roupa após o banho, escutava a voz baixinha dele falando "sabia que você é linda?". Quando se vestia pra sair, o ouvia mandar tirar tudo de novo pra então treparem loucamente, até ela ligar para o 190 e pedir socorro. E logo depois de ter pensamentos grudentos e molhados, ela quase chorava olhando para a foto do marido.

A relação com Fred não tinha futuro. Resolveu deixar de lado, terminar tudo antes de começar. Nunca comentou nada, nem mesmo com as amigas. Fred era a prova de que ela ainda era capaz de atrair homens, apesar de comprometida. Pode parecer estranho, mas era a certeza de que seu marido era o homem certo. Afinal, ela poderia estar com Fred, definitivamente ou às vezes, pra dar uns pegas. Mas nada valia tudo que havia conquistado com seu esposo. Daí em diante, sempre que brigava com o marido, que se sentia feia ou precisava de um elogio, ela pensava "Fred me quer" e tudo ficava bem de novo.

Ilustração do Galvão: www.vidabesta.com

11.9.06

Backstage


Ele invadiu e por trás. Nem sequer perguntou se podia, a foda já estava mais do que quente para ser interrompida com cerimônias. Ela tremeu, se encolheu diante da dor extrema que o ato provoca. O bico do peito endureceu, não sabia se de excitação ou pavor. Foi se acostumando com a idéia, mais pela condição em que se encontrava. Estava totalmente dominada, era quase um estupro. E nos dias de hoje, com tanta luta das feministas pela igualdade, ser dominada assim havia se tornado um fetiche para ela. Era independente, bonita, tinha dinheiro e apartamento. Não precisava de ninguém. Podia sim ser subjugada. Nossa, que pau duro esse, pensou. E se sentiu molhada novamente, a dor estava dando lugar ao prazer. Demorou a admitir isso, mas sexo anal era bom, uma delícia. Leu que apenas 15% das mulheres admitem fazê-lo e se encheu de orgulho. Se sentiu inchada e quente e desejou mais e mais. Agora gritava. Entendeu que a mulher leva a melhor na hora em que trepa. Além dos peitos fartos, tem vagina, clitóris, lábios. Podem-lhe comer o rabo enquanto ela brinca com os dedos, enfiando, tirando, esfregando. Pensou que amanhã mesmo iria comprar um vibrador para sentir ainda mais prazer. Se orgulhou de novo em ser mulher. E riu da idéia de que o homem se contenta em comer seu cu, que se gaba por isso e nem consegue enxergar que quem se dá bem na verdade é ela.

30.8.06

Como acabar com um dia em menos de 24 horas



Teve um daqueles sonhos ruins. Lembrava-se de absoltamente nada, mas sentia resquícios amargos de pesadelos, como uma ressaca. Levantou-se rapidamente e foi direto lavar o rosto e tentar despertar o cérebro para uma nova realidade. Ao olhar-se no espelho viu que mantinha as sobrancelhas e a testa franzidas. Tratou de relaxar e mentalizou "foi só um sonho". Foi tomar o café e, no caminho para a cozinha, deu bom dia a todos. Apesar de seguir o ritual matutino, sua irmã notou uma expressão diferente e perguntou:
- Tá nervosa com o quê?

Achou a pergunta engraçada. Tudo bem, ela sabia que não era lá uma mulher calma, mas em vez de bom dia ouvir tá nervosa? era demais. Não se considerava atacada, mas a maioria dos amigos diziam que ela era sim. Dentro dela, sabia bem a diferença entre sentir raiva e sentir tensão. Mas por fora, devia ser que nem o Ricardo Macchi: não demonstrava a menor diferença entre as duas expressões. Daí a razão de todos sempre acharem que ela estava puta da vida quando na realidade estava só exaltada. Falava alto, com paixão, com gestos fortes. Mas isso não era raiva. Quando ficava com raiva, estressada, atacada, como diziam, ela ficava era quieta. Mas por mais que tentasse explicar isso pra alguém, sempre achavam que era desculpa.

