31.8.07

Recomeço


Estava desnorteada. Sentia um mal-estar que ficava bem ali, entre o dedo do pé e o último fio de cabelo da cabeça. Olhava em volta e sentia-se uma poeira cósmica em um universo desconhecido. Ali ninguém a conhecia. Ninguém sabia de seu passado. Poderiam julgá-la de forma cruel pelo primeiro erro que cometesse. Para aquelas pessoas, não importava se ela sempre foi calma, legal, responsável. Ninguém sabia de seus filmes favoritos ou qual era sua última música preferida.

Para aqueles desconhecidos, que a olhavam como quem olha um bicho na vitrine, pouco importavam suas habilidades. Elas só existiriam a partir do momento que ela tivesse a chance de mostrá-las. Até lá, era um zero. Uma folha em branco, que cada um pintaria como quisesse. Não representava nada de importante. Apenas um mistério. Todas as piadas que sabia, o sanduíche de mortadela que aprendeu a fazer ou o último livro que leu. Ninguém ali sabia de nada.

Sentia saudade de seus amigos. Já sabiam de seus defeitos, suas qualidades. Mas era preciso levantar a cabeça e continuar seguindo por aquele longuíssimo corredor de poucos três metros até sua sala. Com o tempo, ela ia mostrar do que era capaz. Ia conquistar respeito e recolher méritos, como sempre fez.

À medida que entrava em sua nova sala, sentia o chão se construir a cada passo. Pensou em correr e fugir, deixar sua fama de boa moça para lá. Estava com medo, tanto medo que parecia que nunca ia passar. Mas lembrou de sua mãe dizendo que ela se sairia bem e foi até o fim. Seu coração batia tão forte que ela tinha medo de que alguém escutasse. Ocupou a mesa que agora lhe pertencia. Sentiu-se mais aliviada. Enfim tinha um espaço dela, ainda que num ambiente estranho.

Cada um de seus poros agia como um sensor. Ela sabia que estava sendo observada. Olhou em volta buscando mostrar atitude e esconder um pouco do acuamento. Um pensamento leve passou pela sua cabeça e ajudou a relaxar a musculatura das costas. Imaginou que um dia, um daqueles estranhos que não lhe diziam nada, se tornaria um grande amigo, visitaria sua casa e lancharia com ela.

Alguém bate à porta. Uma senhora alta, de terno azul marinho ligeiramente antiquado, coque alto e impecável.
- Com licença? Posso roubar só um minutinho? Gente, gostaria de apresentar Adélia. Esse é o primeiro dia dela aqui. Dêem um bom-dia bem alto de boas vindas.
Ela corou de vergonha, mas respondeu ao sonoro bom dia da 5º série C. Algum engraçadinho ainda disse ‘ficou vermelha’. Todos riram. Ela adorou. Sentiu-se menos estrangeira em seu novo colégio.
ilustração do galvão em www.vidabesta.com

27.8.07

Você aceita?

Desculpe-me, mas não possuo a tecla stand by. Não dá pra mim, não sei ficar pronta para ser ligada a qualquer momento, quando você bem entender. Ou estamos ligados e veremos juntos os melhores programas, seremos os protagonistas dos filmes mais divertidos, viveremos com ação e emoção, comeremos pipocas com guaraná, criaremos o roteiro e iremos dirigir todas as cenas, ganharemos prêmios por nossas participações ou não irá funcionar pra mim.

Alguém pode me explicar como se vive assim, sem que seja dito tim tim por tim tim qual é o plano que iremos seguir? Ah, claro, você prefere o improviso. Estamos improvisando já faz tempo, e estou bem perto de bater no seu ombro gentilmente e dizer: ou dá ou desce, querido. E não me entenda mal, não quero casar na igreja, no cartório, no parque de diversões, na fazenda da sua mãe, no templo budista. Não é disso que estou falando. Pelo contrário, a festa de casamento é a parte mais fácil, e a mais dispensável de toda a nossa história. Definitivamente não tenho o menor interesse em mostrar pra todo mundo que somos um casal muito animado, que iremos fazer do nosso casório um grande acontecimento, que todos irão beber, brindar, subir nas mesas, fazer declarações cheias de entusiasmo, que será o dia mais perfeito de nossas vidas. Não, não quero nada disso.

Não quero pedir presentes aos amigos, não quero que eles reclamem das músicas ou do calor ou do frio ou dos salgadinhos. Não quero que eles usem uma gravata para me ver desfilando num corredor infinito vestida de branco e com dois dedos de corretivo no rosto. Dispenso tudo isso com um grande prazer pelo simples motivo que isso é muito fácil de se conseguir, principalmente quando se tem dinheiro.

Eu quero é saber o quanto de vontade nós teremos para seguir em frente. Chega desse papinho de viver o presente, isso era ótimo quando tínhamos 17 anos e nossa única responsabilidade era passar no vestibular. Minha pergunta é: como se chama esse negócio que estamos vivendo? Em quais planos posso incluir você? Em quais deles você quer participar ativamente? Vou simplificar para você: quer ter filhos comigo? Quer dividir comigo bens materiais como apartamento, carro, sítio na montanha, outro apartamento para investimento, fundo de renda fixa, ações? Quer montar um plano para morarmos fora do país por 5 ou 10 anos? Quer pensar em nossa aposentadoria? Quer ser meu sócio naquela idéia de ter um café-livraria-galeria de arte? E por último, é muito difícil para você responder sim ou não em todas essas perguntas? Sim ou não?

Deixa que eu adivinho. Você não tem a menor idéia de como quer sua vida daqui a cinco anos. E também não quer que ninguém diga o que você tem que fazer. Mas ao mesmo tempo você quer companhia para ir domingo à noite ao cinema. Mas não consegue pensar em nada que exija mais raciocínio do que a programação de um fim de semana prolongado. O problema está aí: eu preciso saber. Porque gosto de me programar. É isso que me faz pensar que todos os problemas valem à pena. Pensar que iremos para a República Dominicana me dá forças para agüentar cliente chato na minha orelha. Imaginar que vou com você pra Nova Zelândia me impede de comprar bolsas e sapatos a mais só porque estão em liquidação. Amar você é isso: ter um motivo para viver e querer viver mais.

21.8.07

Amor de verdade



Olho por aí e vejo tanta gente buscando um amor. Aquele lá que vai salvar a vida, dar um novo significado até para as menores coincidências do mundo. Um amor que vai tirar remela do seu olho pela manhã, comprar um presente no meio da semana sem motivo. Fica todo mundo esperando aquele alguém que vai chegar no escritório, durante o horário de trabalho, só pra dar um beijo.

O amor imaginado tem pequenas brigas, porque sexo de reconciliação é sempre coisa de louco. Tem dias ensolarados na praia e chuvosos no cinema. Tem conversas sobre a relação que realmente levam a mudanças concretas, sem terminar com brigas intermináveis sobre... sobre o que mesmo?

No meio dessa caçada à metade, à alma gêmea e outros substantivos bregas, desse tiroteio de intenções desesperadas, o amor de verdade é subestimado. Fica lá no cantinho, enquanto a maioria procura por ele em placas de néon. Amor não é um show da broadway. É cachorro-quente na esquina. É milk-shake com dois canudos. E do outro lado, nem sempre é quem esperamos.

E você é a prova disso. O amor é quase uma terceira pessoa entre nós, de tão presente, tão tateável. E como tudo que é real, também trouxe dor. Abrimos grandes feridas, expusemos carne, ossos e nervos. E não eram de aço. Mas até isso serviu pra mostrar que nunca deixou de ser amor.

A realidade sempre se manteve sob nossos pés. As amigas inseparáveis, com empregos de usar tailleur, filhos lindos e viagens exóticas eram coisa de filme. Nós ficamos com as quedas em escadas rolantes, os cabelos desajeitados da adolescência, as risadas descontroladas nos lugares mais inapropriados, as descobertas embaraçosas, as vozes engraçadas, as piadas que só nós entendemos. O mundo tem bilhões de pessoas e ninguém, além de nós, vê sentido ou graça nas nossas piadas. Não é lindo isso? Cantamos parabéns mais de 15 vezes, vimos namorados indo e vindo, gatos e cachorros nascendo e morrendo. Falhamos, sentimos o coração se partir com tanta força que chegava a dar um terremoto no corpo todo. Mas nunca deixamos de nos amar, mesmo quando achamos que tudo havia acabado.

