13.6.07

Além da conta



Ela era over. Essa era a melhor forma de defini-la. A começar pelo nome, que era composto e sobrava naqueles espaços de ficha cadastral: Alexandra Roberta. O nariz, os olhos, a boca então, tudo enorme. Os peitos não cabiam em nenhum sutiã, a bunda sobrava nas cadeiras, incomodava quem sentava ao lado. Mas de repente resolvia emagrecer e virava um palito, um filé de borboleta, só sobravam os dentes que apareciam mais que tudo na arcada proeminente. Vivia nos extremos.

Gastava muito, com qualquer coisa, a toda hora. E assim enchia seu armário de bolsa pequena, bolsa listrada, bolsa de plástico, bolsa de couro de vaca, bolsa comprada na feira. E nem me peça para falar das bijuterias, são caixas e caixas cheia de compartimentos, gavetinhas e espaços ocupados por uma infinidade de quinquilharias douradas, prateadas, coloridas. As tintas do cabelo eram demais, sempre muitas, de várias cores, ninguém sabia como iria encontrá-la no dia seguinte.

Sua gargalhada era comprida e interminável. Assim como eram suas histórias. E também sua vontade de amar, que sufocava o pobre coitado que se aventurava a seguir seus passos quase desvairados. Quase porque era inteligente, e muito. Não se podia dizer que era feia. Há quem a ache bonita do jeito que é. Mas eu, com toda a minha simplicidade, não dava conta de agüentá-la. Me cansava rápido de tanta informação que ela transmitia em um curto espaço de tempo. Seus pensamentos eram sobrecarregados de vontades, quereres e por assim serem, de frustrações também. Queria sempre mais e por isso perdia as boas chances que apareciam na sua frente. Porque o que aparecia parecia pouco.

Não consegui ser sua amiga, fui até onde pude. Não sei dizer se era má pessoa, mas para mim não dava. Só não consegui descobrir se ela que era demais ou eu que sou de menos.

1.6.07

Dureza


Cansei. Ia começar a terceira série de exercícios pra deixar a bunda dura quando arranquei as caneleiras com pressa, como se fossem mosquitos me mordendo. Que diferença faria aquela série de seis repetições em minhas bandas e, mais ainda, em minha vida?

Queria estatísticas que provassem que pular uma série daquele exercício me condenaria à uma moleza irreversível na busanfa. Não acredito que cairia tanto por causa dessa pequena displicência. A não ser que me provassem o contrário. E como não tinha como provar nada, larguei. Poxa, quão duros mais ficariam meus modestos glúteos se eu fizesse aquele bodega de série que faltava? Nem sei que escala mede dureza de bunda, mas acho que deve ser algo como escala Ritcher. Quanto mais balançar, mais grave é a flacidez. A minha, por causa daquela rebeldia inusitada, não poderia cair nem um ponto, não, não acredito nisso. A moleza ia continuar igual, concorda? Sim, você concorda, eu quero que você concorde, porque não quero fazer essa porcaria de série.

Não é possível que coisas pequenas assim façam tanta diferença. Não quero acreditar nisso. Se bem que quando desliguei o telefone sem dar tchau pra minha prima, ela ficou puta por uma semana. Falo com ela todo dia, mas uma vez sem dar tchau, foi fatal. E aquele pedaço de pizza que comi, ah, não acredito que aquilo me fez engordar. Era daquela calabresa com óleo boiando nas lingüicinhas mais côncavas. Mas eu só como isso uma vez na vida e outra na morte, se é que existe vida nisso. Será que não consegui ficar com aquele menino, lá no segundo grau, porque deixei de cortar dois centímetros de franja e assim escondi a minha pinta sedutora, bem no meio da testa? Nãnnn, me recuso a acreditar. Ele não gostava de mim e pronto.

Putz, o que eu tô fazendo? Olha eu aqui, palhaçona, tentando me convencer de que pequenas coisas não fazem diferença só pra justificar minha preguiça em fazer a última série de exercício de bunda. Logo eu, que fico triste quando dou bom dia no elevador e ninguém responde. E as outras palavrinhas mágicas? Obrigada, por favor, com licença. Tão curtas, mas um abismo entre a paz de coração e a vontade de socar a cabeça de alguém. Um elogio, um presentinho bobo inesperado, um telefonema de ‘chegou bem?’. E a onda verde de sinais de trânsito, que espetáculo da modernidade. Você vai passando e tudo vai abrindo, tão bobo, tão organizado, tão incrível. E faz uma diferença. O que seria da vida sem essas coisas?

É. Não dá pra saber a diferença que as coisas fariam a não ser fazendo ou não. Ia ser legal se existisse uma realidade paralela, onde a gente pudesse dar uma espiada pra ver como teria sido a vida com pequenas escolhas diferentes. Mas eu ia ficar muito puta se visse minha bunda toda durona, empinadona e imponente. É, esquece a idéia da realidade paralela.

Saco. Pensei demais. Passa a caneleira aí que vou fazer essa merda de série que falta.
ilustração em www.vidabesta.com

23.5.07

Receita de vida

Adoro ler horóscopo. E adoro acreditar neles. Não esqueço de um que dizia que eu precisava deixar minha marca neste mundo, nem que fosse com uma receita. Acabei levando a história a sério e sem querer contrariar os astros, principalmente Plutão que já foi bem sacaneado, inventei duas receitas.

Como sou uma negação como mestre-cuca, as receitas são de sucos, supermega refrescantes e não me lembro de ter visto nenhum dos dois em nenhuma lanchonete. Mas nem vou procurar muito. Quero continuar acreditando no horóscopo.

Suco de Maranana – maracujá com banana
Muito, muito fácil

1 maracujá maduro
2 copos d’água bem geladinhos
1 banana-prata madura

Jogue tudo no liquidificador e bata por alguns segundos. Coe e sirva num copo bem bacana. Adoce se quiser.

Suco de Mação – maçã, limão, canela e gengibre
Esse é mais elaborado

1 pau de canela
2 copos d’água
1 maçã
1 limão
um pouquinho de gengibre

Ferva a água com o pau de canela e em seguida coloque-a para gelar. Depois de gelada, coloque a água, a maçã, o limão e o gengibre no liquidificador e bata bem. Lembre-se de tirar os caroços da maçã e descascar o limão. Coe e sirva com gelo.

Para quem é de Leão, o horóscopo do dia em que postei – 23/5:
Leão, tudo tão... Com sua exuberante força solar, muita gente pensa que está sempre tudo certo, tudo em cima. Mas os reis também têm seus downs e questionamentos, suas inseguranças e fantasmas. Olhe para você com calma, dê-se o tempo da reflexão. Você tem dúvidas, mas também tem respostas. (Já viu coisa mais profunda que isso?)

16.5.07

Tortura moderna


“Tenta sim. Vai ficar lindo.”
Foi assim que decidi, por livre e espontânea pressão de amigas, me render à depilação na virilha. Falaram que eu ia me sentir dez quilos mais leve. Mas acho que pentelho não pesa tanto assim. Disseram que meu namorado ia amar, que eu nunca mais ia querer outra coisa. Eu imaginava que ia doer, porque elas ao menos me avisaram que isso aconteceria. Mas não esperava que por trás disso, e bota por trás nisso, havia toda uma indústria pornô-ginecológica-estética.

- Oi, queria marcar depilação com a Penélope.
- Vai depilar o quê?
- Virilha.
- Normal ou cavada?
Parei aí. Eu lá sabia o que seria uma virilha cavada. Mas já que era pra fazer, quis fazer direito.
- Cavada mesmo.
- Amanhã, às... deixa eu ver...13h?
- Ok. Marcado.