- Nervosa? Não. Tive algum sonho estranho. Um daqueles que some da memória, mas deixa uma sensação ruim.
- Odeio esses sonhos, odeio.
Terminou o café e resolveu tomar um banho com seu óleo preferido, pra ver se chamava boas energias ou se conseguia chamar o sonho de volta, pra pelo menos entender o motivo do mal-estar.

Saiu para a aula. Era dia de Estatística. Chegou tarde, já que sua irmã, que odeia tudo, nesse dia odiou sair com pressa de casa e atrasou todos que estavam de carona com o pai. Entrou na sala, sentou, arrumou os cadernos em cima da mesa apertada, guardou uns livros embaixo da cadeira e respirou fundo. Agora começaria a assistir à aula.

- Eliane.
- Sim, professor - desde quando o professor sabe meu nome, pensou ela.
- Pela sua cara vejo que passou a noite estudando.
- Não, dormi mal mesmo.
- Tá irritada?
- Não, professor, tudo bem.
- Então aproveite que está bem e venha ao quadro responder à questão 6.
Ir ao quadro era um terror para ela. Até cogitou a hipótese do sonho ruim ter
sido exatamente isso. Mas pior ainda era ouvir de novo "tá irritada?". Porra,
mas será que por mais que se esforçasse, sempre parecia nervosa?
Terminada a aula, recebe um telefonema de Rafael.
- Bom dia, tchuquinha.
- Oi, môzin, bom dia.
- Tudo bem? Tá com uma vozinha triste.
- Impressão sua, tá tudo bem.
- Mô, tô ligando pra dizer que não vou poder jantar com seus pais hoje.
- Mas tá marcado há mais de um mês, Rafa.

E de repente, como se fosse sugada por um ralo, viu o sonho ruim voltar à sua mente. Via seu namorado com um abadá, abraçado a duas mulheres, uma lata de cerveja em cada mão dizendo "eu falei que comigo era assim. se quiser agüenta." Milésimos de segundos depois, tragada de volta ao telefone, piscou os olhos rapidamente e balançou a cabeça, tentando eliminar a vertigem.

- Porra, Rafa.
- Lili, não fica nervosa.
- Desculpa. Acabei de lembrar do sonho. Foi ruim mesmo. E o que você falou
não ajudou. Posso te ligar depois?
- Credo... não precisa estressar.
- Por que todo mundo cismou que tô estressada? é a terceira pessoa hoje, que coisa. não é estresse. Só preciso me recompor.
- Quem tá calma não precisa se recompor.
- Me ajuda, mô, vai.
- Ajudar a quê? Você tá me maltratando.
- Não tô maltratando, porra.
- Ó, já tá até xingando.
- Falei porra, nada demais, nem é xingar. É que nem poxa, putz, caramba.
- Se é igual você podia ter falado "não tô te maltratando, poxa".
- Rafa, sério, na boa. Deixa eu desligar. Te ligo depois, tá?
- Você tá puta porque desmarquei o jantar, fala a verdade.
- Rafa... Rafa... eu tive um sonho ruim com você e acabei de lembrar, tá? Acordei ruim, cheguei atrasada, fui pro quadro. Só que além de lembrar do sonho horrível que tive, acabei de ouvir de novo que tô estressada. Enfim, preciso respirar um pouco, deixar isso passar.
- Agora tá me culpando? Com todo mundo você foi calma, comigo é que fica dando ataque.
- Que ataque? Do que você tá falando? Tá doido? Não mudei o tom, não levantei a voz.
- Não, Eliane, quem tá doida é você. Tá nervosa comigo porque sua manhã foi uma merda.
- Eu não disse isso.
- Então agora eu também sou mentiroso?
- Não, Rafael, você tá entendo tudo errado.
- E burro também?!
- Melhor não falar mais nada.
- Também acho. Quer saber? Vou desligar e você fica aí pensando no seu pesadelo.
- Mas era isso que eu queria fazer desde o início.
- Então você já tava planejando essa conversa??
- Não, Rafael, eu.... ai, cansei.
- Eliane, quer saber. Se você queria terminar comigo, poderia ter feito ao vivo.
- Rafael, do que você tá falando? Meu Deus, que coisa sem sentido isso tudo
- Sem sentido mesmo. Quer saber? Depois a gente conversa.
tu tu tu tu tu.

