24.7.08

Gosto de nada


Da última vez que nos vimos até agora faz apenas três dias e poucas horas. Mas pra mim parece uma eternidade. Talvez um pouco menos que isso. E não pense que é porque sinto sua falta, morro de saudades, preciso falar e sentir você de novo. Não é nada disso. É que não sei esperar e meu pensamento funciona muito mais rápido do que eu gostaria (não era eu que queria aprender a meditar?). Queria poder esperar um mês ou um ano pra dizer o que penso agora, mas não sei se consigo.


No meio do engarrafamento das dezoito e trinta pensei o quanto ficamos no raso. Conheci pessoas que namoraram, casaram e engravidaram nesse tempo, em apenas dois meses – um exagero. Longe de querer isso para mim e você, mas pelo menos achei que poderíamos ter nossa música, ter nosso lugar, ter nossas próprias piadas, ter nosso restaurante, ter nosso filme. E nesses três poucos dias, imaginei que não vai demorar muito para eu esquecer você. Um amigo falou: faltou intensidade. Concordei e pensei mais ainda: tava muito morno. E morno, só banho.


Ainda não consegui, nesses três poucos dias, entender o que aconteceu pra você, como me disse, desacelerar. Sei que são coisas que não se falam, por diversos motivos. No alto dos meus mais de trinta anos, aprendi que é melhor não perguntar. Quem pergunta o que quer ouve o que não quer. Melhor o mistério do que ouvir que você deixou de se interessar por mim, que viu defeitos, que se apaixonou por outra, que queria apenas uma distração e agora não quer mais. Minha

auto-estima não tem infra-estrutura para tais verdades.


Vou tentar esperar um mês para dizer tudo isso. Ou nem vou chegar a dizer porque daqui a trinta dias já vou ter esquecido tudo que disse respeito ao tempo em que ficamos juntos. Você vai passar sem nunca ter existido. Totalmente sem dor e sem amor. Totalmente sem graça. Fazia tempo, exatamente dezesseis anos, que não tinha um relacionamento tão insosso. E, por mais estranho que seja, provavelmente vou agradecer por ter sido assim.


Ilustração de Maurício Nunes: mauricionun.blogspot.com.

10.7.08

Nuances

Com ele aprendeu a ser desprezada. Tinha apenas 12 anos.

Era um pouco mais velho. Imaginava que por isso a ignorava. Moravam no mesmo prédio desde que nasceram, mas ele mal a olhava. As conversas não passavam de um mero oi. Quando pegavam elevador juntos, ele colava na porta e ficava ali, impaciente esperando o andar chegar. Descia no oitavo, sem olhar para trás. Ela fungava as axilas, para checar se havia algum cheirinho por ali. Nada. Espalmava as mãos na frente da boca e expirava, para testar o bafinho. Tudo em ordem.
Em casa era a caçula. Sempre mimada, paparicada. Mas o desprezo dele a fez amadurecer de uma forma involuntária. Chegou a chorar uma vez, quando deixou cadernos caírem no elevador e ele nem ao menos piscou. O que ela havia feito pra ser tão ignorada?

Aos 17 anos, aprendeu com ele a não levar desaforo pra casa.

Se tinha algo que ela não suportava mais desfeitas. Aquele homem, que aterrorizou parte de sua adolescência, agora teria que aprender na marra a ser educado. Quando esbarravam pelo corredor ou pela garagem, ela o olhava firme e dava bom dia. Ele soltava um bom dia atravessado pelo canto da boca, sem ao menos parar de caminhar. E a cada fuga dele, ela dizia uma gracinha. Vai tirar a mãe da forca? Tá parindo? Esqueceu alguma coisa no forno? E ele não dizia nada. Só ficava tímida quando os dois estavam sozinhos no elevador. Um dia, ela tentou travar uma conversa sobre o tempo e ele desceu dois andares antes. Ela não agüentou. Gritou enquanto gargalhava:

- Qual é o seu problema?!

Aos 22, ela mal o encontrava. Sua rotina era outra. Faculdade, espanhol, centro acadêmico. Suas preocupações também. Provas, festinhas, rapazes. Um dia, chegou em casa cansada e chamou o elevador. A porta se abre e lá está ele. O grosso do oitavo andar. Nem boa noite dava mais. Desistiu. Como de costume, ela entrava e se aconchegava em um canto, para que ele tivesse espaço para se aproximar da porta. E lá ele ficava, batendo os pés no chão, coçando a cabeça, o pescoço, olhando para baixo, para cima, para o visor que mostrava quanto tempo faltava para a tortura acabar.
No quinto andar, ela teve um estalo.
No sexto andar, arregalou os olhos assustada com o próprio pensamento.
No sétimo andar, não conseguia acreditar que, enfim, havia conseguido entender tudo.
E no oitavo andar, não teve dúvidas. Assim que a porta se abriu, ela o segurou pelo braço. Ele se virou assustado e não conseguiu evitar. Lá estava aquele par de bochechas tão vermelhas, que pareciam dizer ‘pare’, como em um semáforo.

E foi aí, aos 22 anos, que ela aprendeu que o amor não era nada simples de se entender.

ilustração de claudio frança.
leia também "Outras nuances", texto de nosso amigo Bruno Reis que mostra um outro ponto de vista dessa mesma história.


26.6.08

Vai se fuder, Arlindo

O estrago começou na faculdade, com todas aquelas discussões sem conclusão, com os calores das vozes e o som dos pulsos que se agitavam a cada descoberta ou discordância. O que antes não entendia passou a me ser necessário, diariamente. Mas só alguns professores eram mestres na arte de promover debates inflamados, o professor de fotografia que me deu novos olhares e o professor de criação, o Arlindo, que me ensinou como se vê um filme. O dever de casa foi com Ata-me, do Almodóvar. Cheguei na aula e ele veio direto: o que achou do filme? Respondi com aquela cara de estudante que não sabe o que vai fazer da vida: ah, legal, meio louco, mas gostei.