Chegou o dia em que perderia dez quilos. Almocei coisas leves, porque sabia lá o que me esperava, coloquei roupas bonitas, assim, pra ficar chique. Escolhi uma calcinha apresentável. E lá fui. Assim que cheguei, Penélope estava esperando. Moça alta, forte, bonitona. Oba, vou ficar que nem ela, legal. Pediu que eu a seguisse até o local onde o ritual seria realizado. Saímos da sala de espera e logo entrei num longo corredor. De um lado a parede e do outro, várias cortinas brancas. Por trás delas ouvia gemidos, gritos, conversas. Uma mistura de Calígula com O Albergue. Já senti um frio na barriga ali mesmo, sem desabotoar nem um botão. Eis que chegamos ao nosso cantinho: uma maca, cercada de cortinas.
- Querida, pode deitar.

Tirei a calça e, timidamente, fiquei lá estirada de calcinha na maca. Mas a Penélope mal olhou pra mim. Virou de costas e ficou de frente pra uma mesinha. Ali estavam os aparelhos de tortura. Vi coisas estranhas. Uma panela, uma máquina de cortar cabelo, uma pinça. Meu Deus, era O Albergue mesmo. De repente ela vem com um barbante na mão. Fingi que era natural e sabia o que ela faria com aquilo, mas fiquei surpresa quando ela passou a cordinha pelas laterais da calcinha e a amarrou bem forte.
- Quer bem cavada?
- ...é... é, isso.

Penélope então deixou a calcinha tampando apenas uma fina faixa da Abigail, nome carinhoso de meu órgão, esqueci de apresentar antes.
- Os pêlos estão altos demais. Vou cortar um pouco senão vai doer mais ainda.
- Ah, sim, claro.
Claro nada, não entendia porra nenhuma do que ela fazia. Mas confiei. De repente, ela volta da mesinha de tortura com uma espátula melada de um líquido viscoso e quente (via pela fumaça).
- Pode abrir as pernas.
- Assim?
- Não, querida. Que nem borboleta, sabe? Dobra os joelhos e depois joga cada perna pra um lado.
- Arreganhada, né?
Ela riu. Que situação. E então, Pê passou a primeira camada de cera quente em minha virilha virgem. Gostoso, quentinho, agradável. Até a hora de puxar.


Foi rápido e fatal. Achei que toda a pele de meu corpo tivesse saído, que apenas minha ossada havia sobrado na maca. Não tive coragem de olhar. Achei que havia sangue jorrando até o teto. Até procurei minha bolsa com os olhos, já cogitando a possibilidade de ligar para o Samu. Tudo isso buscando me concentrar em minha expressão, para fingir que era tudo supernatural. Penélope perguntou se estava tudo bem quando me notou roxa. Eu havia esquecido de respirar. Tinha medo de que doesse mais.
- Tudo ótimo. E você?
Ela riu de novo como quem pensa “que garota estranha”. Mas deve ter aprendido a ser simpática para manter clientes.


O processo medieval continuou. A cada puxada eu tinha vontade de espancar Penélope. Lembrava de minhas amigas recomendando a depilação e imaginava que era tudo uma grande sacanagem, só pra me fazer sofrer. Todas recomendam a todos porque se cansam de sofrer sozinhas.
- Quer que tire dos lábios?
- Não, eu quero só virilha, bigode não.
- Não, querida, os lábios dela aqui ó.
Não, não, pára tudo. Depilar os tais grandes lábios ? Putz, que idéia. Mas topei. Quem está na maca tem que se fuder mesmo.
- Ah, arranca aí. Faz isso valer a pena, por favor.
Não bastasse minha condição, a depiladora do lado invade o cafofinho de Penélope e dá uma conferida na Abigail.
- Olha, tá ficando linda essa depilação.
- Menina, mas tá cheio de encravado aqui. Olha de perto.

Se tivesse sobrado algum pentelhinho, ele teria balançado com a respiração das duas. Estavam bem perto dali. Cerrei os olhos e pedi que fosse um pesadelo. “Me leva daqui, Deus, me teletransporta”. Só voltei à terra quando entre uns blábláblás ouvi a palavra pinça.
- Vou dar uma pinçada aqui porque ficaram um pelinhos, tá?
- Pode pinçar, tá tudo dormente mesmo, tô sentindo nada.
Estava enganada. Senti cada picadinha daquela pinça filha da mãe arrancar cabelinhos resistentes da pele já dolorida. E quis matá-la. Mas mal sabia que o motivo para isso ainda estava por vir.

- Vamos ficar de lado agora?
- Hein?
- Deitar de lado pra fazer a parte cavada.
Pior não podia ficar. Obedeci à Penélope. Deitei de ladinho e fiquei esperando novas ordens.
- Segura sua bunda aqui?
- Hein?
- Essa banda aqui de cima, puxa ela pra afastar da outra banda.
Tive vontade de chorar. Eu não podia ver o que Pê via. Mas ela estava de cara para ele, o olho que nada vê. Quantos haviam visto, à luz do dia, aquela cena? Nem minha ginecologista. Quis chorar, gritar, peidar na cara dela, como se pudesse envenená-la. Fiquei pensando nela acordando à noite com um pesadelo. O marido perguntaria:
- Tudo bem, Pê?
- Sim... sonhei de novo com o cu de uma cliente.

Mas de repente fui novamente trazida para a realidade. Senti o aconchego falso da cera quente besuntando meu tuin peaks. Não sabia se ficava com mais medo da puxada ou com vergonha da situação. Sei que ela deve ver mil cus por dia. Aliás, isso até alivia minha situação. Por que ela lembraria justamente do meu entre tantos? E aí me veio o pensamento: peraí, mas tem cabelo lá? Fui impedida de desfiar o questionamento. Pê puxou a cera. Achei que a bunda tivesse ido toda embora. Num puxão só, Pê arrancou qualquer coisa que tivesse ali. Com certeza não havia nem uma preguinha pra contar a história mais. Mordia o travesseiro e grunhia ao mesmo tempo. Sons guturais, xingamentos, preces, tudo junto.

- Vira agora do outro lado.
Porra.. por que não arrancou tudo de uma vez? Virei e segurei novamente a bandinha. E então, piora. A broaca da salinha do lado novamente abre a cortina.
- Penélope, empresta um chumaço de algodão?
Apenas uma lágrima solitária escorreu de meus olhos. Era dor demais, vergonha demais. Aquilo não fazia sentido. Estava me depilando pra quem? Ninguém ia ver o tobinha tão de perto daquele jeito. Só mesmo Penélope. E agora a vizinha inconveniente.