Já disse eu te amo algumas vezes na vida, mas quando penso em nós duas, questiono alguns amores. Conhecer você fez eu me conhecer melhor. Me sinto acolhida por você, que nem comer broa de milho de avó e dormir em lençol com cheirinho de casa. Você me conforta por existir, mesmo que longe, mesmo que ocupada, casada, chateada. Não temos mesmo sangue, nunca fizemos sexo, não dividimos contas. Não quero ter filhos com você, nem esquentar meus pés nos seus. Mas o outro canudinho do milk-shake sempre vai estar lá pra você.
ilustração em vidabesta.com

16.8.07

A carta que não mandei

Foi engraçado a forma como achei que você me olhou quando fomos apresentados (novamente) um para o outro. Enquanto nos cumprimentávamos, pensava: já nos falamos antes, sei quem você é, sei dos lugares onde você trabalhou. Não chegava a ser sua fã, mas tinha uma simpatia por você que não sei de onde vinha. Talvez pelos amigos em comum que temos e que sempre falaram bem de você. Talvez por você ter um olhar ligeiramente estrábico, que pode ser um charme, dependendo de quem vê.

Mas quis acreditar que você me cumprimentou com relativa empolgação. E fiquei feliz por isso. Um tempo depois recebi seu e-mail, que tinha no assunto uma numeração. Era o primeiro – e no instante seguinte depois de lê-lo, imaginei que iríamos começar uma sistemática troca de informações sobre nós mesmos, sobre nossas vidas, nossas opiniões, nossas expectativas e tristezas. Em horas como essa, detesto pertencer ao estereótipo feminino. Mulheres em geral criam situações absurdas somente com uma troca de olhares. Se imaginam namorando, tendo alguém para levar nos almoços de família, viajando para uma cidade romântica no sul da Itália. Enquanto para o homem aquela troca de olhar não passa de um queria te comer hoje à noite.

No meu caso, tenho uma explicação. Tudo bem se não quiser saber e parar de ler neste instante. Aprendi a lidar com a rejeição. Claro que ela me afeta, mas consigo voltar ao normal em um ou dois dias. Aguardei ansiosamente por outro e-mail seu, e desejei que o próximo fosse sair da esfera de assuntos amenos e começar com linhas mais densas e interessantes. Mas não, a resposta que veio foi ainda mais distante e sem uma pista sequer de todo aquele interesse que supostamente imaginei que tivesse tido por mim.

Vou tentar explicar por que isso acontece. E provavelmente não acontece só comigo. Deve ser mais comum do que imagino. Vivo em um relacionamento que já não sei onde eu começo e onde termino. Me misturei tanto com aquele que divide comigo a mesma cama, a mesma mesa, o mesmo sofá que cedi a algumas convicções, adquiri outras, mas com certeza não sei mais me descrever. Antes de termos uma relação tão íntima com alguém deveríamos registrar em cartório aquilo que somos. “Declaro que sou o que sou e que só irei mudar diante de grandes vantagens”. Mas não é assim que acontece, você sabe bem. E é aí que você deveria entrar. Quis que você fosse o herói da minha história, que me resgatasse e fizesse me lembrar de quem fui.

Não me decepcione dizendo que sou eu que tenho que dar um basta se não estou feliz. Não quero que você seja pragmático, isso é para ser uma carta romântica. No momento em que nos falamos, que trocamos o primeiro e-mail, não me importava se você era casado, se tinha filhos, se estava apaixonado por sua mais nova amante, se queria deixar o emprego e abandonar tudo sem avisar ninguém. Desejei somente ter alguém para me desconcentrar, alguém que mostrasse um verdadeiro interesse por mim, alguém para me fazer pensar diferente. Nesse momento me passa pela cabeça se você também não queria o mesmo de mim. Se agora estamos os dois pensando: por que não tivemos coragem para tentar?

14.8.07

Flagra


- Adolfinho. Você ouviu isso?
- Ouvi nada não, mozin, fica calma.
- Ai, Adolfo, sei não, eu juro que ouvi o rangido da porta.
- Quiqui, não tem ninguém em casa.
- Adolfo, tem uma sombra no corredor.
- Santo flagra.

Não houve tempo para nada. Nem mesmo para se cobrirem. Em questão de segundos, a mãe de Adolfo adentra seu quarto. A cena é dantesca. Era impossível saber qual perna era de quem. A expressão de terror de dona Miriam era a mesma de quem está do outro lado da rua e vê seus três ônibus passarem ao tempo. Pânico, desespero, falta de sorte.

(grito de aproximadamente dez segundos ecoa pela casa.)
- Meu filho! O que é isso?
- Mãe, eu posso explicar.
- Não tem como. Até porque nunca vi posição igual a essa.
- É, a gente que inventou. Mas fica calma, mãe.
- Dolfinho, como é que vou ficar calma com vocês dois pelados na minha caminha, esfregando essas... essas... nádegas suadas no meu lençol de seda?
- Mas dona Miriam, a senhora tem que entender nossa situação.
- Eu estou entendendo bem. Principalmente a situação do meu filho. Tampa seu pintinho, Dolfinho, que mamãe fica constrangida de ver ele assim.
- Mas a senhora há de convir que somos prevenidos. O pintinho dele está coberto, viu só? Mostra aí, Adolfin.
- Pára, Quiqui, pára.
- Mas é verdade, num é? Mostra logo esse treco, sua mãe já viu isso mil vezes.
- Ah, meu deus!
- Como a senhora percebeu, ele está devidamente protegido. Com o susto ele ficou meio recluso, com carinha de sharpei... tadinho. Mas a borrachinha tá presa ali.
- É mãe, ela tem razão.A gente se preveniu. Engravidar ela não ia.
- Mas que cara de pau... não existe justificativa pra essa sodoma e gomorra. É uma falta de respeito.
- Falta de respeito não é não, dona Miriam. Nós forramos sua cama com essa toalha de praia, pra não sujar seu lençol de seda com Nutella. Nós fechamos a cortinas pros vizinhos não acharem que era a senhora se divertindo. Nós tiramos o quadro com a imagem de Jesus da parede, pra ele não ver nada.
- Ele vê tudo, minha filha, vê tudo! Não merece, mas vê, coitado.
- Coitado é o Adolfo, dona Miriam. Sabe que ele fica com dor nas bolinhas quando a gente fica sem transar?
- Deus do céu!
- Fala pra sua mãe, Adolfo, fala que você fica todo dolorido.
- Pára, quiqui.
- Larga de agir que nem menino! Ela já pegou a gente furunfando mesmo. Aja que nem homem. Agorinha mesmo você não era o peludo selvagem que ia explorar a gruta? Agora está com medo da sua mãe?
- Tá bem, tá bem. É verdade, mãe. Se eu passar um dia sem sexo, o negócio aqui vira panela de pressão. Fico que nem aquele seriado, o 24 horas. Pura tensão.
- E tem mais. A senhora sabe o que é ir pra motel? Olha, dona Miriam, tem que ser muito guerreira.
- É verdade, mãe. Dia desses a gente foi brincar na banheira e um bolo de cabelo saiu do...
- Adolfin! Poupe-me, meu filho.
- A senhora que tem que nos poupar desse moralismo. Tem que agradecer por seu filho arrumar uma namorada direita que nem eu. Poderia sair por aí pegando um monte de louca. Não falta golpista por aí querendo um Dolfinho Neto.
- É mesmo, mãe. A Quiqui é show. E olha o corpo dela. Mostra o abdominal pra mamãe, Quiqui. Né bonito, mãe?
- ... isso é demais pra mim. Eu preciso me sentar.
- Senta aqui, dona Miriam. Dolfo, tira o vibrador daí.
- Aaahhh, santo, santo senhor!
- Calma mãe, isso é de mentira. Ó, pega aqui, é de plástico, viu?
- Ô, senhor...ô senhor...
- Tira isso de perto dela, Adolfo, ela sabe que é de plástico. Ia ser o quê? Um piru decepado?! Se acalma dona Miriam. Olha, eu sinto muito por isso. Mas a senhora tem que ver que era a única solução. A gente estava sem grana pra motel. Não ia ser no carro, a senhora sabe como é perigoso.
- É, isso é... está feia a coisa.
- Então. Aí a gente chegou aqui e não tinha ninguém em casa. E essa sua cama, sogrinha, que delícia. Nunca vi colchão igual.
- É? Você gostou? Também gosto... é macio... obrigada.
- Gostei não. A-mei. E não machuca o Adolfinho. A senhora sabe que o joelho dele é podre. Mas nesse colchão a gente faz tudo que é posição e ele fica sem dor.
- Ah, que bom, meu filho.
- E assim, sem querer abusar da nossa intimidade, a decoração do seu quarto é um sonho. Se eu dormir e sonhar com um quarto, puf! Lá vem o quarto da senhora na minha cabeça.
- Assim eu fico sem graça.
- Bom que assim ficamos empatadas, num é? Dona Miriam, vamos fazer o seguinte? Eu e Adolfo vamos tomar um banho, passar uma água no long john...
- Londjôn?
- O apelido do vibrador. Guardar as bolinhas tailandesas... puxa, que situação... desculpe esse arsenal de brinquedinhos safados, mas hoje é aniversário de namoro. Eu queria deixar o Dolfin feliz. Me sinto tão envergonhada agora.
- Meu amor, fica assim não. Mamãe entende.
- Eu só queria fazer você feliz, amor. Olha a confusão que deu. Eu sempre faço tudo errado.
- Ô, querida, não precisa disso. Olha, eu vou fazer um chá de camomila pra todos nós. O que acha?
- Boa, mamãe. Eu vou ficar aqui com a Quiqui, pra ela se acalmar.
- Aproveito e asso aqueles biscoitinhos de polvilho que vocês gostam.
- Você é demais, mamãe.
- Deixa pra lá, meu filho.
- Mamãe!
- Oi?
- Fecha a porta quando sair?