A expressão dele mudou e a sala percebeu que iria haver uma reviravolta naquele papo ainda sem merecimento de atenção. Arlindo começou a falar sobre Almodóvar, sobre todas as nuances da preciosa película, dos contrastes de cores, sobre o sagrado e o profano, o quente e o frio, o permitido e o proibido, o prazer e a dor, a violência e o afeto. E mais uma lista disso e daquilo, de antagonismos que eu jamais teria percebido sozinha.

Acho que provavelmente foi aí que deixei de ser uma pessoa leve e simples – fiquei burocrática. Graças ao Arlindo, que infelizmente nem vivo mais está para eu agradecer ou xingar, passei a ver filmes e ler livros com aquele jeito de gente papo-cabeça. E passei adorar uma conversa mais intensa, um bom drama, uma dor existencial. Coincidentemente, a aula do Arlindo era a última na quarta-feira e antes dela tinha o horário vago. Aproveitava para ir ao cinema pulguento da universidade e chegava na sala com Wim Wenders, David Lynch, Gus Van Sant rondando minha cabeça.

Hoje todos os buracos são mais embaixo. Tento ver um significado diferente num pão com manteiga. Virei uma chata. A ponto de me emocionar numa livraria, de selecionar as pessoas pelo que elas assistem, de amar mais o sofrimento que a alegria. Homens melancólicos? Adoro. Sofrimentos alheios? Manda. Como se os meus não bastassem. E se está tudo bem, começo a sentir vontade de estragar pelo simples prazer de ter que consertar logo em seguida. Sou capaz de trocar uma noite de sexo selvagem por uma conversa cheia de referências, questionamentos, dúvidas, lágrimas, risos, dores de cabeça e nenhuma conclusão. Mas seria muito difícil não terminar em sexo porque tudo isso me deixa tão animada quanto um bom amasso.

Dias atrás, recusei o convite para ir ao cinema ver um filme desses bobinhos, que o bonequinho do Globo dorme enquanto assiste. Também não estava interessada no cara, mesmo ele sendo forte, bonito e atencioso. Mas se ele tivesse me chamado para ver um filme francês, iraniano, checo ou qualquer coisa parecida, iria pensar duas vezes. Porque certamente, depois do filme, iríamos falar sobre as impressões que tivemos, sobre o que sentimos, sobre o que lembramos e tudo o mais que adoro. Daí pra me apaixonar é um pulo. Só que infelizmente não se acha um exemplar assim todos os dias. É, Arlindo, sua bicha velha, você me fudeu.


Ilustração de Maurício Nunes: http://mauricionun.blogspot.com

17.6.08

Entendendo


Ele só queria entender.
Eu pensava que era mania de mulher essa coisa de querer entender. Puro machismo.
Ele estava lá, completamente perdido, tentando entender as atitudes dela. Na verdade, tentando decifrar por que as atitudes divergiam tanto das palavras.

Os encontros tinham um roteirinho fixo. Durante o cappuccino, a gente celebrava a vida de solteiro, falava das últimas aquisições sexuais, do porre que certamente seria o último, dos planos de passar um tempo fora. Quando chegavam as quiches, lorraine pra mim e quatro queijos pra ele, era hora de reclamar do tempo que passa cada vez mais rápido, do trabalho estressante, do amigo que sumiu. Enfim, na sobremesa, o assunto era ela.

Sempre escutei com paciência. Sabia como era passar por aquilo e achava quase encantador um homem sentir o mesmo. Ele nunca sabia como agir quando encontrava a pulga, apelidinho carinhoso e apropriadíssimo que arrumei pra ela. Ficava sem jeito com as mãos, falava umas merdas sem sentido. Mas no fim, os meios pouco importavam. Terminavam a noite furando algum lençol de motel com os cigarros que ela insistia em fumar até cochilar. O sexo era foda, apesar desse trocadilho. Tinham conversas para semanas. E as declarações eram mútuas. Você é foda. Quero te ver de novo. Como não te encontrei antes?

- Já te disse que ligo no dia seguinte? Sempre. Mas ela não atende.
- Nunca?
- Uma vez sim. Mas parecia que nada tinha acontecido. Vou ao banheiro, peraí.

Sentada lá, fazendo bolinhas de guardanapo, lembrei de outro dia, quando esbarrei num filme enquanto trocava de canais. A cena era clássica. Um cara seduzindo uma moça com as palavras e gestos mais mecânicos possíveis. Era o típico discurso em que ela diria “aposto que você fala isso para todas”. Ele diria que não. Ela saberia que estava mentindo, mas queria tanto dar pra ele que fingiria acreditar em tudo, pra poder manter a pose de moça inocente e usada. Assim, quando ele sumisse da face da terra e quebrasse aquelas promessas que pareciam tão sinceras e puras, ela diria “eu sabia que terminaria assim. aquele canalha.” E a grande verdade era essa. Ela sabia que terminaria assim. Mas também queria sexo, tanto quanto ele. Não estava apaixonada, mas como dar sem estar apaixonada? Como admitir que havia trepado porque o corpo pedia? Não poderia. Fica feio pra uma menina.

De repente, a mulher má que fazia meu amigo sofrer com seus esquivos virou minha heroína. Ela não estava interessada naquela conversinha patética pré-foda. Queria mesmo era fuder e pronto. Não precisava se fazer de vítima, de coitada, de abusada ou de apaixonada. Só que ele não sabia lidar com aquilo. E aí, virava o estereótipo manjado da mulher boba e usada. Com a diferença de ser um homem.