- Terminamos. Pode virar que vou passar maquininha.
- Máquina de quê?!
- Pra deixar ela com o pêlo baixinho, que nem campo de futebol.
- Dói?
- Dói nada.
- Tá, passa essa merda...
- Baixa a calcinha, por favor.
Foram dois segundos de choque extremo. Baixe a calcinha, como alguém fala isso sem antes pegar no peitinho? Mas o choque foi substituído por uma total redenção. Ela viu tudo, da perereca ao cu. O que seria baixar a calcinha? E essa parte não doeu mesmo, foi até bem agradável.
- Prontinha. Posso passar um talco?
- Pode, vai lá, deixa a bicha grisalha.
- Tá linda! Pode namorar muito agora.
Namorar...namorar... eu estava com sede de vingança. Admito que o resultado é bonito, lisinho, sedoso. Mas doía e incomodava demais. Queria matar minhas amigas. Queria viver e morrer peluda, protestar contra a ditadura da beleza. Queria fazer passeatas, criar uma lei antidepilação cavada. Queria comprar o domínio preserveasbucetaspeludas.com.br. Queria tudo.
Menos namorar.
(sim, este é o texto original)
ilustração do galvão: www.vidabesta.com
valeu pela sugestão, naths:)

10.5.07

Pequenas sortes



Acontece assim, com certa freqüência ou quando menos espero. É Natal e preciso ir ao shopping porque minha mãe insiste em comprar as últimas lembrancinhas. Antes de começar a pensar que vou ter que rodar horas por uma vaga no estacionamento um carro sai bem na minha frente e para completar a vaga é ao lado da entrada. Dou um sorriso meio de lado e agradeço o cosmos que conspira a favor.

Outra que me deixou com uma das sobrancelhas levantadas. Um solzinho quente, eu com pressa de ir buscar o carro que estava sendo lavado no posto a três quarteirões da minha casa. No momento em que boto o pé na rua e me preparo para ir andando o mais rápido possível, vejo uma amiga parada no sinal. Ganhei a carona até o posto e ganhei o tempo de que precisava. Mais um ponto para o cosmos.

No aeroporto foi igual. Um diz que nossa conexão já tinha ido embora, outro diz que se a gente corresse ainda dava para pegar. Certo quem disse que o vôo da conexão já tinha ido embora e junto, nossas bagagens. Lá se foi aquele avião que iria levar a gente para dormir em casa. Onde esta a sorte? Você vai ver. Quase me conformei de ficar sem trocar de roupa, de calcinha e sem passar desodorante para esperar outro vôo no dia seguinte. Mas lembrei de perguntar para o moço daquela companhia aérea que dá barrinhas de cereal:
- não teria nenhum vôo saindo agora?
- ah, tem sim, tem um daquela companhia que distribui balinhas gostosas, sanduíche quentinho e falta só 40 minutos para ele sair. Vou colocar o nome de vocês na lista de espera.

Depois de esperar só um pouquinho lá estávamos nós no avião. E logo, logo em casa, com nossas bagagens intactas. Muita sorte depois de ouvir as mais bizarras histórias sobre malas perdidas e pessoas que dormem nos aeroportos.

Passei a colecionar esses momentos num compartimento da minha memória, e uso sempre que preciso lembrar que, de um jeito ou de outro, as coisas acabam dando certo (sim, eu li aquele livro da Polyanna). Mesmo que seja uma carona, uma vaga ou um vôo na hora em que mais preciso.

3.5.07

As chaves



Quais as chances de isso acontecer?
Foi esse pensamento, seguido de um sorriso irônico, que me veio assim que o chaveiro rolou até o bueiro. Aquilo parecia tão milimetricamente planejado que não fui capaz de acreditar em azar. A probabilidade das chaves se prenderem à grade, impedindo a queda do chaveiro era maior que a probabilidade deles caírem. Duas chaves, o alarme do carro e mais um chaveiro consideravelmente grande seriam o suficiente para evitar aquela situação. Mas em vez disso, tudo que era sólido pareceu se tornar líquido e deslizou bueiro abaixo como em um balé.
Tanta foi a surpresa, e tão inesperada minha reação otimista, que o desespero da situação me tomou somente naqueles segundos entre a queda e a busca pelo objeto perdido. Mas assim que o localizei buraco adentro e percebi que não havia nada viscoso e grudento ali, me tranqüilizei. Fiquei pensando que algum propósito existia nisso tudo e esperei os fatos que a queda da chave provocaria se desencadearem.

Olhei em volta e vi um grupo de homens conversando em torno de um capô aberto. Pensei em ir lá pedir ajuda. Não. Acho que esse não era o objetivo da queda das chaves. Conhecer aqueles homens. Preferi atravessar a rua e entrar em uma oficina. Rapidamente um rapaz não muito bem-humorado, mas ainda assim atencioso, providenciou um pedaço de arame e resgatou as chaves. Ainda tentei brincar. “Parece pescaria, aquela brincadeira de criança”. Ele não riu. Eu fiquei quieta. Agradeci e disse que ele salvou meu dia. É. Conhecer esse homem também não justificaria a divina queda da chave no bueiro.

De repente, quem sabe, o atraso que a queda da chave causou não me salvaria de ser atropelada ali na esquina? Ou me faria pegar elevador lotado? Ou ainda, de repente, o incidente da chave era o único fato ruim de meu dia. Era o resumo de tudo que poderia acontecer de chato. Poderia ver metáforas ali. “Será que estou me sabotando, jogando a chave para novas portas fora?”. Ou de repente, nada mudaria. E até agora, uma hora depois, realmente nada estranho me ocorreu. Além desse pensamento sobre sorte e azar, destino, coincidência, sinais, o tal efeito borboleta.

Aí lembro de ontem, quando fui ao cinema e, ao sair, percebi que havia perdido o cartão do estacionamento. Voltei ao local onde o carro estava e procurei por ele no chão. Imagine que lá estava ele, dentro do carro, atirado no tapete o tempo todo. Olhei para minhas amigas e disse “não é possível que voltamos aqui à toa”. Era perfeitamente possível, mas não queria acreditar. E enquanto resgatava o cartão no tapete, vi no céu um bando de pássaros voando em formação V. Era noite e só o branco deles se destacava, refletindo o pouco de luz que existia por ali. Coincidência, sorte, azar, efeito borboleta, poderia ser tudo isso. Ou apenas nada disso. Coisas acontecem. Chaves caem em bueiros. Cartões de estacionamento somem.
Tirar lições, pensamentos, máximas disso tudo é bem divertido e até revelador, porque acabam refletindo tudo que se passa na minha cabeça. Uma análise de sopetão, rasteira e rasa. Mas que graça teria se só visse o que vejo? Se fosse racional ao extremo, objetiva, concisa e coesa? É. Com certeza muita coisa mudaria, a começar por esse texto que se resumiria à uma linha.
Minhas chaves caíram no bueiro. Ponto.
ilustração de gustavo mendonça.

25.4.07

Hasta la vista




Pela primeira vez vou fazer uma viagem internacional. Melhor, uma viagem internacional com glamour. Já fui ao Paraguai quando tinha 15 anos numa daquelas famigeradas excursões onde o guia fica fazendo de tudo para animar você depois que sua bunda mudou de formato. Preciso confessar que foi uma viagem horrível e até hoje não sei por que me meti nessa roubada. Graças a Deus a gente cresce e aprende que excursão é uma das piores coisas da vida, e indo para o Paraguai então, nem se fala.

Bem, mas a vida me recompensou. Melhor, o trabalho me recompensou. Depois de 14 anos de profissão, pela primeira vez ganho um prêmio que não é apenas um troféu para ficar empoeirando na estante da sala de reunião. Não sei se para você é muita coisa, mas no momento, para mim, fazer esta viagem está sendo o máximo. Enquanto você lê este texto espero estar numa das calles de Buenos Aires admirando cada pedacinho de um lugar totalmente novo para mim.

Já estava bom se a história parasse por aqui. Mas para completar minha felicidade, vou para Buenos Aires com um grande amor. Alguém que convivo há sete anos, com quem divido sorrisos e lágrimas, que admiro até o último fio de cabelo, que posso contar seja a hora que for (mas nunca tive coragem de acordá-la no meio da noite), alguém que sabe mais de mim do que eu mesma.