Sem conseguir levantar o queixo, Eliane foi caminhando em direção à cantina. Inspirava e expirava lentamente. Decidiu pedir seu suco preferido. Pior não poderia ficar.
- Um suco de maracujá, por favor.
O coração ainda estava disparado, mas se recusava a entregar sua manhã à tanto mal-entendido. Jogou suas esperanças pro suco que logo logo ficaria pronto. Ia até colocar açúcar em vez de adoçante. E no final ia chupar e morder todos aqueles gelinhos, bem devagar, pra ajudar a espantar a tensão e o calor. E quando só sobrasse aquela espuminha no fim, puxaria com um canudinho até fazer barulho. Os outros que olhassem, ela nem ligaria.
- Suco de maracujá é de quem?!
- É meu, meu! - Ela respondeu feliz, quase saltitando, certa de que a salvação do dia estava naquele copo sujo de vidro, onde dois canudos, provavelmente anteriormente usados, a levariam ao nirvana.
- Suco de maracujá é bom pra acalmar.
- An-rã.
- Tá nervosa?
Sim. Agora ela estava.

ilustração: vlad paiva.

18.8.06

Do you wanna dance?


Tenho inveja de quem sabe dançar. E a culpa por eu não saber deixo toda com a minha mãe, que não me colocou no balé quando eu tinha três anos de idade, nem falou pra eu fazer jazz quando tinha dez. Não tenho ritmo, não sei acompanhar as coreografias inventadas na hora nas festinhas bagaceiras, sou desajeitada até.

Teve um filme que ficou seis meses em cartaz no cinema da UFES, o Metropólis. Acho que o nome era Vem dançar comigo, se não me engano era um filme australiano. Pelas filas que se formavam na porta do cinema, imagino que muita gente compartilha comigo a inveja de não saber rodopiar nos salões de baile com a elegância de uma bailarina russa (meu deus, de onde tirei isso?).

Se tenho um sonho, ou mais um, é aprender a dançar. E não é só isso. Sonho em ser levada pelos braços por alguém que também dance como Fred Astaire. Que me pegue pela mão na hora da música perfeita, que o tempo pare na hora, que a vida fique em câmera lenta. Na verdade, não precisa tanto. Já iria ficar feliz só com a encenação de uma dancinha de corpos encaixados, rostos colados e pés certamente pisados.

Perto do meu trabalho tem um clube, o Centenário, onde um professor chamado Emerson Barreto dá aulas de dança de salão. Quase todos os dias penso em ir lá me inscrever, mas ainda não consegui coragem suficiente. Fico pensando na seguinte cena: Olá, boa noite. Eu vim fazer a aula de salão. Se eu sei dançar? Não, não. Se eu gosto de musicais? Sim, por quê? Bee Gees, não, nunca dancei nenhuma música dos Bee Gees. E neste exato momento vem lá de dentro um rapaz de terno branco que atende pelo nome de Tony Manero, me puxa pela mão, as luzes se apagam, o globo espelhado começa a girar e só conseguimos ouvir ah, ha, ha, ha, stayin' alive, stayin' alive. Dançar pode ser muito arriscado.

9.8.06

Desisto

Qual é a hora de desistir? Quando tenho que tirar o time de campo? Como é que vou saber se estou sendo sensata ou se estou amarelando? Lembro de quando tinha uns 18 e alguns anos. Disse aos meus pais:
- Quero fazer aula de dança Flamenca.
Meu pai então respondeu:
- Mais uma coisa que você vai começar e parar pela metade.

Na época, não sei quantas coisas já havia largado no meio. Mas agora resolvi fazer uma retrospectiva. Balé eu fiz quando morava no Rio. Chegando aqui fiz Jazz. Devo ter saído porque aulas de Jazz pararam de existir. Até me apresentei no Carlos Gomes. Um talento desperdiçado. Inglês fiz até o fim. Foram 7 anos. Piano eu parei. Não gostava do professor. Voltei quando estava já na faculdade. Mas era meio carinho, não deu pra levar. Caratê. Fui até a faixa amarela. Parei porque minha coluna doía. Curso de escalada. Apesar de ter amado não continuei praticando. Curso de italiano. De francês. Faculdade. Pós-graduação. Hidroginástica. Body Jump. Duas aulas de alemão gratuitas. Curso de teatro. Cursos, cursos.