ilustração do galvão: www.vidabesta.com

9.8.07

Mais que nada


Eu sou só mais uma e mais nada. Não tem nada de especial em mim que não tenha igual em outras centenas de milhares de pessoas. Não sou simpática nem carinhosa nem amiga nem preocupada nem interessada nem boa, sou o nada, sou igual a você que também só quer ser admirado. Sou exatamente igual a você que tenta falar bonito para parecer inteligente. Que de vez em quanto cita um autor da moda, fala da banda mais nova, lembra da cena do filme mais premiado em Berlim. É tudo teatro, pior, é um circo de aberrações sendo expostas de acordo com a necessidade de todos esses miseráveis que são iguais a mim e a você. Pode sentir pena de mim, pouco me importa. Não pense em nada para me falar, vai ser inútil. Engula suas palavras bonitas, enfie a mão que quer me acariciar no seu cu. Me deixe aqui, em paz, não tente ser bom para mim.

Não quero ser mais nada para você. Não quero retribuir seu recado cheio de afeto, não quero seu elogio sincero, me divirto mais com sua ironia e com seu cinismo. Vou copiar quem eu quiser, não quero parecer autêntica, não quero ter estilo só porque uso um sapato amarelo de corações brancos. Não quero agradar mais ninguém, não espere meu ombro amigo, não deite no meu colo, não estenda a mão para mim, não se apóie no meu corpo, não espere calor do meu abraço. Eu sou o nada e é só isso que tenho para você. Eu sei que não engano nem você nem ninguém, sorrio para receber um sorriso de volta, dou flores para ganhá-las, pago para que um dia paguem para mim também. Que mal há nisso? Não me interessa mais, não vou procurar a verdade porque ela não existe.

Verdade, felicidade, amor. Um trio imaginário que suga sua vida inteira, que rouba todas suas energias fazendo você acreditar que um dia vai encontrar o pacote com tudo isso ali, bem na frente da sua porta, sem que você tenha que ter feito das tripas coração para conseguir encontrar. É mais fácil escalar o Everest, mergulhar no Mar Morto, ficar à deriva na Antártica do que encontrar o que você acha que podemos dar um ao outro. Fique longe de mim enquanto você pode, porque aqui do meu lado você vai acabar sendo preenchido por todo o meu vazio. Vai dividir comigo o gosto amargo, as dores no estômago, o tremor nas mãos, a ânsia de vômito, o suor gelado da nuca, o cheiro acre das axilas, o medo e o horror dos meus olhos. Vá embora e me deixe de uma vez por todas porque agora nem a mim que sou nada você merece.

6.8.07

Licença


Pode ser que você mude de idéia amanhã. Ou talvez eu mude. De repente vamos acordar e ver que não existe mais motivos pra tanta coisa. Mas por enquanto, posso fazer planos com você?

Mesmo que você vá embora pra sempre no mês que vem, me troque por uma loira gostosa ou uma feia super esperta, posso falar de futuro? Não quero que você pense que sou uma solteirona desesperada ou uma garota ingênua demais. Uma dessas que quer realizar o sonho do príncipe com tanta força que coloca isso acima do próprio relacionamento. Quero só dividir tudo que puder com você, enquanto esse momento existir.

Você não precisa pagar minhas contas, lavar minhas roupas ou emprestar seu cartão de crédito. Muito menos, ao fim de cada frase relacionada ao futuro, dizer que era tudo brincadeira. Isso não é um contrato pra assinar embaixo. “Atesto aqui que todas minhas promessas podem ser quebradas num futuro indeterminado, caso mude de idéia. Atesto também que algumas frases melosas podem ser mero exagero, ditas apenas para fomentar o romance”. Eu sei que funciona assim e aceito as condições.

Pode parecer sem sentido falar onde jantaremos quando completarmos cinco anos juntos. Não tem problema. Quero que seja só isso. Uma conversa de beira de ouvido, despretensiosa. Coisas ditas num domingo frio, com televisão ligada em qualquer lixo, porque simplesmente temos preguiça de mudar de canal. Segredos ditos entre uma soneca e outra, no meio do café ou durante um abraço embolado no lençol. Verdades que podem durar um segundo ou um minuto, mas ainda que temporárias, verdades.

Tudo isso é meio adolescente mesmo. Pensar em nomes pros filhos que só virão em anos, escolher o modelo de sofá pra sala. Brigar pela cor da cortina do nosso quarto quando nem moramos juntos parece estúpido. Mas é tão gostoso planejar tudo com você, saber tudo que você pensa sobre as maiores inutilidades do mundo.

Quando eu perguntar se vamos acompanhar as Olimpíadas de 2012, diga que sim, sem nem perguntar onde vai ser. Nem eu sei onde vai ser. E tudo bem se até lá mudarmos de idéia. O importante é que agora você queira estar lá comigo em cinco anos. Ainda que em cinco anos desista. Eu quero discutir qual raça de cachorrinho vamos adotar. Se é que vai ser um cachorro e não um gatinho. Decidir que flor plantaremos no jardim ou se o quarto deve ter uma televisão. Eu voto em não. E você? Pode falar, fala sim. Sem medo de nada disso acontecer e nos sentirmos dois idiotas. Sentir saudade dos planos que nunca se realizaram é uma das coisas que mais doem quando tudo acaba. Mas prefiro isso a não poder brincar de futuro com você.
ilustração em www.vidabesta.com

1.8.07

Toda ouvidos


Na hora que ele me ligou, já passavam das 10 da noite. Era sábado e quanto mais rápido eu dormisse, menos ficaria pensando no que não fiz e nas oportunidades de conhecer pessoas (homens, na verdade) que eu desperdicei. Já estava de camisola, deitada com meu abajur ligado tentado me concentrar na revista que comprei de manhã na banca ao lado da minha casa.

- Oi, já tava dormindo?
- Não, tava lendo...
- Posso ir aí conversar com você?

Ele tinha brigado mais uma vez com a mulher. E, como de costume, vinha me contar ponto a ponto o que havia acontecido. Na verdade, ele precisava se e me convencer de que não estava totalmente errado. Precisava do ouvido atento de alguém que o amasse incondicionalmente.

- Claro, pode sim.

Falei sem muito entusiasmo, na verdade tive que arrumar muita de disposição para apagar a luz do abajur que me dá conforto e transforma meu quarto num lugar mais interessante, com foco somente no que é importante, minha revista, meus livros, o jornal que não deu tempo de ler durante o dia. A pouca luz esconde as imperfeições das paredes e as minhas também, mas tive que apagá-lo, acender a luz do quarto e trocar de roupa para não deixá-lo culpado por me ver de camisola – por que tenho que pensar em tudo? Fui pra cozinha, cortei queijo, fiz uma pasta para acompanhar as torradas, coloquei a cerveja para gelar, levei o som pra varanda. A campainha tocou.

- Oi, tá com fome?
- Sim, e foi por isso que a gente brigou.
- Ué, você não pode sentir mais fome?
- Não, não foi isso. Você acha que estou muito desarrumado?
- É, não tá o homem mais bem-arrumado do planeta, mas também não está assustando ninguém.