Algumas coisas na vida só vêm mesmo com o tempo. A calma para aprender a esperar, a sabedoria para aproveitar mais as pequenices do dia-a-dia e a felicidade de saber que ir para Buenos Aires com sua melhor amiga pode ser muito melhor do que ir com qualquer outra pessoa.

18.4.07

Mais do que existe


Foram à festa de um amigo dele. Ela sabia que encontraria pessoas que não conhecia, entre as quais a ex do namorado. Já tinha visto a tal em outra ocasião, mas não lembrava bem de seu rosto. Chegando lá cumprimentou todos, distribuiu sorrisos, teve cuidado pra não ficar com comida entre os dentes, enfim, buscou ser sociável. Só que, por mais que tentasse, seus olhos, quase involuntariamente, buscavam a ex do namorado pela casa. Quando menos esperava, viu a maldita. Quer dizer, a menina. Tinha uma pele morena linda, mas um cabelo feio, credo. Não podia desprezá-la por completo. Afinal, se o homem que a amava já quis um dia estar com aquela vaca, quer dizer, garota, algo de bom ela devia ter.

Se antes já estava difícil, agora não se controlava. Olhava fixamente para a piranha, quer dizer, menina, pensando o que poderia tê-lo atraído nela e desejando, quem sabe, assim, de repente, disparar um laser assassino na cabeça da entojada. Como era previsível, a morena, depois de alguns flagras, percebeu que estava sendo vigiada. Sem relutar um só centímetro, foi caminhando em direção ao casal e cumprimentou os dois naturalmente. Nossa protagonista se sentiu ridícula e envergonhada por ter pensando tão mal da moça.

Minutos depois, a cachorra, quer dizer, a morena, foi para a pista de dança. Junto com as amigas, fazia passinhos sensuais, cantava fazendo caras e bocas e bebericava sua caipirinha. Diante daquela cena, a impressão de que os três beijinhos serviram para selar paz foi pelos ares. Agora estava certa de que a intenção era declarar guerra. Aquele cumprimento não havia sido amistoso. Na legenda estava lá “Quero ele de volta. Vamos ver quem se dá bem”. Se era pra brigar, ela lutaria até o fim. Ou até que seu celular tocasse, com sua mãe pedindo que voltasse pra casa e levasse seu pai ao hospital. Crise de asma daquelas. Não quis acabar com a diversão do namorado. Apesar do ciúme atravessado que nem pentelho na garganta, foi embora e o deixou lá.

No dia seguinte, assim que acordou, descontrolada e descabelada, foi direto pro Orkut saber mais sobre a vagabunda – sim, agora sentia-se à vontade para xingá-la sem correções. Leu o perfil, foi ao álbum, estudou bem a adversária. Estava pronta para um Brasil x Argentina.
Conversando com o namorado, com quem jurou nunca comentar nada daquilo, porque senão daria ibope demais para a outra, ouviu ele dizer:
- Depois que você foi embora aconteceu uma merda. O Zé recebeu uma ligação. A Débora sofreu um acidente. Nada grave, mas deu um susto. Destruiu o carro.

O mundo parou. Débora? Como assim? Débora era a ex dele, a morena safada. E se ela estava na festa, como sofreu acidente? Jogou verde.
- Mas a Débora não estava na festa?
- Tava não.
- Quem era aquela morena? Uma da blusa branca larga, que veio cumprimentar a gente?
- Morena? Era a Carla.
Sentiu vergonha. Passou a festa toda e horas no Orkut vendo chifre em cabeça de cachorro. Transformou a pobre morena do cabelo feio, tá, nem era feio assim, em vilã de novela das 20h, planejou sua derrota, xingou todas suas gerações. Quanto tempo perdido criando problemas. Riu por dentro e falou pra ele.
- Humm... simpática ela, né?
ilustração em www.vidabesta.com

12.4.07

Amor de cão

Já reparou naquele cachorro que é muito bem ensinado e que apenas com o olhar você consegue dizer pra ele senta, fica quieto, pára de latir? E ele fica lá, encarando você, esperando que você mude de expressão para então poder mudar também, não ficar mais tão tenso, não precisar ficar atento aos seus movimentos. Tudo que ele espera é uma pequena brecha para poder relaxar, sair correndo, pular no seu colo, babar em cima de você e mostrar o quanto gosta da sua companhia.

Ela não era tão domesticada quanto um cão, mas agora sentia-se exatamente assim. Ficava a espreita procurando o momento em que ele iria olhar pra ela e falar vem ficar aqui comigo. E pra sempre. Sonhava com um encontro marcado para aquela noite. Seria capaz de matar o trabalho, deixar de sair com as amigas, desligar o celular para que aquele outro que conheceu no fim de semana não ligasse e atrapalhasse seu velho plano. E o plano era muito simples. Bastava ele chamar e ela ia. Deixaria ele colocar a coleira nela, ficaria de quatro, lamberia ele todo, abanaria o rabo, traria o chinelo dele todas as noites. Era só ele estalar o dedo.

Teve que admitir que por mais independente que fosse ele exercia um poder silencioso sobre ela e sobre o que ela sentia. Era uma ligação difícil de explicar, complexa de se entender e sofrida de se viver. Ela não sabia por quanto tempo conseguiria ficar assim. Já tinha perdido o juízo, o amor-próprio, o orgulho, estava descendo ladeira abaixo. Com o passar do tempo, imaginava o que poderia acontecer. A raiva iria tomar conta e o que ela sentia por ele precisaria ser sacrificado. Sem dó nem piedade.





4.4.07

Mudanças

De macios os lábios passaram a desajeitados. O beijo foi de apaixonado para molhado demais. O abraço apertado virou grosseiro. A barba que arranhava gostoso agora machucava. O hálito que excitava começou a incomodar.

A barriguinha charmosa agora era obesa, o corte de cabelo moderno ficou ultrapassado. Os pêlos que roçavam seu corpo passaram a espetar. A mania de ver poesia em tudo se transformou em algo intelectualóide. O sexo de pegadas fortes virou indelicado.
De repente, a charmosa calça jeans rasgada virou um desleixo. A paixão por livros, antes motivo de admiração, era agora pedante.

Ele jurava estar igual, como sempre foi. Não entendia as reclamações dela. Então o que mudou? O que aconteceu pra ela chamá-lo de desatento ao volante? Logo ele que sempre foi tão cauteloso. Quando a mania de misturar água quente com fria deixou de ser de fofa para virar frescura?

Por que a despedida do celular, “saudade, bonita”, passou de romântica para cafona? Por que o cuidado excessivo com os pais dele foi de sensível a exagerado?

O andar de mãos dadas deixou de ser carinhoso para parecer pegajoso. O telefonema de boa noite foi de atencioso para perseguidor.

Ela não tentava mais conversar nem mudar. Apenas se afastava. Ficava ainda mais nervosa porque acreditava que ele deveria notar sua frustração e se virar para voltar a agradá-la. Ele não sabia mais pra onde correr porque até as tentativas, antes demonstrações de afeto, agora soavam como cobranças chatas.

A verdade é que tudo continuava igual. O jeito de entrelaçar os dedos, a mania de abrir a geladeira pra ficar só olhando, o hábito de andar pela casa escovando os dentes. Nada mudou. Tudo que a fez se apaixonar por ele continuava igual. O que mudou, ela tinha que saber. Que deixe doer, mas ela tinha que ouvir. O que mudou, foi ela.

ilustração de carol cuquetto: oamareloeonada.blogspot.com. acessem, acessem, acessem. lindo demais.)