- Tô pensando que em vez de entender ela, é melhor entender você mesmo. Por que fica confuso assim com isso tudo? Por que essa mulher toma todo nosso tempo da torta de chocolate? Você nem é apaixonado por ela nem nada.
- Não sou, mas quero entender.
- O quê? Por que ela não quer nada além de ir pro motel? Nem você quer. Ou quer? Você quer passar as tardes de domingo com ela? Quer ter um cachorro com ela, conhecer a África do Sul com ela, ver o show do radiohead com ela, agüentar a tpm dela? Quer nada. Você quer o mesmo que ela. Sé-qui-ço.
- Você quer dizer que eu não consigo admitir que uma mulher só queira trepar comigo? Que tô me sentindo usado?
- Isso mesmo.
- Tô agindo igual mulherzinha?
- É. Mulherzinha style.
- É né...
- Sim. Você é a mulherzinha Indiana Jones da relação.
- Que porra é essa?
- A que fica tentando decifrar tudo.
- Tá engraçadinha hoje, hein? Acho que tem açúcar demais nessa sua torta
- Mulherzinha, mulherzinha.
- Se eu sou mulherzinha, a pulga é o quê? O homem?
- Não. É o mulherão.
- Odeio quando você detona comigo. Ainda mais na hora da torta. Era pra ser um momento doce. Sua azeda.
- Também te adoro, seu besta. Agora come essa calda e pára de rir, porque você tá ridículo com esse monte de calda de chocolate grudada no dente.
- Agora lembrei por que a gente só fala de coisa triste na hora da sobremesa.

ilustração de galvão.

3.6.08

O sonho

- Sonhou com o que essa noite?

Perguntava-me a mesma coisa todas as manhãs. Mas, na verdade, tinha mais interesse em que eu devolvesse a pergunta – pelo menos era o que eu pensava. Geralmente era assim que se dava nossa comunicação, com voltas, com indiretas, com desvios totalmente desnecessários. E as voltas eram tantas que quando começávamos a nos entender o cansaço ocupava mais espaço que a vontade que querer ficar bem de novo. Seria muito mais fácil me dizer: - preciso contar meu sonho para você. A chave, para mim, está na palavra ‘preciso’. Só que não conseguia perceber tais sutilezas e ele não percebia que tudo podia ser bem mais fácil e objetivo.

- Não lembro do meu sonho...

Eu respondia e ia fazer outras coisas. Escovava os dentes, arrumava o quarto, esquecia de devolver a pergunta. A essa hora, me preocupava apenas com coisas práticas, com o dinheiro trocado para o pão e o jornal, com a empregada que ainda não havia chegado. Quando me lembrava dele, encontrava-o deitado ainda na cama, tomando coragem para levantar. Era assim que nos separávamos um pouco todos os dias.

- Que foi?

O tom da voz. O jeito de perguntar. As duas coisas e mais um monte. Viver junto é isso, ter interpretações erradas acerca das coisas mais banais. Era ótima aluna em Português, mas geralmente me dava mal com interpretação de texto. Entendia tudo do meu jeito. E hoje em dia não é muito diferente. Continuo em recuperação.

- Que foi o quê?

- Por que tá com essa cara?

- Nada, vou tomar banho.

O que poderia ter ficado ali dentro do quarto ia com a gente para a mesa do café da manhã, nos acompanhava até o trabalho e resolvia voltar à cena em forma de bueiro entupido. Aliás, sonhei com isso dia desses.

- Sonhei que a cidade toda tava com todos os bueiros entupidos. Uma sensação muito estranha, senti medo, não conseguia fugir daquela água fétida e cinza.

- Ah, é?...Vai ao supermercado hoje? Se for, me traz um prestobarba?

Ilustração de Maurício Nunes: mauricionun.blogspot.com

26.5.08

Um dia

“Vou te ligar hoje, umas 9 da noite. Por favor, atenda. Beijo”

Tremeu quando viu o nome dele em seu e-mail. Na verdade, não foi bem o nome, mas o assunto.

“Preciso falar”.

Tudo havia sido complicado demais, dramático demais, barulhento demais, inexplicável demais. As conversas eram intensas, as coincidências eram absurdas, o sexo espetacular. Mas havia uma pecinha quebrada em algum lugar. Como um carro velho. Sentiam os ruídos, mas não achavam o problema. Sabiam que estavam chegando ao limite, que logo não haveria mais conserto. Insistiram, empurraram e tentaram além do que deveriam. Perderam o respeito e a paciência até se tornarem irreconhecíveis. O processo foi lento e tardio, o que só prolongou o sofrimento e criou mais mágoas do que era necessário.

Dois anos depois, o e-mail na caixa de entrada trouxe à tona tudo que ela jurava ter superado. Reviveu as sensações dos anos finais de casamento. O medo suspenso no ar, sabendo que brigariam a qualquer momento. O receio de falar qualquer coisa e ser mal interpretada. A impressão de que estava enlouquecendo porque era incapaz de enxergar o que ele dizia.

De todos os sentimentos que brotaram do e-mail, o mais forte foi a raiva. Ele sempre seria o calo? Aquele que se abre de repente, quando a sandália bate naquele exato ponto? Aquele dente que sempre sangra quando o fio dental passa por ele? A unha encravada? Aquilo que sempre está prestes a ferir?

Às 9 em ponto toca o telefone. Ela esperou alguns toques, fez ‘rum-rum’ e juntou forças para que a voz não falhasse.

- Alô.
- Oi. Sou eu. Tudo bem?
- Tá sim. Você?
- Também.
- ....................................
- ....................................
-... então. O que você precisa falar?
- Desculpa. É isso. Desculpa.

Era isso. A peça que faltava. O que fazia o dente sangrar, o calo arrebentar. Sentiu uma descompressão no peito, o ar entrando com mais força em seus pulmões. Quanto tempo ela sonhou com isso? Ele aberto, calmo, sóbrio e sem medo de sentir-se rebaixado por admitir que errou. Sem berros, explicações, acusações.

Esperou tanto por isso que nem sabia mais a razão. Na época, queria que ele voltasse com o orgulho atravessado na garganta, admitindo nunca ter se esforçado o suficiente, dizendo que ela merecia mais. Mas agora, via que não havia nada a ser feito. E se consolou sabendo que assim como ela, ele ainda tentava sair debaixo dos destroços daquele casamento.

- Desculpa também.

O telefonema seguiu sem que trocassem uma só palavra. E nunca se entenderam tão bem quanto nesses 34 minutos.