Ele abre a cerveja, pega um pedaço de queijo, senta na varanda e começa a falar, falar, falar. Por horas fico apenas olhando pra ele e pensando de onde vem tanto amor. Prefiro não dizer nada, ele é incapaz de mudar. O que custava ele tomar um banho, trocar de roupa e passar um perfume para deixá-la feliz? Muito, porque ela não consegue entendê-lo como eu. Ele sofre de falta de ser aceito do jeito que é. Psicólogos chamam de baixa auto-estima. Ele quer apenas matar a fome, com a mulher que ama, e que se dane a bermuda, o chinelo e a camisa de malha com estampa de propaganda. Nada disso pra ele interessa. Mas ela não compreende e desfaz dele no mesmo instante: “Sair assim com você? Não vou mesmo.”
Ele, que não sabe conversar e se fere facilmente, fecha a cara, deixa ela em casa e busca em mim algum tipo de alívio.

Depois da segunda cerveja ele começa a dar sinais de cansaço. O queijo acabou, a carne que esquentei também. Ele se senta no sofá, liga a TV, vê um pouco da reprise de um jogo qualquer. Enquanto eu jogava fora as latas de cerveja e limpava a varanda ele voltou para o seu mundo. Estava satisfeito por ter comido, bebido e desabafado. Terminei de lavar as louças na cozinha. Ele havia desligado a TV e já estava na porta, bocejando, com chave do carro balançando na mão.

- Amanhã a gente se fala, tá?
- Tudo bem...
- Um beijo, boa noite.
- Tchau, pai, boa noite.

27.7.07

Surpresa



Shhhh. Faz silêncio aí pra ela não escutar. Nem respire, porque senão ela pode ouvir e a surpresa vai pra cucuia.

Hoje é aniversário de alguém que amo tanto, tanto, tanto, que nem cabe tanto tanto no texto. Se eu tivesse que escrever sobre uma amizade perfeita, não conseguiria descrever tão bem o que tenho com ela. Ou sei lá, vai ver que tem mesmo isso de outra vida e, antes da cegonha me trazer de novo pra esse mundo, eu virei pra algum anjo do setor de relacionamentos e disse: só reencarno sob essas condições. E lá estava ela nas primeiras condições. Junto com não ter celulite. Mas essa não foi atendida.

Somos tão amigas que já nem sei se o nome disso é só amizade. Parece até uma definição pequena perto de tudo que sinto por ela. Nos escolhemos por livre e espontânea vontade para dividir tudo que acontece em nossas vidas. Até que tentamos manter uns segredos, mas as revelações são fatais. E geralmente, engraçadíssimas. Temos nossos momentos de privacidade em que, naturalmente, nos afastamos. Seja por trabalho ou até por falta de assunto, porque às vezes acontece mesmo. Mas nada que uma tarde num café não resolva. Aí tome planos, piadas, conselhos e risadas. Momentos tristes também acontecem, claro. E não há nada que uma não tente fazer para agradar a outra nessas horas.

Shhhhhh. Assim ela vai ouvir. Ela ainda não leu isso, nem sabe que estou colocando aqui. Nem é dia de postar. Leiam baixo pra ela não desconfiar.

Ela nem é desconfiada assim. Mas tem uma intuição pavorosa. Parece minha mãe, sempre acerta o que eu tô aprontando. De repente é mesmo intuição de mãe, como ela é. Uma supermãe. Quando ela se questiona sobre isso, fico pensando da onde tirou essa idéia. Garanto que o filhote não questiona isso. E além de mãe, ela é empresária (chique isso, mas verdade), escritora talentosa, mulher vaidosa, cuidadosa, corajosa e surpreendente. Ah, e também acha tempo pra ser minha amiga.

Ela merece tudo que ama o tempo todo. Merece que pessoas se joguem no caminho pra tampar poças de lama. Merece eunucos (ou não, vai saber) abanando ela com folhas de palmeiras. Merece aquele biscoito de amêndoa, que ela ama, todo dia na sobremesa. Merece todas as roupas da Dress to Kill, sapatos da New Order, bolsas da Clo. Merece um celular que funcione direito, porque os últimos têm sido um cocô. Merece clientes que escutem e considerem tudo que ela diz. Merece a confiança e o respeito de todos. Mais que isso, o reconhecimento. Merece ser regada todo dia, colocada no sol e adubada, como florzinha que é.

Pronto. Agora vocês contem até 10. Mas bem baixinho. E assim que ela acessar essa página, respirem fundo e depois gritem com todo ar que tiverem no pulmão “ feliz aniversário, docinho!”.
ilustração de claudio frança.

25.7.07

Rehab


Meus olhos se abrem. E parecem ser a única parte do corpo capaz de se mover. O corpo está pesado, apesar de eu ter perdido uns bons quilos ultimamente. Sinto os floquinhos de espuma do travesseiro na cabeça e as molas do colchão pressionando as costas. Estou presa à cama. Não tem algema, corrente, corda. Não tem cola nem velcro. Tudo que me prende a essa cama é sua lembrança.

Poderia me esforçar. Contar um, dois, três e já, levantar daqui num impulso, fincar o pé direito no chão e tentar me convencer de que hoje superaria tudo. Mas não.
Hoje não saio daqui. Vou deixar cada lembrança sua me estapear, nem que pra isso precise me amarrar, perder o controle, acordar os vizinhos e assustar o gato. Preciso de toda energia que tiver pra não esquecer nem um detalhe seu. Quero reviver cada momento com tanta força que eu precise esticar as mãos pra ter certeza de que é apenas um pensamento, e não você diante de mim.

Quero lembrar da cor que seu cabelo fica no sol. Daquela pinta no seu queixo, que me fazia repetir a mesma piada mil vezes, enquanto passava o dedo sobre ela. “Tem comida aqui. Ah não, é uma pinta”. Você sempre ria. Quero reprisar diálogos nossos, relembrar suas reações. Quero me concentrar a ponto de sentir o cheiro que tem seu pescoço e o peso do seu abraço, quando me apertava forte depois de quase me matar fazendo cosquinhas.

Hoje não vou comprar sapato, caminhar no calçadão e brincar com cachorrinhos que passam. Hoje não vou comer nem uma barrinha de chocolate, engolir o choro. Não vou assistir a um drama para dizer que é pelo filme que estou chorando. Hoje fico aqui, na cama. Estou disposta a viver as piores 24 horas da minha vida. Quero juntar nesse dia todas as sensações que você ainda provoca em mim até quase explodir.

Estico as pernas, viro, me cubro, me descubro. O desconforto, que antes era só no coração, agora vai pro corpo todo. As horas passam e a boca tem um gosto amargo que já nem sei se é de falta de comida ou de você. O telefone toca. Não atendo. A campainha toca. Não atendo. Hoje não atendo nada. Não vou ler jornal, não vou jogar buraco, não vou me maquiar. Hoje não vou inventar de pintar o cabelo na esperança de que tudo mais mude.

Cansei de perder a luta contra essa dor. Não agüento mais explicar o que aconteceu com você pra todo mundo e fingir que não estou péssima. Eu não quero mais brincar disso. Quero um ponto final, nem que eu surte nessa cama. Hoje vou ser otimista. Vou sofrer o máximo que puder pra amanhã não sobrar mais nada pra sentir.


ilustração em www.vidabesta.com

19.7.07

Pobre amor


Vamos fazer assim, eu tiro você por algumas horas desse subúrbio onde você vive e levo-o para jantar em restaurantes onde nem o nome das entradas você vai saber pronunciar. Em troca você me apresenta sua família simples e ordinária que ainda ri vendo videocassetada afundada no sofá de couro falso.

Eu ensino você a beber vinho de verdade, em taça de cristal, na temperatura certa. Enquanto você escuta Miles Davis e John Coltrane, fica sabendo o que penso do cinema alemão. Mas fique sabendo também não vejo a hora de você me levar para mais um inferninho e encontrar com seus amigos de brincos espalhados pelo corpo e amigas de cabelos multicoloridos. Me ensine o refrão desta banda que nunca ouvi dizer, me dê um beijo com gosto de cachaça, esfregue a barba por fazer no meu rosto.

Me leve para acampar na beirada de uma cachoeira, mas por favor, não me faça ouvir reggae. Prometo não reclamar dos hippies tocando violão e fumando maconha envolta da fogueira, nem dos mosquitos, nem de ter que fazer xixi no mato. Mas deixe que eu leve você para conhecer uma cidade cheia de referências históricas, com museus, galerias de arte e livrarias em prédios monumentais. Vamos a um café, beber água com gás, pedir um expresso com creme e conversar sobre amor e sonhos.