30.3.07

Pequenas coisas

Nasceu normal, com todos os dedos do pé e todos os dedos das mãos. Dois ouvidos, dois olhos, um nariz e uma boca. Fizeram todos os testes: bateram palmas pra ver se ela se assustava, deixaram-na sem ar pra ver se reagia, furaram seu pezinho para fazer o famoso exame. Tudo em ordem.

A família respirou aliviada, tinham um bebê perfeito. Até os seis anos tudo correu muito bem. Brincava na rua com as outras crianças, caía, se machucava, voltava pra casa chorando igual a qualquer um da sua idade. Chegou a hora de ir para a escola. A babá prendeu seu cabelo com duas chiquinhas vermelhas, o uniforme estava impecável, camisa branca e saia-calça xadrez pregueada. No caminho até a escola começou a sentir que um bico tomava o lugar da sua boca. A testa franziu. Quem sabe pressentiu que sua vida iria mudar a partir daquele momento? Não, não seria a escola, a turma, os professores, as notas, as provas os culpados pela mudança em sua vida. Como você vai ver mais pra frente, o destino lhe pregaria uma peça. Nada demais, coisa pouca. Mas, sem dúvida, um incômodo para toda a vida. E até mesmo em sua morte.

Na hora de ir para sala de aula, não quis entrar de jeito nenhum. Agarrou a perna da mãe e começou a berrar. Dentro da sala os amiguinhos formavam uma fila e a professora tentou ser simpática:
- Venha com a titia, você vai ser a primeira da fila.
E lá foi ela, convencida pelo argumento que mexia com sua vaidade, ficou orgulhosa por ser a primeira. E nunca mais saiu do primeiro lugar. Não no sentido de ser a melhor mas sim porque parou de crescer. Começaram os apelidos e chaveirinho era o mais agradável deles. Teve que aprender a lidar com a situação, mas nem sempre foi fácil. Passou pela raiva, pela tristeza, pela depressão, pela irritação e por fim, pela resignação.

Ficou tão pequena que para ir ao salão de beleza tinha que levar sua própria almofada senão era impossível lavar o cabelo naquelas cadeiras onde se encaixam o pescoço. Até os dezoito anos, passava por baixo da roleta do ônibus e sempre davam desconto na sua passagem de avião. Chegou a hora de tirar carteira de motorista, mas teve que desistir, sua perna não alcançava o acelerador. Na boate, o barman se recusou a entregar o drink que ela pedia berrando com a identidade na mão. E teve um dia que não agüentou mais de tanta humilhação. Era o coquetel da empresa onde trabalhava, iriam lançar um empreendimento que mudaria o mercado. No meio da festa, depois de conseguir alcançar a bandeja de bebidas, tentou circular para ver se encontrava o rapaz que trabalhava no telemarketing e, segundo ouviu falar, não passava de um metro e sessenta. Enquanto procurava, sentiu uns tapinhas de leve na sua cabeça e viu que uma mulher muito, muita alta se curvava para falar com ela:
- Tá perdida? Quer que eu ajude você a encontrar sua mãe?
Sentiu o sangue subir rapidamente, coisa que era simples devido ao seu tamanho. As pupilas dilataram, a garganta secou e a boca se preparou para soltar seu insulto preferido:
- Vai tomar no... – desistiu de xingá-la e percebeu que pelo tamanho daquela enorme mulher, ela também deveria ter tido alguns inconvenientes na vida. Como consolo, pensou que pelo menos ela iria para a noite de núpcias nos braços de alguém, ao contrário da moça gigante. Virou-se para sua nova amiga e perguntou:
- Será que você pode me ajudar a encontrar uma pessoa?

Com a ajuda da grandona, achou o amor da sua vida, se casou, teve filhos, netos e, inevitavelmente, chegou a hora da sua morte. E pelo seu pouco tamanho, a funerária recomendou um caixão de criança, que era mais barato inclusive. O marido quase se convenceu, mas sua amiga grandona lembrou: ela não abria mão de ser enterrada num caixão três vezes maior que seu tamanho. E assim foi feito. Uma vez na vida, ou melhor, na morte, ninguém reparou no quanto ela era pequena.

Ilustração: Claudio França

27.3.07

Luana

Após seis meses de namoro, Júlio tomou coragem para falar o que sabia desde o primeiro minuto em que a conheceu.
- Luana, você é a mulher da minha vida.
Então ele fechou os olhos e partiu para dar o beijo que selaria a maior declaração de amor que já havia feito a alguém. Em vez da boca de Luana, Júlio se pegou beijando o travesseiro. Ela havia virado o rosto. A testa, bem ali no meio das sobrancelhas, estava enrugada. Até bico ela fazia. Não era exatamente a reação que ele esperava depois de um momento tão profundo.
- O que foi? Fui precipitado?
- Não.
- O que foi então? Fala pra mim.
- Você me chamou de Luana.
- Ué. Mas é seu nome, olha lá na sua carteira de identidade.
- Eu sei, né, Júlio, eu sei que é meu nome. Mas pela entonação, eu sei que você trocou nossos nomes.
- Trocar seu nome com o de quem?
- Com a da sua ex, da Luana.
- Ah, Luana, só pode ser brincadeira... você tá com ciúmes?
- Ciúmes nada. Tô com muita raiva. O meu Luana você fala assim, prolongando o a, tipo Luaaana. E termina a palavra com um ene bem pronunciado, como se tivessem dois enes. Luaanna, entende? E agora você disse “Luanáá”, com ênfase o último a, uma coisa abaianada. Você falou pra outra Luana que eu sei!
- Mulher de Deus, você tá perdendo o juízo? Os nomes são iguais, não falo de um jeito diferente. Larga de ser paranóica.
- O quêêê? Paranóica? Eu sou é sensível, percebo sutilezas, Júlio. E graças a isso, que você chama de paranóia, eu sei que você cometeu um ato falho.
- Ato falho? Mas a gente nem tinha transado ainda, como eu ia falhar?
- Ai, Júlio, puta que pariu. Ato falho é aquela coisa psicológica, quando você deixa escapar um pensamento que mostra o que realmente quer. Não tem nada a ver com brochar não. Só pensa em sexo, putz.
- Ah, ufa.
- Ufa?! Seria melhor se você tivesse brochado. Agora fui eu quem brochou. Enquanto você não admitir que me chamou de Luanáá, não coloco nem mais uma cereja no umbigo.
- Hunnnnpf... Luana, você tá querendo brigar porque isso te deixa excitada?
- Que saco, Júlio! Tudo é sexo pra você, que inferno!
- Luana... estamos os dois pelados, besuntados de chantilly até onde o sol não bate. Você com um fio dental tão pequeno que nem alcançaria meu siso, e não quer que eu pense em sexo? Você quer que eu pense em quê?
- Quero só que admita seu erro.
- Não errei em nada.
- Tá. Se você não admitir eu nem vou fazer a outra surpresa. Uma coisinha boba que treinei pra mostrar pra você.
- É...? Uma coisinha?
- Era surpresa... esse negócio de pompoarismo, sabe?
- Pom-pom-pompoarismo?
- É... mas não posso mostrar se você não admitir.
- Você quer que eu minta pra você, é isso?
- Não é mentir. É admitir.
- Não... você quer me humilhar. Quer provar que minha vontade sexual é maior que minha dignidade.
- Ih, tá complicando demais.
- É um absurdo, um insulto! Que cara de pau. Sua feminista moderninha, tentando me manipular pra ouvir o que quer, usando sexo pra mostrar que manda em mim.
- ... talvez.
- Lutam tanto pra ter direitos iguais e no final agem como homens. Que mesquinharia, que golpe baixo.
- Pode ser.
- Você deveria ter vergonha desse joguinho pré-histórico, dessa submissão falsa.
- E aí? Vai pedir desculpa ou não?
- Desculpa.
ilustração: www.vidabesta.com

23.3.07

A normal

Me senti diferente quando minha mãe perguntou-me de onde tirava minhas idéias. Não soube responder, mas nada do que ela pensava fazia sentido para mim. Via em minha mãe o modelo da mulher anulada, traída, submissa, acovardada, que se submetia a uma condição por medo de mudá-la, não importando o sofrimento que toda a existência de um casamento feito de mentiras lhe causava.