Ilustração: www.vidabesta.com

13.5.08

Tóxico


Hoje vai dar tudo errado e nem pense em me dizer que não. Não me contrarie porque preciso estar certa, é importante para mim, você não percebe? Não tá vendo o chuveiro que queimou agora, às 7 da manhã? Já comecei a ter razão. Nos dez minutos que tenho para não pensar em nada, apenas executar a seqüência de me molhar, fechar a água, passar xampu e sabonete, abrir a água, fechar novamente e me enxugar começando de baixo pra cima, nem isso pude fazer direito. Assim é com a gente. Tudo começou errado e não tem mais como dar certo. Eu realmente quero um amor perfeito, durável, autolimpante, sustentável e renovável. Não sei se suportaria por muito tempo a falta de angústia, de desconfiança, de pulgas atrás da orelha, de brigas inúteis por nada, de mal humor matinal. Mas queria ao menos experimentar a sensação de não sofrer por você nem por um segundo.

Todos os dias preciso fazer um esforço fora do comum para não ser tomada pelos pensamentos que são comuns a você. Me contaminei com eles. Adquiri o seu temor injustificado do amanhã. Passei a ver as pessoas com que convivo com olhos vesgos e míopes, não enxergo mais tão bem. Tenho crises agudas de depressão sem motivo aparente, só porque você também as tem. Não sei mais como me livrar de você. Mesmo não te vendo, não te tocando, não trocando nenhuma palavra com você, tudo que é seu ainda me faz mal. Me revira o estômago, me tira o sono, me dá tosse, me fecha a garganta.

Não sei como fazer para me desintoxicar de você de uma vez por todas. Dizem que o tempo é o remédio para o mal que não tem cura. Mas enquanto o tempo não chega, como faço para suportar as horas em que beiro o desespero? Passar por toda essa desintoxicação está sendo insuportável. Viramos vício. E, sinceramente, prefiro morrer do que ter uma recaída.


Ilustração de Maurício Nunes: http://mauricionun.blogspot.com

6.5.08

Amor eterno

Nunca houve dúvida. Quando lhe perguntavam quem era a mulher da sua vida, a resposta saía de sua boca quase antes que a pronunciasse, tamanha a certeza:
- Tereza.
Em
certo momento, os amigos ajudavam na resposta e diziam em coro 'Tereza'. Nenhuma era como ela. Os olhos dele brilhavam apenas em pronunciar seu nome. A paixão que Tomás sentia alimentava os sem amor de esperança. Via em Tereza tudo que considerava indispensável em uma mulher. Era exatamente o que faria se fosse Deus criando a versão feminina dos humanos. Cada fio ondulado de cabelo, a ponta do nariz, com uma pequena covinha, os olhos ligeiramente amendoados, os lábios discretos. O corpo de Tereza era um jardim, onde ele faria piqueniques por dias a fio. Acamparia, dormiria e se esconderia entre arbustos.

E o jeito de Tereza, ah, o jeitinho dela. A forma como ela desviava o olhar quando recebia um elogio. O jeito comportado de sentar, com as pernas sempre juntinhas, os joelhos bem encostados, e uma coluna retinha, exemplar para qualquer ortopedista. Quando Tereza passava pela roleta do ônibus, ele quase derretia. Apesar dos livros, da sombrinha, da bolsa, do troco solto nas mãos e do movimento do ônibus, ela dançava com a roleta. Seu corpo se deixava levar pelo balanço e ela mantinha o equilíbrio de forma admirável, sem dar um passo em falso, sem derrubar nem mesmo uma moedinha. O hálito de Tereza era o mesmo, desde criança. E quando conversavam, ele sentia-se confortável, como se sente qualquer um com cheiro do lençol de casa. Seria capaz
de morrer
feliz se morresse durante um beijo com Tereza.

Todo sábado à tarde, Tereza encontrava as amigas pontualmente às 17h. Entre atualizações da vida alheia, citavam os últimos acontecimentos de suas próprias vidas. Em determinado momento, todas olhavam para Tereza e sorriam. Ela já sabia o que isso significava. Dizia apenas:
- Querem saber
de Tomás, não é?
E todas apoiavam seus
queixos sobre as mãos, sob risco dos mesmos se espatifarem no chão. Tereza virava o centro das atenções ao descrever todo o amor pelo rapaz. Desde pequenos, dizia ela, os dois sentiam uma afinidade uterina, que parecia anteceder o nascimento. Perto dele, Tereza perdia o rumo. Não sabia bem para onde olhar, onde colocar as mãos ou esconder o suor que as fazia escorregadias.

Admirava Tomás pela forma como tratava as mulheres. Não sentia ciúmes, muito pelo contrário. Apenas a fazia ter mais segurança de que seu futuro com ele seria de respeito e carinho. Adorava quando Tomás estava preocupado. Não por gostar de vê-lo sofrer. Mas porque quando o consolava, dizendo que tudo ficaria bem, ele reagia sempre da mesma forma. Projetava o lábio inferior para fora, fazendo um biquinho de um lábio só. Em seguida dava um longo suspiro, olhava para ela e dizia: vai nada. E os dois morriam de rir juntos. O corpo de Tomás era a casa
que
ela pagaria uma vida inteira para morar. O ombros largos, os braços naturalmente fortes e até aquela barriguinha que teimava em permanecer ali serviriam como abrigo para todos os dias.

A paixão durou a vida inteira, mesmo quando ambos se casaram. Tereza com Alex, Tomás com Joana. Mas não houve um dia sequer em que os dois não imaginavam o que teria sido de suas
vidas
se tivessem superado o medo e declarado o amor de um pelo outro.


ilustração de Everson Cabideli.

29.4.08

A última cena

Ele, ali caído no chão, depois de passar por 13 andares. Eu não vi, me disseram e fico imaginando. O prédio inteiro acordado às 5 da manhã, polícia, ambulância, pessoas na janela sem entender. Ele não estava na rua, havia caído na área comum do prédio.