E agora eu penso: por que diabos eu teria que terminar tudo que começo?
Não tenho o direito de mudar de idéia? Sei que meu pai, em sua função difícil de educar uma cabeçuda, estava apenas me alertando para algo que julgava poder se transformar num problema. Imagina eu não conseguindo terminar nada?

Uma vez o Gaiarsa, aquele psiquiatra com idéias polêmicas, disse que não existe isso de uma relação "não dar certo". Enquanto existe dá certo, oras. E acho que ele tem razão. Quando não há mais prazer em realizar algo fica impossível aproveitar. E aí, desistir não é covarde. E até bem corajoso. Veja bem. Não estou falando em ver um problema pela frente e chutar o balde sem mesmo tentar. O meu desistir passa por todas as fases: a do prazer, a da dúvida, a da persistência, a da persistência, a da persistência e só então da aceitação de que acabou.

O problema é saber quando acaba. Aquele minuto em que você diz: não dá mais. Uma amizade, por exemplo. Como saber a hora em que ela não existe mais? É quando as pessoas param de se ver? De se falar? Ou dura enquanto há amor? Se bem que amor não basta. Mesmo. Então é até quando há sintonia, coisas em comum? Como saber a hora de desistir de um projeto? Ou menos até. Como mudar de idéia com a certeza de que você não está se deixando levar pelos outros, mas simplesmente pensando de outra forma?

Pra que meu pai foi dizer aquilo. Virei uma paranóica (como é bom culpar alguém). Triste admitir, mas a gente já faz tanta coisa por obrigação. É conta pra pagar, cliente pra acatar, vizinho pra agüentar, horário pra cumprir. E quando quer desistir não pode simplesmente porque tem que ser firme, íntegro, mostrar persistência?

Por isso, pai, sinto muito, mas desistir não tem nada a ver com perder e ser derrotada. Tem a ver com chegar cada vez mais perto do que eu quero ser. Bem. Mesmo que eu não tenha a menor idéia do que eu queira ser. Mas que mal há em continuar procurando? Pelo menos vou aprendendo e me divertindo, sabendo que desistir não vai apagar nenhuma experiência passada. Apenas abrir a possibilidade para outras muito mais interessantes.

Ilustração: Vitantonio Semeraro (meu pai)

31.7.06

Declaração de ódio



Odeio quem buzina. Não quem faz um bi rápido, mas quem faz questão de descer a mão e soltar um biiiiiiiiiii de doer a alma. Ou quem pára em frente ao portão de alguém e cria uma melodia: bibi bibibibi bi bi biiiiii. E repete isso umas quatro vezes. Odeio quem não pede licença, não dá bom dia no elevador e se faz de sonso ao entrar numa fila. Odeio o Faustão, Gugu e seus genéricos. Antes de ter TV paga, assistia à TV Cultura aos domingos. Prefiro os programas que mostram elefantes e pavões em seus habitats naturais. Odeio gente estressada o tempo todo e gente que não muda o discurso: ai, menina, to tão cansada, to trabalhando tanto...Só você né, fofa? Odeio gente blasé. Odeio gente mal-educada, pedante, arrogante e gente que arrota alto no meio da rua. Odeio gente grossa. Odeio axé e daí pra baixo. Odeio peruinhas com som alto que tocam, adivinha o que, axé em pleno sábado de manhã pra anunciar uma micareta qualquer. Odeio gente que quer se enturmar rápido demais. Odeio Campari. Odeio bar com lâmpada florescente e mesa de plástico, a não ser nos pés sujos originais. Odeio médico que atrasa no consultório e não pede desculpa pela demora. Odeio cachorro pincher quando late e poodle pintado de rosa. Odeio puxa-saco. Odeio simpatia em excesso. Odeio e-mail com mensagens mela-cueca. Odeio drama e gente melindrada. Odeio escândalo. Odeio frescura mas também odeio machos muito machos. Odeio gente que bebe e perde a noção. Odeio cocaína. E, por fim, odeio bala de coco.