Vi uma mulher que foi linda se encurvar, se amargurar, secar. Tudo por causa de um amor que não foi correspondido, de um lar que não foi conservado sem máculas. Talvez a resposta para a pergunta que ela me fez estivesse justamente aí: mãe, não quero ser como você.

Sou pouco convencional, mas também não sou nada louca, sou extremamente comum, ordinária, passo despercebidamente nos lugares. Somente desenvolvi alguns pensamentos diferentes dos da minha mãe. Prezo a liberdade e tudo de bom que ela traz. E aceito as coisas ruins também. Acredito que podem existir várias formas de amar, que um relacionamento pode sim ter o sexo como o fator mais importante. Para minha mãe, isso é o absurdo dos absurdos. Então nunca consegui fazer ela entender que gosto de ser desejada e desejar. Aprendi a não ter vergonha disso. Mas por que demorei tanto a perceber isso? A avalanche de conceitos conservadores que eram despejados em meus ouvidos todos os dias não deixavam que as doses de culpa e vergonha que cada ato de prazer provocava se esvaíssem de mim.

Não existe nada pior que culpa e vergonha. E também o medo. É o trio fantasma, principalmente na vida de uma mulher que é mãe, é solteira e ama viver. Aos poucos percebo que me despir de normas e estruturas pré-estabelecidas é o caminho mais tranqüilo que posso seguir. Criei meu filho sozinha e hoje ele é um menino seguro, saudável, bem-humorado, sem medos ou travas. Nesses onze anos acho que consegui separar a mãe da mulher e não me tornar uma só. Ser flexível, mais uma vez, me ajudou. Meu filho me respeita, me admira, me ama e me elogia. Mais do que uma relação de mãe e filho, sou feliz por estar construindo uma relação entre um homem e uma mulher. Somos apaixonados um pelo outro, mas temos nossos espaços respeitados. Ninguém me ensinou a ser assim, mas acredito que minhas idéias tortas me ajudaram muito.

Agora quero aprender a ser também flexível num novo relacionamento. Quero o amor de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. Quero amar no momento em que sentir vontade e de maneiras diferentes, mas sem magoar ninguém. Sei que é difícil ou até impossível, mas gostaria muito de tentar. Minha mãe se fechou para um novo amor por acreditar que é impossível existir um homem fiel. Eu quero fazer o contrário. Quero acreditar que é possível amar e ser amada por pessoas diferentes, no mesmo instante. E ainda assim, ser uma pessoa normal.

ilustração: www.vidabesta.com

19.3.07

Algo bom

Cansei de me sentir pequena, de olhar pra trás e ver nada. Me sinto inútil e estúpida por ter pisado em tanto que plantei. Tanto falo em medir conseqüências, que diabos sei disso? Sempre que penso ter aprendido meus limites, me pego pisando na linha e tendo um déjà vu. Cometendo os mesmos pecados, reclamando da mesma coisa, magoando as mesmas pessoas e afastando elas de mim, numa tentativa subconsciente (que bom que alguma parte do cérebro ainda funciona) de colocar quem amo longe do perigo.

Sou tudo que condeno. Sou a mesmice, a mesquinharia, a água parada. Olho para trás e vejo quanta merda fiz achando ter feito a coisa certa. Não me arrependo, porque é assim que idiotas aprendem. Eles erram, erram, erram novamente até que um dia decidem pensar antes de agir. Sem arrependimento, mas com lamento. Magoar quem se ama deveria ser crime sujeito a penas legalizadas.

Por outro lado, tem também sua pequenez. Se não fosse sua falta de convites para festas, sua cara de desprezo quando me olha, o que seria de mim? Não finjo gostar de você e isso eu sei que é bom em mim. Posso cagar amizades, mas não quero agradar você em troca de um bom-dia dito entre os dentes. Pode guardar seus trocados pra quem sobrevive de sorriso amarelo. Pra quem engole suas grosserias, seu papinho de novo socialite em troca de jantares com gorgonzola, funghi secchi e um vinho do qual você finge entender.

Você fala como se tivesse nascido em berço de ouro, como se cagasse dólar. Você teve catapora, sarampo, diarréias, vomitou. Aposto que tem espinha na bunda, caspa. Você brincou na rua, chegou em casa sujo e não quis tomar banho. Foi criança como qualquer um, mas age como se tivesse nascido na posição em que está. Que espécie de pessoa apaga o passado? Menos mal que eu faço parte dele e sobrou borracha pra mim também.

Em boas maneiras, posso dizer que estou pouco me fudendo pro seu cargo na nova empresa, seu salário alto. Você é cada julgamento que faz, cruel, sarcástico, com uma ponta de inveja tão visível, mas que você pensa esconder bem, que dá medo de ver o resto. E se você ler isso, saiba que é a única manifestação de nojo que farei em sua homenagem, porque me recuso a perder tempo com sua vida. Deixo aqui, em algumas linhas, todo o espaço que você merece pra não ter que novamente tocar em seu nome ou deixar escapar um veneno quando alguém vier falar mal de você. Ah, sinto muito, esqueci de falar antes, as pessoas falam sim mal de você.

Posso ter meus problemas, perder a hora sempre, falar o que não devo. Posso não ser popular, escrever mal e me expor apesar disso. Posso levar a vida toda tropeçando em meus próprios pés, sem saber pra onde vou e muito menos o porquê. Mas se resta algo bom, se tem uma coisa que me faz acordar de manhã e sorrir com esperança, é saber que você não gosta de mim.
ilustração: www.vidabesta.com

13.3.07

Assim será

O vestido novo, o perfume, o salto, nada por baixo. Você vai se lembrar disso e me diga como vai suportar sabendo que não é com você que eu vou estar. Como vai conviver com a minha lembrança saindo do banho, o cabelo preso num coque mal feito, os fios sobrando na nuca, as costas molhadas que não vai ser mais você quem irá enxugar.

Como vai fazer para esquecer que era você quem me cobria todas as noites, por todos esses anos. E como irá acordar e lembrar que não é seu nome que vou chamar baixinho até seus olhos se abrirem. Como viver pensando que não será no seu rosto que irei passar a mão, que não será no seu ombro que deitarei a cabeça, que não será para você que irei sorrir meio de lado. Que não será em seu nome que farei a reserva do restaurante, que não vai ser do seu prato que vou roubar o último pedaço de torta.

Como continuar imaginando que não é você que está ao meu lado enquanto dirijo, que não é em você que penso quando paro em frente à vitrine de lingerie. Me diz com vai ser quando eu rir da piada que não é sua.