Recebi a notícia às 10 da manhã, estava no trabalho. O telefone tocou, me chamaram e ouvi meu pai com a voz tomada pela dor, pelo desespero e pela confusão. Ele gritava para eu ir imediatamente para casa, mas não dizia por que motivo teria que fazer isso. Até que interrompeu com a frase lacerante: seu irmão está morto.

O tempo do fato até hoje soma 136 meses. Meu irmão se chamava Marcelo, estava a um mês de completar 21 anos. Desde o dia 29 de novembro de 1996, não fico mais de um dia sem pensar nele e no modo como ele morreu. Remonto muitas cenas, mas nenhuma delas me convence. Mas agora não tenho mais nada para acreditar, a não ser na certeza de que alguma coisa está errada.

Marcelo estava no segundo ano de Farmácia, na faculdade federal de Juiz de Fora-MG. Há poucos dias resolvi rever suas fotos que ficam guardadas na casa da minha mãe. As seqüências de álbuns dão um filme de aventura de sessão da tarde, com títulos como curtindo a vida adoidado. Marcelo mergulhando, Marcelo no Pico da Neblina, Marcelo em um churrasco, Marcelo com a namorada, Marcelo na faculdade. Pode ser pretensão dizer que ele de maneira nenhuma tinha tendências suicidas, não conhecemos bem nem a nós mesmos. Mas conhecia meu irmão e sabia que tudo que ele fazia era planejado e organizado. Acredito que se a intenção dele era morrer, ele deixaria uma carta, não compraria ingressos para um show no próximo fim de semana, não teria marcado de passar o Natal comigo.

Mas vou deixar minhas impressões de lado e apenas relatar o fato com base nos depoimentos dos quatro amigos que estavam com ele.

Cena 1: todos estão no apartamento da minha mãe, 13º andar. Marcelo e mais quatro amigos iriam ver um jogo de futebol pela TV. Todos entre 18 e 20 anos. Todos bebiam e eram amigos de faculdade.

Cena 2: todos bem e por volta da meia-noite meu irmão começa a passar mal. Dão um banho nele, colocam ele para dormir. Disseram que ele ficava perto da janela como se quisesse se jogar. Todos resolvem dormir na casa da minha mãe para ficar com ele. Porém um deles acorda e vê que meu irmão se jogou pela janela da cozinha.

A última cena é a do meu irmão, caído no fosso do prédio. E agora só existem as perguntas: por que não levaram ele para um hospital? Por que não houve investigação e não fizeram necrópsia? Por que tendo mais quatro pessoas, o atestado de óbito ficou definido como suicídio? Por que todos que eram amigos dele sumiram?

Engraçado que só me vem à cabeça a série Cold Case e a incansável Lilly Rush, que revira tudo para solucionar casos já há tempos arquivados. Por mais que doa, por mais que eu chore todas às vezes que o assunto vem à tona, ainda prefiro confiar no meu instinto que me diz: aí tem coisa. Depois de quase doze anos, continuo me fazendo as mesmas perguntas. E decidi que a partir de agora, mais do que nunca, as respostas vão fazer parte da minha obsessão.

22.4.08

À tarde

Ele apareceu sem avisar, no meio da tarde, fedendo a cerveja. Não bastasse, o calor que fazia provocava nele odores típicos da espécie. Bafo de cerveja misturado com lingüiça e tudo isso envolto num conjunto barato de camiseta regata, bermuda de tactel e chinelo de dedo. Esqueceu todo o protocolo que vinha seguindo, de parecer mais educado, mais elegante, mais inteligente para impressioná-la. Cagou para tudo isso e a única coisa que tinha em mente naquela hora era comê-la com a mesma vontade de devorou o último pedaço de picanha. Pensava no seu perfume, na pele macia com cheiro de hidratante caro, na sua cama fofa e em todo o resto e rumava em direção a sua casa com a euforia típica de quem começava a sentir os efeitos do excesso de álcool. Tocou o interfone:

- Tô subindo.
- Oi, quem é? É você, João?
- Abre pra mim!

Ela não teve tempo nem de arrumar o cabelo. Ele chegou, tascou-lhe um beijo de língua meio apressado, encoxou-a e em poucos minutos já estava em cima dela.

- Que isso, João?! Onde você tava? Você bebeu, meu bem?

Ele tava ocupado demais pra responder. Chegou chegando e não largou ela mais. Virou ela prum lado, pro outro, falou todas as coisas no seu ouvido que nunca teve coragem de dizer e se acabou ali, no meio de suas pernas, com todo o apetite do mundo. Terminou, se vestiu, deu um beijo em sua testa e deixou ela ali, jogada na cama, ainda sem entender quem era aquele outro João que nunca tinha visto. Mas pela cara dela, tinha gostado. Ficou o resto da tarde ali, relembrando o cheiro dele de suor, o bafo de cerveja, os puxões no cabelo, as mordidas e pensou por que diabos ele ainda não tinha comido ela daquele jeito. Prometeu nunca mais reclamar quando ele tivesse que ir a outro churrasco.

12.4.08

Grisalho

- Você precisa arrumar um grisalho.

Já tinha na ponta da língua uma solução para a filha. Toda reclamação feita em relação ao namorado era prontamente devolvida com a história do grisalho. Mas a menina não dava ouvidos. Resmungava diante da resposta materna e dava as costas falando coisas incompreensíveis.
O filme era o mesmo. Todo dia, voltava do escritório com cara de enterro. A mãe a procurava e ela desabafava as mesmas palavras. Não importava a situação, algumas frases eram de praxe. "Ele é um egoísta", "é um grosso", "não me ama como eu o amo".
A mãe se sentava e escutava tudo pacientemente. Quando era enfim consultada, sempre respondia
- Você precisa arrumar um grisalho.
O conselho nunca ajudava em nada a moça, completamente apaixonada pelo seu castanho.