Pegue um ônibus e venha até minha casa, use aquele perfume sem graça, coloque o tênis adidas que você teve que dividir em cinco vezes, vamos a pé e de mãos dadas até a sorveteria. Você paga dessa vez, com os poucos trocados tirados da sua carteira surrada e sem cartões de crédito.

O que vamos ganhar com isso? Não tenho a menor idéia. Talvez orgulho de cada um ser do jeito que é. O melhor de tudo vai ser comemorar cada descoberta livre de preconceitos e de roupas. Prometo deixar você me despir de tudo e me vestir apenas de você.
Ilustração: Claudio França

13.7.07

Tentativa

Ah, a eterna guerra dos sexos. Que tema bom, rende discussões e porradas. Esse assunto anda rondando minha mente que nem mosquito de madrugada. Terminei de ler o livro “Infiel – notas de uma antropóloga”, de Mirian Goldenberg. Adorei e recomendo. Foi docinho quem me emprestou. “Ou ele ajuda ou ele te desespera pra sempre”. Ajudou.

Vim pra Vitória com sete anos. Menininha cabeçuda, com um cabelo que minha mãe insistia em pentear e eu, para não ficar com carinha de Maria Bethânia, insistia em prender. Além de mim, existiam poucas meninas no prédio. A solução era brincar com os meninos. Joguei futebol e arranquei o tampão do dedo várias vezes chutando o chão. Por vezes era até cabeça de chave. Pulei muro e subi no telhado incontáveis vezes para pegar a bola. Jogava basquete com eles, tênis, falava bobagens e ouvia também. Chegava imunda em casa e corria pro Atari, onde também competia freqüentemente com os garotos. Cresci assim, sem frescura.
Até o dia em que, em uma festinha de criança, a aniversariante colocou o microfone na minha boca, para que eu, como todas as meninas da festa, acompanhasse a bela canção She-ra, da Xuxa. Eu era a única que não sabia a letra. Mandei uma embromation, fingi espirrar ou tossir e até que escapei bem da humilhação. Mas senti que seria desmascarada caso vacilasse novamente. Percebi nesse dia que, se quisesse conviver com as meninas, teria que gostar de Xuxa e Hello Kitty. Pelo menos para uma menina de 12 anos, foi assim que interpretei o mundo.
Os esforços foram válidos. Mas nunca cheguei a gostar de Hello Kitty. Acho engraçado só quando ela vem vestida de coisas como policial ou médico. Lembro do Villagge People. Descobri que ser menina é legal. Cortar o cabelo bonitinho, ser limpinha, exigente, multifuncional. Entendi que para ser feminina não precisava ser fresca. Mas sempre ouvia as reclamações femininas com certa desconfiança. Algumas queixas eram exageradas. Lembrava dos meninos e pensava “pra eles, essas reclamações não fazem o menor sentido”. E hoje, diante de tudo que vejo, ainda acho uma perda de tempo ficar acusando homem de toda nossa infelicidade.

No livro, entre tantas outras coisas, Mirian fala dos conflitos atuais entre os sexos. A mulher que mostrou que pode atuar em casa e no trabalho e o homem que se sentiu sem função por causa disso. A mulher que pede demais, o homem despreocupado. O paradoxo entre excesso de mulheres e excesso de exigência por parte delas. Tudo isso fez uma impressão que tenho faz tempo ganhar força: as mulheres esperam demais dos homens. E me incluo nisso, apesar de tentar controlar.
Dar a um homem o maior foco da nossa vida é uma burrice. Mesmo dizendo que somos modernas, acabamos caindo na grande armadilha de querer aparar arestas na relação – que muitas vezes só nós vemos -, e nos perdemos. Ficamos querendo adestrar, ensinar, mas eles não são assim. Funcionam numa freqüência diferente. E o melhor a fazer é encontrar um que opere numa sintonia próxima. Não venho aqui defender o desleixo deles, os esquecimentos e pequenos vacilos. Mas eles são diferentes. Claro que os homens não são todos iguais, mas vamos admitir que a raça apresenta um padrão de comportamento. Por iso, é melhor se preocupar mais com a novela do que com a toalha molhada em cima da cama.

Ninguém deve levar desaforos pra casa, admitir violência física ou moral. Fora uma mãozinha amarrada aqui ou acolá, com consentimento. Mas danem-se as pequenezas chatas do dia-a-dia. Ele saiu com aquela camisa furada no sovaco? Vou é rir. Ele insiste em lavar o cabelo com sabonete? Vou cantar ‘Olha a nega do cabelo duro’ pra ele. Só vou me irritar com coisas realmente importantes, com um desconto na TPM.
Esperar que a felicidade venha da plenitude de uma relação é fracasso na certa. Tenho trabalho, família, bichos de estimação, planos e mais planos. E amigas e amigos, cinema, idéias, livros. Os homens não podem suprir tudo que queremos, assim como nós não podemos dar conta de tudo que eles querem.
Não é questão de passar por cima de valores, mas de relaxar mais, de dar mais importância a outras coisas. Porque não adianta tentar convencê-los de que falar “esse bolo ficou meio doce” é uma ofensa monstruosa pra quem passou horas espalhando farinha pela cozinha. Pra eles é apenas um “ficou meio doce”. Não é um ficou ruim, tá uma merda ou você é péssima cozinheira. Mas se ele encher o saco demais, porque relevar é uma arte difícil, ok, aí sim mande ver se você tá na esquina.

Quem ama tem todo o direito de insistir em resolver os problemas da relação. Mas tente, tentemos todas, não fazer disso a principal tarefa da vida. Senão, vira uma bola de neve, uma briga atrás da outra. E de repente, nos tornamos as chatas da história. Minha opinião? Desvie o foco e relaxe. Ou então, largue de vez. O que não dá é viver reclamando.
ilustração em vidabesta.com

8.7.07

Acorda!


Desista, nunca vai ser desse jeito. Não é feito para ser assim. Ele não vai se interessar pelo modelo do seu vestido de casamento. Não importa se vai ser de renda com brilho aplicado ou de cetim com decote nas costas. Ele não vai nem se lembrar no outro dia.
Ele vai concordar com tudo que você escolher apenas para sair mais depressa da loja de móveis. Não se iluda, ele não tem bom gosto, aliás, ele nem sabe o que é isso. Esqueça, ele jamais saberá tomar uma decisão sozinho. Você que irá escolher o dentista, o restaurante, para onde vão nas próximas férias. Com o tempo, as poucas idéias que ele sabe dar ficarão ainda mais absurdas e improváveis.

Ele não vai à reunião de pais com você, vocês não irão juntos ao supermercado nem à feira de produtos orgânicos. O próximo apartamento é você quem vai ter que escolher. Não espere que ele troque a lâmpada queimada ou que conserte o vazamento do tanque. Provavelmente ele nem se lembra de que vocês têm um tanque. Sinto muito, querida, mas é assim que funciona. Agradeça se ele fizer sexo com você três vezes por semana. E se quiser continuar casada, não exija nada mais que isso. Ele trabalha e põe dinheiro em casa. E comprou o carro para você ir buscar sua mãe no aeroporto, levar a empregada até em casa quando ela perder o último ônibus. Então não peça mais nada, pare de reclamar da toalha em cima da cama, da roupa suja no chão do banheiro, da tampa da privada levantada, da luz acesa, da garrafa de água vazia, do lixo aberto, da cafeteira ligada, da porta destrancada, da chave pelo lado de fora.

Esqueça tudo que você ouviu sobre homens modernos que dividem a tarefa doméstica com suas mulheres. Eles representam durante algum tempo, mas voltam às origens mais rápido que você imagina. Todo processo de evolução é demorado. Portanto, aceite os fatos, não reclame, torça para a estagiária dele não ser gostosa, tenha disposição de sobra, sorria, seja cheirosa, cuide da pele e do cabelo, dos filhos, da casa, das contas e, de maneira alguma, deixe de ir para a academia.

Ou entre para o clube das separadas, amargas, sem esperança, desiludidas, mal amadas que não têm a menor idéia de como irão encontrar outro desgraçado para atormentar a vida dele com tantas frustrações.

3.7.07

Suma


Eu não quero saber. Não quero ouvir seus motivos, foda-se você e seus motivos. Quero sentir muita raiva que assim, quem sabe, paro de esperar que você entenda o que digo e sinto.