Como seguir em frente sabendo que não será por você que estarei esperando na varanda, que não será com você que irei ao cinema, que não será para você que comprarei a blusa que não é a sua cara. Não será seu nome que irei dizer quando estiver trepando, não será você que irá me ver chorando pedindo desculpas por ter errado.

Espero que saiba porque assim será.

8.3.07

Seria bom

Queria me contentar com menos. Não com pouco, mas com menos. Aceitar a rotina como um presente, uma dádiva que pouca gente tem de acordar e viver o mesmo dia todo dia. Ter sempre os mesmos problemas e por isso, ter as soluções certas.

Queria não ter vontade de mudar o cabelo e manter o mesmo corte por décadas. Ou apenas alisá-los. Cabelo liso é tão mais fácil de se cuidar. Queria não gostar de meus cachos.

Queria não enjoar de comer rúcula com agrião. Queria ter algumas manias que não se tornassem irritantes com o tempo, mas apenas bonitinhas pra quem vê.

Queria ser mais calma, quase acomodada. Me contentar em ficar em casa ao chegar do trabalho, ter sexo comum, sem novas posições, palavrões e puxões de cabelo. Queria me satisfazer com missa ao domingo, curso de espanhol às terças e quintas, visitas semanais à alguém da família, ginástica três vezes por semana, unha a cada 15 dias.

Queria não acreditar que estou privando meu gato de uma vida livre ao confiná-lo em um apartamento. E não pensar que ele pode morrer virgem.

Queria não desejar o novo, o desconhecido. Queria não gostar de frio na barriga e não ter a necessidade de experimentar sabores diferentes. Viagens apenas anuais, por 30 dias seguidos. Queria me contentar com excursões, que trazem pacotes prontos e tudo definido. Conhecer as pessoas que vão a esses passeios, ter curiosidade sobre a vida delas, ganhar a faixa de pessoa mais simpática do trecho Vitória x Paraguai.

Queria não gostar de show, de sentir o estômago pulsar junto com o coração quando os graves balançam o chão. Queria me contentar em passar em um concurso público e ser rica.

Queria me contentar com música baiana. Esperar o ano todo pelo Vital ou acompanhar micaretas por todo o Brasil, garantindo minha diversão simples e saltitante, com letras que não me façam pensar.

Queria saber ser mais cínica, porque falar a verdade dá trabalho e preguiça, mas não sei disfarçar. Queria me contentar com o que tenho, porque mesmo que pouco, é o que conquistei.

Queria acreditar em tudo que escrevi aqui, mas a impaciência não chega a esse ponto. Queria poder dizer que preferiria ser medíocre a questionar tanto, mas quem disse que não sou medíocre?

Queria aceitar o contentamento, porque afinal, contentar-se deve ter tudo a ver com ser contente. Mas que merda. Até isso parece pouco pra mim.
ilustração: www.vidabesta.com

1.3.07

Crenças


Você acredita em quê? Acredita, por exemplo, em sinais? Você quer muito um emprego no setor de marketing de uma marca de laticínios. Sua avó o convida para um lanche na casa dela e chegando lá, qual a marca do queijo, do requeijão e da manteiga? Você pensa se é coincidência, se é um mero acaso. Aí, voltando pra casa você cumprimenta seu novo vizinho que acaba de chegar, ele dirige o carro da empresa. Sim, a da marca de laticínios.

Há um tempão você não encontra com sua melhor amiga do primeiro grau. Vocês viviam grudadas, o recreio era só de vocês duas. Aí o tempo passa, os caminhos tomam rumos diferentes e quando você se dá conta, são mais de dez anos sem vê-la, mesmo as duas morando na mesma cidade. Sem saber exatamente por que, você se lembra dela. E na outra semana vocês se reencontram. E de novo e de novo. Isso já aconteceu com você? Como isso se chama?

Você acredita em promessa? Imagine a situação: você precisa escolher um apartamento para comprar. O mês é agosto. Você escolheu morar em Vitória, é lá onde trabalha, sai, faz compras. Passa agosto, setembro, outubro. Você tem até novembro para achar um apartamento e se mudar. Precisa fazer matrícula na escola para o filho e o prazo final está perto. Mesmo rodando o classificado de imóveis de cima a baixo todos os dias, passando as horas de almoço com os mais diferentes corretores (onde eles aprendem a ser tão chicletes?) nada de achar apartamento. Bate o desespero, você se vê indo até o Convento da Penha e se pega fazendo uma promessa se conseguir achar o apartamento desejado até o fim do mês. Em quinze dias você encontra o que procurava. Não em Vitória, mas em Vila Velha. Em um mês o apartamento está comprado e você morando dentro dele. E, acreditando ou não, nem por um momento pensa em não pagar a promessa.

Você acredita que vai ficar a vida toda com uma pessoa só? Acredita que dessa vez é pra valer? Acredita que essa era a pessoa que você tanto procurou? Mesmo quando você começa a ver as coisas de um outro ângulo, quando você se decepciona, quando tudo muda de cor, você ainda consegue acreditar? Ou vira teimosia, insistência, dificuldade em admitir o fracasso? Você conhece um casal de amigos, sai sempre com eles, ouve as histórias de viagem que eles contam, escuta os planos para daqui a cinco, dez e vinte anos. Vai com eles conhecer o novo apartamento que vão pagar por uns bons quinze anos. Pode um amor durar tudo isso? Ou será que as pessoas se agarram aos compromissos para poderem justificar uma relação?

Quando um amor vale uma promessa, um emprego vale todo o seu otimismo em achar que lá na frente há um pote de ouro, mesmo estando submetido a tanto estresse, o que faz você acreditar que um dia as coisas irão mudar? em deus, no diabo, em você, no buda, em maomé, no futuro? Quanto de convicção em um deles ou em todos é necessário para seguir em frente?

E o pior de tudo, mesmo eu não acreditando mais em um monte de coisas, ainda estou disposta a continuar. Não acredito mais no casamento, não acredito que um dia esse país ficará menos injusto, não acredito que um dia vou ganhar muito dinheiro com o que faço. Mas aqui estou eu. E você? No que você acredita para seguir em frente e não desistir de viver?

23.2.07

Meu pai

Meu pai comprou um desses bichinhos que deixam o carro cheiroso e me deu de presente. É um golfinho azul. Um azul meio pálido, translúcido, com certo degradé. Estranho. Nada do meu agrado.

Pensei em escondê-lo, dar pra alguém, dizer que perdi. E assim fui deixando o golfinho num canto do quarto, junto com extratos de banco antigos, malas-diretas que esqueci de rasgar e clipes de papel que sempre surgem de não sei onde. Assim foi. Até o dia em que meu pai perguntou se eu tinha gostado do golfinho. Nem na TPM mais brava eu conseguiria dizer a verdade. Falei que amei e que ainda não tinha colocado no carro por falta de tempo.

No dia seguinte, transportei o golfinho até o carro, deixando tudo que encostava nele empesteado de um perfume inegavelmente feito para carros. Enquanto o pendurava, me senti mal por não tê-lo feito antes. Lembrei de tanta coisa que meu pai fez por mim, tanta coisa muito mais importante que um mero perfumador de carros.

Com cinco anos, quando fui atropelada, ele me segurou no colo e de tão nervoso e trêmulo, me deixou cair no chão novamente. Lá pros dez anos, me colocou de castigo incontáveis vezes e ensinou que vou pagar por tudo que fizer. Mais tarde, por ciúme e também por acreditar que estava me protegendo, não deixou que eu furasse a orelha antes dos 14, usasse batom antes dos 15, fosse a uma boate antes dos 16. E quando tinha 25, discuti porque queria dormir na casa do meu namorado. Entre gritos e muita discussão, começaram as lágrimas e ele disse algo que nunca esqueci:
- Quando você era pequena eu sabia como te proteger. Agora que cresceu não sei o que fazer.
Ele me abraçou rapidamente e sem jeito, como sempre faz, mas nunca mais tocou no assunto e aceitou minha decisão.