Um dia bate à porta o novo síndico do prédio. Senhor simpático, educado. Queria dizer aos moradores que estava à disposição para qualquer problema. Foi recebido com café fresquinho e biscoitos caseiros pela mãe. A conversa tranqüila foi interrompida pela porta batendo com força.
A senhora pediu licença ao síndico e foi ao encontro da filha, já jogada na cama, chorando tanto que o corpo inteiro balançava.
- Minha filha, o senhor síndico está aqui. Tente se controlar.
- O que é isso perto da minha desgraça, mamãe? Rubens tem outra.
- Graças a deus, disse a mãe baixinho, com o rosto virado para o céu, agradecendo pela dádiva.
- Te trago um chá em instantes. Direi ao senhor que você não está bem e pedirei pra voltar depois.
- Mamãe, gritou ela quando a mãe já saía do quarto.
- Sim?
- Ele é grisalho?
- Um pouco mais, filha, um pouco mais que isso.
- Então quero conhecê-lo.

Correu ao banheiro e limpou as lágrimas sujas de lápis preto para os olhos, prendeu os cabelos em um coque alto e passou pó para esconder o nariz vermelho.
Entrou pela sala como uma noiva entra na igreja. Cheia de si, decidida a mudar a vida completamente. Foi simpática, educada e sedutora de uma forma tão discreta e graciosa que era quase obscena. Não agüentava mais cometer os mesmos erros. Ia ouvir sua mãe. Arrumaria um grisalho. E se havia um em sua sala, seria ele.
O senhor síndico, em sua viuvez precoce, não resistiu. Café fresco, biscoitos caseiros e uma moça tão rara era tudo que ele precisava.

Em um ano, ela já morava um andar abaixo da mãe. Era a primeira dama do condomínio. A vida corria bem e tranquilamente. Suas vontades eram sempre atendidas. Ele, vez ou outra, ainda fazia certas recusas, para manter o charme. Ela percebia e achava uma graça enorme. Em vez de lágrimas, ela voltava do escritório feliz, disposta a ir ao cinema, jantar fora ou fazer novas receitas de biscoitos com a mãe.

Um dia, a mãe ouve a porta se abrindo repentinamente e passos pesados invadindo o corredor. A filha rumou para o quarto e, depois de anos, chorou com o corpo todo novamente. Não conseguia falar nada. Mantinha o punho cerrado, como se fosse socar alguém. As veias das mãos saltavam.
- O que é, querida?
- Aconteceu mamãe, aconteceu.
A mãe já aflita pensou em tudo. Gravidez, morte, traição, demissão. Mas quando a filha se virou, viu entre lágrimas um certo sorriso. Um choro emocionado.
- Fale logo que eu não tenho mais idade pra esses sustos, minha filha.
- Esperei tanto, mamãe, tanto. Olhe.
Ela abriu as mãos e aparentemente não havia nada ali. A mãe se aproximou para tentar enxergar melhor.
- Olhe bem, olhe de perto.
A mãe se aproximou e viu ali, único e solitário, um frio branco pousado na palma da mão.
- O Rubens, mamãe, o Rubens está ficando grisalho. Está pronto pra mim agora, mamãe.
Não havia palavra que coubesse naquele momento, tamanha a surpresa da mãe diante da filha.
O choro então virou apenas uma grande risada alta e descontrolada.

ilustração em www.vidabesta.com

31.3.08

Atalho

Todo dia ela atravessava a rua esperando que um carro a atropelasse. Não tinha uma queda por dor, hospitais, sangue, nada disso. Apenas sonhava com o príncipe encantando.

Como ela não tinha paciência para esperar que a vida a apresentasse ao sujeito, resolveu providenciar o encontro sozinha. O plano era simples. Todo dia, em sua bicicleta, atravessaria aquela ruazinha sem olhar para os lados. Não era uma rua de muito fluxo, afinal ela não era suicida. Queria que o carro certo a atropelasse. E desse mesmo carro, descesse então o homem que a resgataria e salvaria sua vida.

Com sorte ele seria médico e ali mesmo, tomaria as medidas de primeiros socorros. Constataria que ela havia sofrido algumas escoriações, nada grave, colocaria a bicicleta dela em seu porta-malas, a carregaria no colo até o banco de trás e a levaria para o hospital. Acompanharia todos os exames, seguraria sua mão quando sentisse dor, diria que tudo ia ficar bem.

Era o plano certo para encontrar o homem perfeito. Todos os testes de uma só vez. Não acreditava que seria abandonada depois de viverem toda essa forte experiência juntos. Ele perceberia os sinais e não a largaria jamais. E se ninguém a ajudasse? Se o corpo ficasse lá estirado, abandonado?, perguntavam os amigos mais sadios.
- Se não há alguém assim pra mim, então não vale a pena viver mesmo. - respondia ela.

Da mesma forma, um rapaz percorria o caminho inverso a ela, diariamente. E sempre se assustava quando ela passava direto pela rua. Um dia, sem que ela soubesse, passou a acelerar as pedaladas para chegar na ruazinha antes. Se algum carro viesse, ele se enfiava na frente e pedia pra parar. Segundos depois, a via passando tranqüilamente. Não sabia se era louca, sonsa, burra. Mas durante meses a salvou de algumas poucas possibilidades de acidente.

Ela era louca, mas não sonsa. Quando percebeu o que ele fazia, a primeira reação foi de revolta. Quem era aquele cara para interferir no destino dela? Ficou possessa imaginando que o homem da sua vida já havia passado por ali mil vezes, sem ir de encontro a sua Poti. Pensou em brigar com o menino, tirar satisfações. Mas a idéia de ter alguém se arriscando tanto por ela a fascinou. Alguém que se dispunha a enfrentar a pancada de um capô para poupar sua vida.

Na manhã seguinte, ela seguiu lentamente em direção à ruazinha, como de costume. Então, avistou o rapaz vindo na direção oposta. Não teve dúvida. Acelerou as pedaladas. Queria ver até onde ele iria. Ele, que tinha uma visão mais ampla da rua, notou um carro se aproximando e acelerou ainda mais. A batida foi inevitável.