21.7.06

Dente

Acho que não comprei a revista TPM que falava sobre dor, senão releria agora. Se comprei não lembro. Aliás, consigo pensar em pouca coisa. Tudo que lateja em minha cabeça é dor, dor, dor, dor. Não aquela de tristeza, de perda, de saudade, de amor. Falo da dor física em sua forma mais cruel, aquela que paralisa, que tira o pé do chão de tão intensa. Aquela dor que não dá intervalos, que varia entre fina e pesada o dia inteiro. Nenhum outro pensamento tem vez. Impossível me concentrar em qualquer outro objeto ou assunto. O enredo da minha mente gira em torno da dor: será que vai passar? Por que o remédio não funciona?

Uma das piores sensações é a de que nunca vai acabar. Depois de três dias de dor intensa, a memória esquece como é se sentir bem. Tento lembrar, mas não ficou nem um pedacinho pra eu me apegar. Por mais que me concentre, dormir uma noite inteira e acordar normalmente parecem vultos na minha lembrança, como memórias da infância ou flashs de um sonho.

A vontade de ser forte vai se distanciando e tudo que quero é ficar dopada, estirada numa cama, ouvindo vozes lá longe. A paciência para respirar fundo, manter a calma e esperar passar começa a ser invadida por ondas de desespero. Queria apertar o off e ser religada quando meu corpo puder sentir a ausência da dor. Desabitá-lo um pouco e só voltar quando a faxina com amoxicilina já estiver feita.

Coisa injusta é dor. Por que não sinto a não-dor com tanta intensidade quanto sinto dor? Por que quando estou ótima, com a saúde perfeita, meu corpo não reage inversamente e provoca uma incrível sensação de plenitude? Algo tão grande e tão insistentemente presente quanto a dor, só que agradável.

Sou resistente à idéia de tomar remédio. Adio o máximo que posso, para entender, até onde for suportável, o que está acontecendo com meu corpo. Mas nesse caso não dá mais. Quero meu raciocínio de volta. Minha rotina, meu sono, a capacidade de poder escolher no que pensar, sem ser dragada de novo para uma realidade escura, fechada e apertada, que me prende a um único pensamento.

Entrego então esse dia à dor. Aceito os antibióticos, antiinflamatórios, o repouso que for preciso para amanhã não mais vê-la. Deixo ela derramar seu sadomasoquismo todo em mim. Sadomasoquismo sim, porque se ela fosse apenas cruel, má, uma assassina fria, me mataria logo. Mas não. Ela é esperta. Deixa sofrer, penar, agonizar, porque sabe que se me matar, morre junto.

Ilustração: Vlad Paiva

10.7.06

Sonho de bicicleta


Suas vontades eram as mais simples, e ainda assim não conseguia entender porque era tão difícil realizá-las. Sonhava em ter uma bicicleta para andar nas tardes de domingo, quando fazia sol. Domingos assim deixavam-na mais triste que domingos de chuva. Era o dia em que sentia inveja. Olhava as praças, via mães, filhos e maridos saudáveis vivendo o domingo da forma como sempre quis. Perguntava-se porque não podia viver também.

Era doído ver o sol que entrecortava as folhas formando desenhos dançantes nas calçadas. Só de ouvir o som das risadinhas de crianças sentia vontade de chorar. Meninas magras com suas roupas esportivas cortavam o vento, seus cabelos se enrolavam na sua melancolia. Não parava de se perguntar porque todas aquelas cenas incomodavam tanto. Por que ela não conseguia fazer parte daquele ambiente? Tinha filhos, marido e dinheiro para comprar uma bicicleta, mas sabia que aquele mundo não era para ela. Se comprasse a bicicleta certamente iria empatar um dinheiro para ficar na garagem servindo de abrigo para casa de aranha.

Um domingo ensolarado numa tarde de inverno era, definitivamente, o pior dia que poderia existir. Ligou a TV, jogou-se no sofá e esperou ansiosamente pelo fim do programa.

28.6.06

Breve no Polishop


Ter personal alguma coisa está na moda. Pelo que me lembro, tudo começou com personal trainer. E nem invente de chamar de professor particular, que não é isso. É personal trainer. Fica mais chique. Na verdade, tudo com personal na frente fica mais chique. Personal language, poderia ser professor de idiomas. Personal maid, empregada e personal mate, sinônimo para namorado. Imagine só:
- Fatinha, esse é o Marcelo, meu personal mate.