Não me interessa se o carro quebrou e isso te atrasou. Tô cagando se você comeu o último pedaço da minha torta de chocolate porque achou que eu tinha deixado pra você. Não quero saber da reunião que deixou você preso até tarde no trabalho. Sabe por quê? Por que eu acredito em tudo que você diz. Caio que nem pata. Viro criança diante de suas explicações e promessas.

Então, chegue tarde mesmo, arrume uma amante, se quiser engravide a pobre imbecil. Pode ir pra sua porra de futebol e voltar sujo, emendar com a cerveja, faça a merda que quiser. Não quero saber o que quer dizer essa nota fiscal de boate que caiu do seu bolso, não quero ver a fatura do seu cartão. Porque quanto mais sei sobre você, mais vejo que tô atolada num monte de sujeira, num poço sem fundo de mentiras. E quando mais me enfio nessa lama, mais quero provar pra mim que posso vencer, que podemos vencer. Que posso te conquistar de novo e voltar aos tempos em que íamos juntos ao cinema, ríamos dos vizinhos que vivem discutindo, tirávamos par ou ímpar pra ver quem atenderia ao telefone.

Cansei de viver nessa ilusão. Pare de se explicar. Agora quero me desiludir, quero parar de te amar e odiar, pra sentir apenas indiferença. Não me elogie, não me chame pra nada, esculache. Faça uma festa com strippers na sala onde te dei endoidecida pela primeira vez. Venda minha bicicleta, foda-se, faça qualquer coisa, não me importa. Só não quero mais olhar pra você e ter esperança.

Você fez eu me odiar por acreditar que as coisas poderiam mudar, por me transformar num nada, num merengue, numa coisa amorfa e passiva diante de seus argumentos furados. Mas o pior foi me convencer de que eu não seria nada sem você sem nunca ter dito isso, apenas me excluindo, mentindo, me colocando por baixo. Me fazendo correr atrás, quase implorando pela sua atenção.

Pois agora chega. Não tenho fôlego, forças, não quero mais tentar. Quero deixar de amar você agora, hoje, nesse exato segundo, antes que deixe de gostar de mim mesma.

ilustração do galvão: www.vidabesta.com

27.6.07

Minhocas

- Você tá pensando em quê?
- Ahn?
- No que você tá pensando, fazendo essa cara?
- ...
- Fala, Guto, o que tá passando pela sua cabeça?
- Porra, Aninha, não consigo falar e trepar ao mesmo tempo.
- Não falei? Você tá pensando em outra.
- Você ficou maluca?
- Então diz que me ama, faz uma cara bem sexy e fala meu nome.
- Amo, adoro você, gata. Chupa aqui meu dedinho, isso.
- Guto...
- Humm
- Sabe o que é? Eu preciso que você fale algumas coisas pra mim, pra eu ficar com mais tesão. Fala da minha bunda.
- Sua bunda é linda, Aninha.
- Como assim minha bunda é linda? É pequena, achatada, tem culote e tem umas espinhas aqui ó, passa a mão. Linda é a bunda da Paula. Todo mundo diz que parece um pêssego. Você já ficou com a Paula, Guto?
- Tô quase...
- Tá quase ficando com a Paula? Como assim, Guto?
- Não, Aninha, fica quietinha, fica, peraí que tô quase gozando.
- Ah, bem.
- Aninha, me chupa um pouquinho?
- Tá bom. Você vai pensar em que enquanto eu estiver chupando você?
- No que você quiser, chuchu.
- Pensa no meu peito?
- Claro, amor.
- Gutho, voxê tá penxando no meu peitho?
- Pára de falar e me chupa, Aninha. Daqui a pouco acaba o nosso tempo aqui.
- Então quer dizer que seu dinheiro é mais importante que eu? Você é muito egoísta, sabia? Você pensa que é fácil pra mim? Pensa que eu não sei com quantas você já ficou? Aposto que é no peito da Claudia que você tá pensando. Você sabia que é tudo silicone? Que a vaca colocou mais de 500 ml de silicone? É tudo de plástico.
- É? Ficou show.
- Guto!
- É, ficou artificial, também não gostei, não. Olha só pro seu, Aninha. É natural, faria o maior sucesso na década de 80. Sabia que as mulheres que tinham muito peito naquela época faziam cirurgia pra tirar tudo?
- Do que você mais gosta em mim?
- Gosto de tudo, gata. Deixa de conversa. Abre a boquinha, assim. Ai!
- Você pensa que me engana. Pensa que não olhei lá na sua página no orkut?
- Chega, Ana. Vão bora. Morder meu pau é sacanagem.
- Desculpa, amor. É que não consigo controlar.
- Acabou, Ana, não dá. Toda vez que a gente transa é isso. Você precisa ser mais segura, se tô com você é porque tô afim. Mas desse jeito eu cansei, não quero mais trepar com você enquanto essa maluquice sua não passar. Prefiro bater punheta em casa sozinho.
- Você vai pensar em mim?

20.6.07

Tentação

Era meu primeiro ensaio fotográfico. Nua. Estava empolgadíssima. O momento era bom. Estava fazendo um papel legal na novela das 19h, aparecia em algumas capas de revista. Eu jurava, eu sei, que nunca faria isso. Mas eram 500 mil. Dava pra comprar um carrinho, um apartamento de frente pro mar e ainda guardar um pouco pra investir no futuro, né?, que isso também é muito importante.

O dia do ensaio estava marcado. Fiquei tensa. Tive um daqueles sonhos estranhos, em que estava pelada no meio da rua. Com exceção de que eu realmente deveria estar pelada no meio da rua.

Cheguei ao estúdio e maquiadores me fizeram toda bonitona.
- Querida, sabe que seu ensaio vai ter o tema colegial, néam?
- Ahhh... é? Que criativo.
Não era lá uma idéia muito original. Mas eram 500 mil. Até de abacaxi eu me vestiria.

- Quer beber alguma coisa pra relaxar?
- Tem Valium?
- Não, mas tem champagne.
- Serve, serve.
Uma hora depois, estava pronta para as fotos. E completamente bêbada.
- Piérreee, gritou um assistente, ajeita aqui a maquiagem dela pra acertar o olho caidinho.
- Acerta também minha bunda, eu disse já caindo na gargalhada.
- Querida, coloque o roupão, vamos para o cenário.
- Que roupão? Quero sentir a natureza, a brisa, quero ficar nua.
- Mas aqui é um estúdio, tem nada disso aqui não, fiota.
Fui me equilibrando num salto de aproximadamente três andares até o cenário. O fotógrafo começou a dar orientações. E eu, embriagada, mandando ver na carinha de “vem cá que tô querendo”.
- Levanta o braço agora, que é pro peitinho ficar bem empinadinho... isso... levanta mais... mais... ah, desiste. Deita de lado agora.
- Mas aí minha celulite fica marcada.
- Pode deixar que o photoshop cuida, querida.
- Quem é photoshop? É aquele da maquiagem? Photoshooooop, vem cá disfarçar minha celulite.
E novamente caí na gargalhada. Deprimente. Mas eram 500 mil.

Do dia seguinte, me lembro apenas de flashes. Literalmente. Eu tentava não piscar quando o fotógrafo disparava aquelas luzes na minha cara. Fiquei ansiosa, aguardando o ensaio ser publicado. E os 500 mil, depositados.
Depois de adiarem meu ensaio por quatro meses, porque sempre tinha alguém mais famoso na frente, lá estava eu, na capa da revista com o título “Vou te dar uma lição”. Na tarde de autógrafos, comecei a me sentir estranha. Olhava para aquela fila de homens e imaginava todos chegando em casa, grudando as páginas da revista. Assinei tudo rapidinho, tentando disfarçar a vergonha, e fui embora. Não tinha pensado na vergonha. Só nos 500 mil.

Nas semanas seguintes, vivi um pesadelo diurno e diário. Os porteiros davam bom dia e eu jurava que queriam dizer “eu sei o que você tem aí embaixo, guxtosinha”. Não conseguia encarar meus colegas de trabalho, o lavador de carro, meu ortopedista. Tinha certeza de que quando olhavam pra mim, não viam roupas. Apenas pensavam “já te vi peladinha”. Imaginava eles me olhando igual o Dudu, aquele comilão do Popeye, olhava as pessoas quando estava com fome. Só que em vez de sanduíches no lugar da cabeça, estariam meu peitocos, minha amiga, minha bunda. Um corpo andando com uma perereca em cima do pescoço.