O carro o acertou em cheio. Ela ouviu a freada seguida de uma pancada seca e desacelerou o ritmo. Sentiu pena, raiva, medo. Seu sonho havia sido roubado por alguém que parecia querer ajudá-la. Ele era uma pedra no caminho? Ou o verdadeiro herói? Se aproximou lentamente e o viu no chão. Das manchas brancas nos joelhos e cotovelos começou a brotar sangue. O punho direito estava ao contrário e um dos pés estava preso à roda de um jeito incomum. Apesar de zonzo, ele estava consciente. Ela se imaginou ali, no lugar dele, estatelada no asfalto quente, com sua Poti retorcida caída mais à frente.

Enquanto permanecia imóvel, observando a cena, o motorista do carro correu em socorro à vítima. Desesperado, sem saber ao certo como encostar no rapaz sem machucá-lo, perguntou a ela:
- É seu amigo?
- Sim, é.
Os três entraram no carro em direção ao hospital. O motorista estava apavorado. O atropelado, feliz por enfim ter conseguido atenção e reconhecimento dela. Ela, por ter pegado um atalho para chegar ao seu príncipe sem nem um arranhão.

11.3.08

Black

Se jogou na cama e fechou os olhos. Era o jeito mais fácil de se isolar do mundo naquele momento. Esticou o braço e alcançou o controle do som às cegas. Já esperava o primeiro acorde do cd do Morphine. Ia chorar muito. Precisava colocar aquele nó pra fora. Mas algo saiu errado. Aquele acorde não era Morphine. Demorou a reconhecer, apesar de tão familiar. Black álbum. Metallica. Era isso. Há quanto tempo não escutava? Imaginou se foi sua colega de apartamento quem colocou o cd lá, porque ela mesma nem lembrava que ele existia.

Pensou em levantar e mudar de música. Afinal, queria chorar. Sentia um cansaço grande e estava disposta a se entregar completamente. Não bastassem aqueles dias intermináveis de chuva, infiltração no banheiro, falta de grana e cabelo totalmente sem corte, tinha ele pra piorar. Por que tinha que ser tudo tão difícil? Mas ali naquela cama, ela não queria pensar nele. Preferia chorar sem motivo aparente, mas pensar nele não. Quando ela chorava, as coisas melhoravam um pouco por dois, três dias.

Mas aí começa Sad but True e ela se desconcentra. O passado rouba a cena e enxuga a lágrima que já ia caindo. A imagem chega a ser engraçada. Ela, com sua camiseta preta, cabelos vermelhos batendo na cintura, unhas pretas, enlouquecendo com o Black Álbum. E mesmo depois de anos sem escutar o disco, ela riu ao perceber que ainda sabia a letra.

Pensou em interromper tudo só pra ligar ele e dizer “você não sabe o que eu tô escutando.” Só freou o movimento porque já sabia o que ele ia dizer. Estaria ocupado trabalhando ou simplesmente fazendo algo mais importante. Tudo era mais importante.

The Unforgiven começou e ela nada de chorar. Lembrou do clipe que amava, dos amigos da adolescência. Planejavam montar uma chapa pro grêmio do colégio, ajudar crianças pobres, abrir uma loja de vinis raros. Dinheiro pra quê? Poderiam viver felizes com o básico, fazendo o que amavam. Ninguém sabia o que era ser adulto ainda.

Sentiu saudade da coragem que tinha, da disposição em fazer diferente. Tinha 16 anos e uma infinidade de anos mais pela frente. Mas por que diabos tinha que achar que agora, aos 32, não havia tempo para mais nada? Que pânico era esse que a congelava e fazia aceitar tanta merda?

Quando Nothing Else Matters já estava na metade ela decidiu que não desapontaria aquela menina de 16 anos. Senão fosse por ela, ali, no presente, seria pelo que ela já imaginou que faria de sua vida. Cansou de agir como adulta, responsável. De se contentar com menos, com panelas ruins que deixam a comida grudar no fundo, com gente mal educada. Ia fazer uma faxina.

Antes que o CD terminasse e levasse o impulso embora, pulou da cama e correu para o telefone. Ligou rápido para ele antes que desistisse. Ele atendeu já advertindo que estava sem tempo.

- É rápido.

- Diga.

- Vai tomar no cu.

E desligou. A atitude, aparentemente imatura, nunca soou tão adulta. Prometeu pra si mesma que não tiraria o CD antes de repetir a dose com seu chefe, com o vizinho de cima e com a caixa grossa da padaria. Não ia mais chorar sozinha pelos problemas dos outros. Três meses depois, guardou o CD, antes que ficasse conhecida como uma louca desbocada. Agora ia entrar em uma nova fase. Não deixaria que nada mais chegasse a ponto de ter que mandar alguém tomar no cu. Mas deixou o CD ali, bem a vista. Nunca se sabe, pensou.

28.2.08

Da cor do pecado

Depois que ele passou correndo, pensou que agora só restavam 299 em Esparta. Era lindo, monumental é a palavra certa. As costas largas, a barriga com divisões exatas, a cabeça redonda, lisa e lustrosa, e tudo aquilo brilhando ao sol, suando, respirando compassadamente, em harmonia com as pernas que eram quase do tamanho dela. Sentiu um arrepio na espinha e suas partes íntimas se contraíram imediatamente. Suspirou e desejou mais do que tudo ser comida por ele, um deus de ébano. Pensou na sua avó, italiana, católica, conservadora e agradeceu por ela já não fazer mais parte deste mundo. Pena sentia pelo rocambole com doce de leite que nunca mais teve coragem de comer. Vovó era danada na cozinha.

Olhou pra trás e seguiu aquela tora que ia se afastando dela, fazendo contraste com a areia branca. Isso dava uma cena de filme. Todo o preconceito que a avó gostaria que ela herdasse e usasse com crioulos e negrinhas – era assim que sua vozinha se referia aos escurinhos, só serviu para alimentar nela uma curiosidade que crescia na medida que se distanciava dos laços familiares. Imaginou entrando no casamento da prima ao lado do seu afro-brasileiro e ouvindo o burburinho das tias que a essa altura não escondiam mais a cara de espanto e reprovação. Achou graça e riu enquanto mirava o traseiro do negro. Como são bem feitos, as carnes são duras, a boca é generosa, os dentes são alvos, a voz é melodiosa. O pau. Precisava ver como era. Nunca tinha visto, nem em revistas, em lugar nenhum. O último namorado tinha um cor de rosa, bonitinho, quase um brinquedo. Que reação teria ao ver um piru preto, grande e grosso? Teria coragem de colocá-lo na boca? Isso é, se coubesse na sua boca. A loja de chocolates vendia um desses que ainda vinham com marsmallow dentro. Você morde a ponta e aquele creme branquinho e espesso começa a sair do chocolate.