Aqui em Vitória, onde a população de peruas e emergentes é a maior per capita do país, imagino até um personal guide. Seria assim: você quer fazer compras, mas a Praia do Canto é tão grande que tem medo de se perder. Para ter certeza de que vai ao lugar certo, chama seu personal guide. Ele sabe exatamente onde encontrar o que você quer e no número que precisa, entre todas as opções que a Praia do Canto, o Jardins capixaba, oferece.

E quando chegar em casa, caso tenha problemas em combinar aquela peça de roupa com as outras de que já dispõe em seu closet de 20m², você vai chamar quem, quem, quem? Seu personal stlyler, claro! Se precisar fazer uma viagem, pra que esquentar a cabeça cheia de laquê com malas? Chame o personal organizer, que sabe como ninguém separar os coringas do seu armário e dobrar tudo tão lindamente que você vai ter pena de usar. Tudo isso, enquanto a personal nutricionista prepara o cardápio para seus personal filhos.

Ironias à parte, acho que um personal pode ser útil de verdade em alguns casos. Se tivesse que escolher um, escolheria (ou inventaria) logo um definitivo: o personal me. Não limitaria tarefas. O personal me faria tudo aquilo que não estivesse a fim de fazer. Banco, supermercado, trocar óleo, velórios, reuniões e alguns eventos sociais. Imagina a cara dos outros quando chegasse lá meu personal e dissesse:
- Olá, boa noite. Sou o personal me da Val. Ela me mandou aqui porque tinha outros compromissos marcados. Disse que sente muito e que não perderá o próximo. A propósito, bela festa, parabéns.

Além de ser bem mais simpático que eu, ele ainda reverteria a situação. Em vez de ficarem chateados com minha ausência, os anfitriões ainda sentiriam-se honrados com minha preocupação em enviar um representante. Fora que, o Zig Zag e o Paulo Octavio noticiariam o ocorrido no dia seguinte, lançando a moda em proporções tsunâmicas pela alta capixaba.
O personal me também poderia ser usado para fins mais baixos. Se alguém dá uma fechada no trânsito, você anota a placa calmamente e passa para seu personal, que perseguirá o infeliz e devolverá a gentileza assim que possível.

Ou seja, o personal me tornaria o mundo um lugar mais preguiçoso e vingativo.
Alguém quer patentear?

Ilustração do Galvão: www.vidabesta.com

13.6.06

Amar é não sentir irc


Quando a gente sabe que realmente ama alguém? Que sinal, que prova, em que momento a gente tem essa descoberta tão necessária e importante e, ao mesmo, tempo tão difícil de precisar? Eu arrumei minha maneira. Descobri que amar é não sentir irc. Irc é, para mim, um dos piores sentimentos que você pode ter por alguém. Por isso determinei que ele é muito mais forte do que todas aquelas baboseiras juntas: superar as dificuldades, perdoar, se doar, ser companheiro, ser verdadeiro, sentir tesão de segunda a segunda, ter pinto grande, ter bunda dura, ter dinheiro no banco. O irc é o vírus que destrói o amor.

Faça o teste para saber se você já sentiu irc por alguém:
1) Vocês vão a um restaurante fresquinho, desses cheios de talher e copos na mesa. Ele está lindo, bem arrumado e cheiroso. Mas não sabe pegar o garfo direito, pendura o guardanapo no pescoço e bebe o vinho tinto na taça de água. Como você se sente? Se nem ligou, ótimo, você não tem irc. Mas se se irritou, minha amiga, é provável que você tenha irc.

Quanto aos homens, não sei se eles sentem irc. Até porque eles são meio desligados para alguns detalhes. Se você é homem e está lendo este texto, por favor, dê sua opinião.

O irc não é a aversão a um defeito de alguém. É o nervosinho que você sente pelo jeito de uma pessoa a ponto de não conseguir tolerar nem mais um mês ao lado da pobre ou do pobre coitado. O irc começa aos poucos, você nem percebe direito. É difícil de controlar, é crescente, é dominante. Se você sente irc por alguém, dificilmente ele ou ela vai ser o amor da sua vida. Eu superei os ircs, acho que posso dizer que já sei amar.