E quando fui à praia? Jurava que aquelas mulheres estavam falando:
- Era tudo Photoshop na revista! Olha essa bunda! É mais esburacada que a BR 101 Norte.

Fui ficando paranóica. Não conseguia sair mais do meu apartamento novo, com vista para uns 40 centímetros de mar. Comprei uma peruca para sair sem ser reconhecida. Tomava banho de roupa pra não me ver pelada. Sumi da mídia, não queria aparecer. Tive síndrome do pânico, TOC, desenvolvi doenças de pele. Decidi vender o apartamento para bancar tudo. Estava falida, quebrada. Fui então trabalhar no açougue de um tio meu. Até que um dia, alguém da produção do programa do Gugu foi lá e me reconheceu. Aí virei notícia no Gugu. Ganhei dois blocos inteiros. Mostrei meu drama e acabei sendo chamada pra uma novela. Virei estrela, venci o medo, os problemas, voltei ao auge. Paguei minhas dívidas, virei evangélica. Jurei que nunca mais posaria nua. Até que me ofereceram 700 mil. Acabei aceitando.

A revista tem vendido bem e eu até que estou encarando tudo melhor. Nas noites em que consigo dormir, nem tenho mais pesadelos com homens nus e selvagens correndo atrás de mim. Voltei pra psicóloga só por precaução, porque ontem mesmo larguei já o Valium. Outros convites até surgiram, até mais altos que o da revista. Mas não adianta. Filme pornô eu - não - fa-ço.
ilustração em www.vidabesta.com

13.6.07

Além da conta



Ela era over. Essa era a melhor forma de defini-la. A começar pelo nome, que era composto e sobrava naqueles espaços de ficha cadastral: Alexandra Roberta. O nariz, os olhos, a boca então, tudo enorme. Os peitos não cabiam em nenhum sutiã, a bunda sobrava nas cadeiras, incomodava quem sentava ao lado. Mas de repente resolvia emagrecer e virava um palito, um filé de borboleta, só sobravam os dentes que apareciam mais que tudo na arcada proeminente. Vivia nos extremos.

Gastava muito, com qualquer coisa, a toda hora. E assim enchia seu armário de bolsa pequena, bolsa listrada, bolsa de plástico, bolsa de couro de vaca, bolsa comprada na feira. E nem me peça para falar das bijuterias, são caixas e caixas cheia de compartimentos, gavetinhas e espaços ocupados por uma infinidade de quinquilharias douradas, prateadas, coloridas. As tintas do cabelo eram demais, sempre muitas, de várias cores, ninguém sabia como iria encontrá-la no dia seguinte.

Sua gargalhada era comprida e interminável. Assim como eram suas histórias. E também sua vontade de amar, que sufocava o pobre coitado que se aventurava a seguir seus passos quase desvairados. Quase porque era inteligente, e muito. Não se podia dizer que era feia. Há quem a ache bonita do jeito que é. Mas eu, com toda a minha simplicidade, não dava conta de agüentá-la. Me cansava rápido de tanta informação que ela transmitia em um curto espaço de tempo. Seus pensamentos eram sobrecarregados de vontades, quereres e por assim serem, de frustrações também. Queria sempre mais e por isso perdia as boas chances que apareciam na sua frente. Porque o que aparecia parecia pouco.

Não consegui ser sua amiga, fui até onde pude. Não sei dizer se era má pessoa, mas para mim não dava. Só não consegui descobrir se ela que era demais ou eu que sou de menos.

1.6.07

Dureza


Cansei. Ia começar a terceira série de exercícios pra deixar a bunda dura quando arranquei as caneleiras com pressa, como se fossem mosquitos me mordendo. Que diferença faria aquela série de seis repetições em minhas bandas e, mais ainda, em minha vida?

Queria estatísticas que provassem que pular uma série daquele exercício me condenaria à uma moleza irreversível na busanfa. Não acredito que cairia tanto por causa dessa pequena displicência. A não ser que me provassem o contrário. E como não tinha como provar nada, larguei. Poxa, quão duros mais ficariam meus modestos glúteos se eu fizesse aquele bodega de série que faltava? Nem sei que escala mede dureza de bunda, mas acho que deve ser algo como escala Ritcher. Quanto mais balançar, mais grave é a flacidez. A minha, por causa daquela rebeldia inusitada, não poderia cair nem um ponto, não, não acredito nisso. A moleza ia continuar igual, concorda? Sim, você concorda, eu quero que você concorde, porque não quero fazer essa porcaria de série.

Não é possível que coisas pequenas assim façam tanta diferença. Não quero acreditar nisso. Se bem que quando desliguei o telefone sem dar tchau pra minha prima, ela ficou puta por uma semana. Falo com ela todo dia, mas uma vez sem dar tchau, foi fatal. E aquele pedaço de pizza que comi, ah, não acredito que aquilo me fez engordar. Era daquela calabresa com óleo boiando nas lingüicinhas mais côncavas. Mas eu só como isso uma vez na vida e outra na morte, se é que existe vida nisso. Será que não consegui ficar com aquele menino, lá no segundo grau, porque deixei de cortar dois centímetros de franja e assim escondi a minha pinta sedutora, bem no meio da testa? Nãnnn, me recuso a acreditar. Ele não gostava de mim e pronto.

Putz, o que eu tô fazendo? Olha eu aqui, palhaçona, tentando me convencer de que pequenas coisas não fazem diferença só pra justificar minha preguiça em fazer a última série de exercício de bunda. Logo eu, que fico triste quando dou bom dia no elevador e ninguém responde. E as outras palavrinhas mágicas? Obrigada, por favor, com licença. Tão curtas, mas um abismo entre a paz de coração e a vontade de socar a cabeça de alguém. Um elogio, um presentinho bobo inesperado, um telefonema de ‘chegou bem?’. E a onda verde de sinais de trânsito, que espetáculo da modernidade. Você vai passando e tudo vai abrindo, tão bobo, tão organizado, tão incrível. E faz uma diferença. O que seria da vida sem essas coisas?

É. Não dá pra saber a diferença que as coisas fariam a não ser fazendo ou não. Ia ser legal se existisse uma realidade paralela, onde a gente pudesse dar uma espiada pra ver como teria sido a vida com pequenas escolhas diferentes. Mas eu ia ficar muito puta se visse minha bunda toda durona, empinadona e imponente. É, esquece a idéia da realidade paralela.

Saco. Pensei demais. Passa a caneleira aí que vou fazer essa merda de série que falta.
ilustração em www.vidabesta.com

23.5.07

Receita de vida

Adoro ler horóscopo. E adoro acreditar neles. Não esqueço de um que dizia que eu precisava deixar minha marca neste mundo, nem que fosse com uma receita. Acabei levando a história a sério e sem querer contrariar os astros, principalmente Plutão que já foi bem sacaneado, inventei duas receitas.

Como sou uma negação como mestre-cuca, as receitas são de sucos, supermega refrescantes e não me lembro de ter visto nenhum dos dois em nenhuma lanchonete. Mas nem vou procurar muito. Quero continuar acreditando no horóscopo.

Suco de Maranana – maracujá com banana
Muito, muito fácil

1 maracujá maduro
2 copos d’água bem geladinhos
1 banana-prata madura

Jogue tudo no liquidificador e bata por alguns segundos. Coe e sirva num copo bem bacana. Adoce se quiser.

Suco de Mação – maçã, limão, canela e gengibre
Esse é mais elaborado

1 pau de canela
2 copos d’água
1 maçã
1 limão
um pouquinho de gengibre

Ferva a água com o pau de canela e em seguida coloque-a para gelar. Depois de gelada, coloque a água, a maçã, o limão e o gengibre no liquidificador e bata bem. Lembre-se de tirar os caroços da maçã e descascar o limão. Coe e sirva com gelo.

Para quem é de Leão, o horóscopo do dia em que postei – 23/5:
Leão, tudo tão... Com sua exuberante força solar, muita gente pensa que está sempre tudo certo, tudo em cima. Mas os reis também têm seus downs e questionamentos, suas inseguranças e fantasmas. Olhe para você com calma, dê-se o tempo da reflexão. Você tem dúvidas, mas também tem respostas. (Já viu coisa mais profunda que isso?)