Será que deu pra perceber a forma como olhei pra ele? Por mais que ela tentasse alcançá-lo, sabia que não teria fôlego para correr tanto. Correndo atrás de um negão, quem diria. Tinha certeza de que se fosse loira ele teria olhado pra ela com mais entusiasmo. Não era feia, mas tinha aquele jeito impregnado de classe média que despreza tudo que sai do padrão. Odiava padrões, odiava a avó nesse momento. Velha mal amada. Lembrou-se que quando era criança via os desfiles das escolas de samba e admirava as mulheres que rebolavam e esfregavam suas bundas empindadas na frente da câmera da Globo. Pobre cinegrafista, deveria sonhar com aqueles rabos balançantes o ano todo. Parou de correr, as pernas não obedeciam mais. Ele agora era um ponto preto que iria desaparecer na curva a frente. Respirou fundo, arrumou os cabelos e seguiu firme para a loja de chocolates.

13.2.08

Quem quer Docinho levanta a mão


Você é muito melhor na arte da surpresa do que eu. Já provou diversas vezes sua capacidade pra isso. E o mais incrível, você não se mostra decepcionada por eu não conseguir chegar a seus pés quando o assunto é esse. Esse é um dos motivos que tenho para amar você do jeito que amo. Com você não sinto ciúmes, não me sinto traída, esquecida, deixada de lado, diminuída, enganada ou qualquer coisa que relacionamentos costumam provocar quando começam a descambar pro lado negro.

Pelo contrário. Docinho, ter você do meu lado é uma grande felicidade. E posso comprovar isso todos os dias, nas mais diferentes situações. Aprendo um tanto com você, que acho que você nunca vai ter idéia. Você é linda, engraçada, carinhosa, inteligente. E você sabe disso e sabe se aproveitar de um jeito muito tranqüilo e leve. É a tal desenvoltura que você tem como ninguém. É a pessoa perfeita para organizar festas com verba reduzida. E com muita verba também. Sabe criar piadas infames que me fazem chorar de rir. É imbatível quando se trata de dedicação para dar presentes. Escolhe com tanto cuidado que fico com vergonha de ter dado tanto trabalho. De você ganhei declarações mais do que verdadeiras de muito amor. E que devem ter custado muito, já que tempo é dinheiro.

Fico muito feliz de saber que foi com você que fiz minha primeira viagem internacional, mesmo sendo aqui pertinho. Fico orgulhosa de ver tudo que você faz para se tornar uma pessoa melhor (mesmo sabendo que não há necessidade). Acho lindo como você dá atenção a tanta gente, como não desmerece ninguém, como se importa com todo mundo que você gosta. Só não gosto quando você sofre e fica triste. Fico com muita raiva. Ver você chorar corta o coração. E a faca é cega, provavelmente. Porque dói um tanto assim.

Meu maior medo é decepcionar você. Não suportaria isso nunca. Por isso tentei fazer essa surpresinha, mesmo sendo um plágio descarado do que você fez pra mim. Acho que você me viu escrevendo e teve o cuidado de não perguntar. Amo você, Val. E esse texto tá lésbico até o fim, mas que se dane. Porque você sabe do que eu gosto. E se um dia eu mudar de idéia sei que você vai me apoiar também. Bem, deixa pra lá. Viva a Docinho. Feliz aniversário pra você.
Ilustração: Claudio França

8.2.08

Pressa


Descobri que posso inventar tudo novo, sem repetir com você o que já vivi. Penso em você e me vêm idéias malucas na cabeça e coloco os pés juntos para jurar que nunca fiz isso com outro alguém. Estou espantada com a capacidade de renovação que eu nem sabia que tinha. Tem um nome bobinho pra isso, que não gosto, mas que dizem que é inspiração. Inspiração me lembra algo muito brega, sempre imagino um pintor sentado num parque, numa paisagem francesa, pintando um quadro sem graça, piegas.

Mas estou muito feliz e isso, claro, me assusta um pouco. Porque sou afobada, ansiosa, minha vó dizia isso enquanto eu comia a massa do bolo antes de ele entrar no forno. E depois ficava ali de guarda, olhando o bolo crescer. Como aquilo demorava. Acabei de lembrar de outro episódio que mostra o quanto sou ansiosa. Ganhei uma galinha de presente quando fui passar férias no sítio da minha tia. A galinha estava chocando uns ovos e, segundo minha tia, os pintinhos iriam nascer em pouco tempo. Mas quem disse que eu deixava a pobre galinha chocar os ovos? Toda hora ia lá perto para ver e tirava ela do ninho. Tá, eu era criança e crianças são meio abestalhadas de vez em quando.

A verdade é que não sei mais me comportar no modo de espera. Quero tudo pra agora e já. Me vêm à cabeça todas os ditados, metáforas e provérbios próprios para o momento. Devagar se vai ao longe. O apressado come cru (mas eu adoro sushi). Quem espera sempre alcança. Vou respirar fundo e tentar conter meus milhões de impulsos para não sair atropelando o tempo. Sei que isso assusta e espanta. Mas só entenda que é uma vontade de viver muito e que há tempos eu não sentia. É como a fome. A sede. Quando estão grandes, você só pensa na saciedade.

Se puder entender isso, fico mais tranqüila. Aí poderei voltar a ser quem realmente sou. Nem tão normal, nem tão maluca. Mas o suficiente para deixar que tudo aconteça no tempo certo. Seja lá o que isso quer dizer.
Ilustração do Galvão: www.vidabesta.com