3.6.06

A difícil arte de ser simples


Por um momento pensou em chamá-la de alma gêmea. Desistiu. Não queria rebaixá-la a alma gêmea de alguém tão imperfeito.
Ele tão bruto, tão cru. Não sabia esconder seus sentimentos. Eles vinham à tona de um jeito descontrolado. Que nem soluço. Jurava para si mesmo que tentaria ser mais discreto. Incomodava o fato de ele ter as emoções que sentia por dentro sempre estampadas no rosto. Queria saber mentir, ou simplesmente disfarçar, mas nem isso conseguia. Acreditava que essa transparência era uma qualidade, mas desejava aprender a controlá-la. Era incapaz de engolir certas angústias. "Melhor assim", dizia a mãe dele. "Engolir frustrações pode até dar câncer". Ela não imaginava o quanto ele gostaria de correr o risco.

Sentia-se um louco quando, diante da mulher que tanto amava, tinha ataques aparentemente infundados. Experimentava tudo com tamanha intensidade que na adolescência, cercado de espinhas e ignorância, pensava se não era gay. Um homem pode ser assim, tão sensível a tudo? Chegou a considerar a hipótese de ser evoluído demais. Ou ao menos de estar um passo acima da humanidade na escala da evolução. Porque via os pormenores de tudo, ia além do que qualquer um poderia ver. Nada era o que parecia ser. Cansado da teoria darwiniana partiu para a da loucura. Estava convencido de que era doido, maluco mesmo. Que dava proporções absurdas a qualquer coisa.

Estar ao lado dela era a prova maior de que sua mente funcionava de forma misteriosa. Ela sempre calma. Demonstrava algumas inquietações. Mas não chorava diante de pequenos imprevistos ou quando algum programa de TV mostrava dois irmãos se reencontrando depois de anos. TPM, rompantes, ataques. Nada disso acontecia com ela. E quem poderia culpá-la? Apenas invejá-la pela simplicidade com que encarava tudo. Sim, poderiam acusá-la de ser superficial. Pura inveja. Quantos como ele, que não só vêem beleza na tristeza, como gostam de degustá-la, não sonhavam em conseguir ser como ela? Não complicar a vida. Não ter que disfarçar o que sente porque simplesmente não sente. Não se sentir refém de qualquer emoção vagabunda. Não ter medo de se arriscar por desconhecer o tamanho do tombo que pode levar. Não questionar o quanto se é capaz, não se comparar a outros. Apenas fazer o que acreditava fazer bem. Não precisar sofrer, cair, apanhar pra conseguir ver graça em piadas bobas ou comédias românticas.

Ele a admirava. Lutava pra tentar chegar perto do que ela era. Mas sempre que se via diante uma situação em que perdia o controle de suas lágrimas, percebia que nunca conseguiria. Aquilo era sua natureza. E aquilo um dia, ainda acabaria com tudo.
E de fato foi isso que aconteceu. Ele terminou. Não suportava mais tentar entender por que ela o amava e como eles davam certo apesar de tão diferentes. Pensava tanto que não tinha tempo de ser feliz. Que estúpido.

Ilustração: Paulo Prot
http://deliriumtremens.zip.net

24.5.06

Só nos resta viver


Encontrei a solidão esses dias, entre 9 e 10 da noite. Era uma terça-feira, e as terças-feiras sempre se mostraram difíceis e ardilosas. Sinto o gosto da terça-feira, nem chega a ser amargo, tem gosto de inseto que entra pela boca quando você está distraído. As memórias de outras terças-feiras, do peso do dia que parece ter mais de 24 horas, que parece ser longo como um sermão na igreja, que é insuportável como o horário político. É terça-feira, estou sozinha, vulnerável, o tempo é gelado, o vento é cinza. Perfeito para um encontro com ela, justamente de quem mais procuro fugir, me esconder, evitar esbarrões desnecessários.