16.5.07

Tortura moderna


“Tenta sim. Vai ficar lindo.”
Foi assim que decidi, por livre e espontânea pressão de amigas, me render à depilação na virilha. Falaram que eu ia me sentir dez quilos mais leve. Mas acho que pentelho não pesa tanto assim. Disseram que meu namorado ia amar, que eu nunca mais ia querer outra coisa. Eu imaginava que ia doer, porque elas ao menos me avisaram que isso aconteceria. Mas não esperava que por trás disso, e bota por trás nisso, havia toda uma indústria pornô-ginecológica-estética.

- Oi, queria marcar depilação com a Penélope.
- Vai depilar o quê?
- Virilha.
- Normal ou cavada?
Parei aí. Eu lá sabia o que seria uma virilha cavada. Mas já que era pra fazer, quis fazer direito.
- Cavada mesmo.
- Amanhã, às... deixa eu ver...13h?
- Ok. Marcado.

Chegou o dia em que perderia dez quilos. Almocei coisas leves, porque sabia lá o que me esperava, coloquei roupas bonitas, assim, pra ficar chique. Escolhi uma calcinha apresentável. E lá fui. Assim que cheguei, Penélope estava esperando. Moça alta, forte, bonitona. Oba, vou ficar que nem ela, legal. Pediu que eu a seguisse até o local onde o ritual seria realizado. Saímos da sala de espera e logo entrei num longo corredor. De um lado a parede e do outro, várias cortinas brancas. Por trás delas ouvia gemidos, gritos, conversas. Uma mistura de Calígula com O Albergue. Já senti um frio na barriga ali mesmo, sem desabotoar nem um botão. Eis que chegamos ao nosso cantinho: uma maca, cercada de cortinas.
- Querida, pode deitar.

Tirei a calça e, timidamente, fiquei lá estirada de calcinha na maca. Mas a Penélope mal olhou pra mim. Virou de costas e ficou de frente pra uma mesinha. Ali estavam os aparelhos de tortura. Vi coisas estranhas. Uma panela, uma máquina de cortar cabelo, uma pinça. Meu Deus, era O Albergue mesmo. De repente ela vem com um barbante na mão. Fingi que era natural e sabia o que ela faria com aquilo, mas fiquei surpresa quando ela passou a cordinha pelas laterais da calcinha e a amarrou bem forte.
- Quer bem cavada?
- ...é... é, isso.

Penélope então deixou a calcinha tampando apenas uma fina faixa da Abigail, nome carinhoso de meu órgão, esqueci de apresentar antes.
- Os pêlos estão altos demais. Vou cortar um pouco senão vai doer mais ainda.
- Ah, sim, claro.
Claro nada, não entendia porra nenhuma do que ela fazia. Mas confiei. De repente, ela volta da mesinha de tortura com uma espátula melada de um líquido viscoso e quente (via pela fumaça).
- Pode abrir as pernas.
- Assim?
- Não, querida. Que nem borboleta, sabe? Dobra os joelhos e depois joga cada perna pra um lado.
- Arreganhada, né?
Ela riu. Que situação. E então, Pê passou a primeira camada de cera quente em minha virilha virgem. Gostoso, quentinho, agradável. Até a hora de puxar.


Foi rápido e fatal. Achei que toda a pele de meu corpo tivesse saído, que apenas minha ossada havia sobrado na maca. Não tive coragem de olhar. Achei que havia sangue jorrando até o teto. Até procurei minha bolsa com os olhos, já cogitando a possibilidade de ligar para o Samu. Tudo isso buscando me concentrar em minha expressão, para fingir que era tudo supernatural. Penélope perguntou se estava tudo bem quando me notou roxa. Eu havia esquecido de respirar. Tinha medo de que doesse mais.
- Tudo ótimo. E você?
Ela riu de novo como quem pensa “que garota estranha”. Mas deve ter aprendido a ser simpática para manter clientes.


O processo medieval continuou. A cada puxada eu tinha vontade de espancar Penélope. Lembrava de minhas amigas recomendando a depilação e imaginava que era tudo uma grande sacanagem, só pra me fazer sofrer. Todas recomendam a todos porque se cansam de sofrer sozinhas.
- Quer que tire dos lábios?
- Não, eu quero só virilha, bigode não.
- Não, querida, os lábios dela aqui ó.
Não, não, pára tudo. Depilar os tais grandes lábios ? Putz, que idéia. Mas topei. Quem está na maca tem que se fuder mesmo.
- Ah, arranca aí. Faz isso valer a pena, por favor.
Não bastasse minha condição, a depiladora do lado invade o cafofinho de Penélope e dá uma conferida na Abigail.
- Olha, tá ficando linda essa depilação.
- Menina, mas tá cheio de encravado aqui. Olha de perto.

Se tivesse sobrado algum pentelhinho, ele teria balançado com a respiração das duas. Estavam bem perto dali. Cerrei os olhos e pedi que fosse um pesadelo. “Me leva daqui, Deus, me teletransporta”. Só voltei à terra quando entre uns blábláblás ouvi a palavra pinça.
- Vou dar uma pinçada aqui porque ficaram um pelinhos, tá?
- Pode pinçar, tá tudo dormente mesmo, tô sentindo nada.
Estava enganada. Senti cada picadinha daquela pinça filha da mãe arrancar cabelinhos resistentes da pele já dolorida. E quis matá-la. Mas mal sabia que o motivo para isso ainda estava por vir.

- Vamos ficar de lado agora?
- Hein?
- Deitar de lado pra fazer a parte cavada.
Pior não podia ficar. Obedeci à Penélope. Deitei de ladinho e fiquei esperando novas ordens.
- Segura sua bunda aqui?
- Hein?
- Essa banda aqui de cima, puxa ela pra afastar da outra banda.
Tive vontade de chorar. Eu não podia ver o que Pê via. Mas ela estava de cara para ele, o olho que nada vê. Quantos haviam visto, à luz do dia, aquela cena? Nem minha ginecologista. Quis chorar, gritar, peidar na cara dela, como se pudesse envenená-la. Fiquei pensando nela acordando à noite com um pesadelo. O marido perguntaria:
- Tudo bem, Pê?
- Sim... sonhei de novo com o cu de uma cliente.

Mas de repente fui novamente trazida para a realidade. Senti o aconchego falso da cera quente besuntando meu tuin peaks. Não sabia se ficava com mais medo da puxada ou com vergonha da situação. Sei que ela deve ver mil cus por dia. Aliás, isso até alivia minha situação. Por que ela lembraria justamente do meu entre tantos? E aí me veio o pensamento: peraí, mas tem cabelo lá? Fui impedida de desfiar o questionamento. Pê puxou a cera. Achei que a bunda tivesse ido toda embora. Num puxão só, Pê arrancou qualquer coisa que tivesse ali. Com certeza não havia nem uma preguinha pra contar a história mais. Mordia o travesseiro e grunhia ao mesmo tempo. Sons guturais, xingamentos, preces, tudo junto.

- Vira agora do outro lado.
Porra.. por que não arrancou tudo de uma vez? Virei e segurei novamente a bandinha. E então, piora. A broaca da salinha do lado novamente abre a cortina.
- Penélope, empresta um chumaço de algodão?
Apenas uma lágrima solitária escorreu de meus olhos. Era dor demais, vergonha demais. Aquilo não fazia sentido. Estava me depilando pra quem? Ninguém ia ver o tobinha tão de perto daquele jeito. Só mesmo Penélope. E agora a vizinha inconveniente.

- Terminamos. Pode virar que vou passar maquininha.
- Máquina de quê?!
- Pra deixar ela com o pêlo baixinho, que nem campo de futebol.
- Dói?
- Dói nada.
- Tá, passa essa merda...
- Baixa a calcinha, por favor.
Foram dois segundos de choque extremo. Baixe a calcinha, como alguém fala isso sem antes pegar no peitinho? Mas o choque foi substituído por uma total redenção. Ela viu tudo, da perereca ao cu. O que seria baixar a calcinha? E essa parte não doeu mesmo, foi até bem agradável.
- Prontinha. Posso passar um talco?
- Pode, vai lá, deixa a bicha grisalha.
- Tá linda! Pode namorar muito agora.
Namorar...namorar... eu estava com sede de vingança. Admito que o resultado é bonito, lisinho, sedoso. Mas doía e incomodava demais. Queria matar minhas amigas. Queria viver e morrer peluda, protestar contra a ditadura da beleza. Queria fazer passeatas, criar uma lei antidepilação cavada. Queria comprar o domínio preserveasbucetaspeludas.com.br. Queria tudo.
Menos namorar.
(sim, este é o texto original)
ilustração do galvão: www.vidabesta.com
valeu pela sugestão, naths:)