A solidão é supérflua, não preciso dela, não sinto falta, não desejo e aprendi a me livrar dela com o tempo. Aliás, fazia muito tempo que não pensava nela. Mas bastou ser terça-feira, fazer frio e ser 9 horas da noite, entrar no carro, dar algumas voltas pela rua, ver os bares com casais, ver outros bares vazios, não ver nenhuma mulher sentada sozinha em nenhum deles para me sentir sozinha. Vejo um homem sozinho no bar, bebendo e fumando. A solidão veste melhor um homem que uma mulher. A visão de uma mulher no bar, sozinha, fumando e bebendo é dura e estranha. Além da solidão ainda encontro o preconceito. Estou muito bem acompanhada nesta terça, como já deu pra notar.

De nada adianta os livros que li, o quanto amadureci antes do tempo, todos os perrengues que passei, não adianta o que algumas pessoas já falaram de mim, que sou forte, que agüento tudo, que seguro qualquer coisa. As frases prontas estalam na cabeça: você não precisa de ninguém para ser feliz, você tem que se bastar, você não pode depender de ninguém. Quem falou tudo isso não estava no meu lugar, numa terça-feira fria, com a solidão ali, sentada no banco do carona olhando pra mim. E quanto mais voltas eu dava, querendo encontrar um lugar para me livrar dela, mais ela se recostava no banco e ria. Também dói em mim saber que a solidão existe e insiste.

16.5.06

Sem querer querendo

Odeio pedir desculpas por várias razões. Orgulho nem é a pior delas. O que mata é o que vem por trás das desculpas. Algumas situações são simples de lidar. Um pisão no pé, por exemplo, foi mal aê resolve. Mas em outros casos, desculpa só soa como uma palavra vazia, que tenta reverter algo que não tem volta.

Outro dia eu fui, digamos, um tanto quanto grossa com alguém que amo na frente de outras pessoas. Sim, eu sabia que estava fazendo merda. Mas dentro de mim, em algum lugar, tem um botão que aciona meu Personal Pica-Pau Mau. Não sei precisar o que faz isso surgir, mas normalmente é algo que mexe, de forma que nem eu entendo bem, com meu orgulho ou minha segurança. E aí não consigo me controlar. Vem brotando lá das profundezas do pior lado do cérebro um pensamento maldoso que toma a temida forma de uma frase extremamente escrota, dessas capazes de acabar com o clima de qualquer situação. E aí, depois de um papelão desse, me sinto ainda mais estúpida de ter que pedir desculpas. Como se pronunciar a palavra fosse consertar o que aconteceu. Sim, eu sei que o objetivo de se desculpar não é reparar o passado, mas mostrar que está arrependido, que sente muito pela cagada que fez. Mas a culpa, a consciência de que a qualquer momento algo pode novamente acionar aquele botão do pica-pau mau, faz qualquer desculpa parecer inútil. Não para o outro, mas para mim.

Desculpas não têm propriedade de fazer o fato passado entrar em ebulição e evaporar no ar. A grosseria continua lá, registrada na mente de quem sofreu com minha estupidez. Assumir o erro não faz a culpa sumir. Continuo envergonhada por um bom tempo, até provar pela convivência, que a merda que fiz foi exceção e não regra.

E é essa a razão maior de eu odiar desculpas: saber que eu cheguei ao extremo, que passei por várias etapas, que tive a chance de parar antes, mas fui adiante, até chegar ao ponto de cometer um erro cretino e ter que me desculpar. Pior que isso é saber que pedir desculpas não me livra de cometer o mesmo erro novamente e aí então, me sentir um cocô outra vez.

Por isso que tenho pavor de gente que faz da desculpa um hábito, um vício. Que ofende, erra, trai, mente e pensa que tudo se resolve com um olhar de cachorro que caiu da mudança e um “me desculpa”. Pra agredir mais só falta dizer “sou humano”. Sou capaz de mandar se fuder.

Como hoje estou num dia bom, vou ser otimista. Vou acreditar que se guardar direitinho na minha memória a sensação ruim que é se arrepender e ter que se desculpar, talvez cometa menos erros. E quando ainda assim vacilar, não vou sofrer tanto quanto ou até mais que a vítima. Porque pior que ter que pronunciar essa bendita palavra, é não admitir o erro e negar se desculpar.

Ilustração do Galvão. www.vidabesta.com