Meu pai me ensinou a gostar do flamengo, a comer pão com uva, a amar macarrão. Torceu muito quando participei de uma corrida no colégio e me abraçou quando perdi. Se tornou uma pessoa mais divertida com o tempo e com a aceitação de que sou adulta. Anda meio surdo, continua marrento, gritão e xingão, mas é o homem que sempre esteve ao meu lado, amando e protegendo ao seu modo. E claro, como esquecer, o homem que meu deu aquele golfinho lindo, pendurado ali no meu retrovisor.

ilustração linda linda do radael, que agora também é pai:)

16.2.07

Tudo pára



O relógio da cozinha marcava dez pras nove. Mas na verdade, a hora não era essa. A falta de pilhas atrasou o tempo. E o próprio relógio de fundo laranja marcava um outro tempo, do qual ela se lembrava com saudade. Era o tempo das coisas no lugar. Tempo em que as pilhas eram trocadas exatamente na hora em que paravam de funcionar para que nada, nada parasse no tempo por falta da vontade e de energia, seja qual fosse a fonte.

Sentada sozinha no banco de madeira da mesinha da copa, tentava em vão espantar o sono que iria fazer parte de todo o seu dia, deixaria seu olhar ainda mais sem brilho e despertaria a pena dos que iriam encontrá-la na reunião marcada para o início da tarde. – Que hora mais ingrata para uma reunião, pensou desejando desmaiar, ter um colapso, ficar toda torta para não ter de ir trabalhar. Olhou para a xícara branca de cerâmica comprada com tanto gosto para formar um conjunto bonito no armário da sala e um dia, se transformar na oportunidade de convidar alguns amigos para um café na varanda, em meio a plantas tropicais que havia ganhado no último verão.

Pensou no sentido de todas essas bobagens que acumulava em sua casa, em sua cabeça e em seus armários. Tinha um plano para tudo que pensava, mas não conseguia colocar em prática nenhum deles. O relógio, as plantas, as xícaras, o sofá, a tv, as cores da parede pertenciam a um desejo de deixar a vida mais intensa, mais divertida, com fotos que iriam registrar o sorriso de todos aqueles que faziam parte quase de uma confraria, amigos de fazer inveja, tão bacanas e modernos que só poderiam existir na sua imaginação.

E assim viveu imaginando que um dia tudo poderia acontecer da forma que havia planejado, e que nem ao menos sentiria aquele típico nervoso das pessoas que organizam festas e sofrem de ansiedade até que todos os convidados cheguem, felizes e com vontade de se divertir, sem hora para ir embora.

Mas entendeu que o tempo passou, as plantas murcharam, o relógio parou e as xícaras ficaram com o fundo amarelado dos cafés que tomou sozinha, todos os dias na mesa da cozinha. Queria comprar pilhas novas para o relógio, mas não tinha mais vontade de fazer nada funcionar. Nem o relógio nem sua vida.

12.2.07

Tanto amor



Por um segundo desejei que você morresse logo. Quis antecipar a dor que um dia será inevitável. Quis que você morresse, pra eu não ter que viver mais nem um minuto ao seu lado, cultivando tanto amor. Cada dia a mais, seria uma nova lembrança triste de como fui feliz um dia.

Não quero que duvide do quanto sou apaixonada. Nem imagino como seria chegar em casa sem te encontrar. Adoro dividir a cama com você. A cama e até o banheiro, quando você chega querendo usar a pia enquanto faço xixi. Acordar de manhã com você me chamando é começar o dia de bom-humor.


Mas me desculpe. Por aquele segundo, aquele mesmo, em que você me olhou tão fixamente que até taquicardia eu tive, eu desejei que você morresse de vez. Lamentaria pelo que ainda não teríamos vivido, choraria e sofreria por meses. Mas prolongar sua vida é aumentar o sofrimento da perda por anos.


Me imaginei, naqueles milésimos de segundos, ajoelhada, cotovelos no chão, olhando para sua lápide, aliviada por tanto amor ter acabado. Por que onde vou colocar ainda mais amor, se ele continuar crescendo assim? Não cabe em mim. Mas caberia num túmulo. Ali, escuro, quieto, trancado.


Se você morresse logo, eu poderia dizer a todos o quanto amei e fui amada e estaria livre para viver uma vida plena, em que a busca por tanto carinho não seria mais necessária.
Por aquele segundo pensei em deixar a porta da varanda aberta e entregar seu destino a Deus. Mas um segundo depois, talvez até menos, o arrependimento de ter desejado sua morte prematura me tomou num gole, e sentei porque não agüentei o peso da minha estupidez.

Engoli minha covardia, olhei para o céu azul, tão azul quanto seus olhos, e só encontrei motivos pra sorrir. Um dia você vai morrer. De repente, eu até vá antes. Mas não adianta pensar agora. Por um segundo, quero acreditar que somos eternos.


ilustração: www.vidabesta.com

7.2.07

Amigo pra chamar de meu


Acho que é a primeira vez que sinto essa necessidade, essa vontade que fecha a garganta e faz saltar as veias das têmporas. Não tenho grandes segredos, não tenho carência ao extremo, a não ser quando acaba a cartela de anticoncepcional, não choro sem necessidade. Mas agora, juro, preciso muito de um amigo, um amigo que seja homem e que como homem seja capaz de fazer entender por que um outro homem me faz sofrer tanto.

Quero um amigo que seja capaz de dormir comigo sem querer me comer, sem querer ver meus peitos. Que acorde no meio da noite para espantar os mosquitos que voam pelo quarto zumbido a verdade nos meus ouvidos: é impossível estar em paz mesmo quando se dorme. Que estique minhas cobertas até meus ombros para que eu não trema, nem de frio nem de medo das coisas que penso sem parar. Pensamentos que não me deixam, por nada me largam e me levam para mais longe de mim mesma.

Esse amigo precisa me buscar para ir ao cinema, à praia, pra sentar naquele bar que a gente adora e o garçom já sabe nosso nome e trazer pra gente todas as cervejas geladas que houver na geladeira. E na hora de me deixar em casa ter toda certeza do mundo de que eu irei ficar bem sozinha e que não vou chorar baixinho com a cara no travesseiro até pegar no sono de tanto cansaço de sofrer.

Para esse amigo vou guardar o melhor de mim, vou ser sincera e dizer a ele a verdade que ele precisa ouvir, mas vou fazer isso de mansinho, para ele também não sofrer. Vou ajudá-lo a comprar roupas e combinar meias com sapatos. Vou a sua casa colocar suas coisas em ordem, vou, pelo menos uma vez, deixar um jantar pronto para quando ele chegar do trabalho. Vou atender todas as ligações e responder todos os e-mails que você mandar. Prometo que não vou ser grudenta nem inconveniente. Não vou ter ciúmes de suas namoradas, mas também não vou deixar que elas tratem você mal.

Não vou ligar se um dia você precisar de sexo, pode me usar se eu não estiver triste nem apaixonada por ninguém. Prometo não ficar brava se você se masturbar pensando em mim, por pura falta de outro alguém para pensar. Não se esqueça do dia do meu aniversário, não precisa de presente, só mesmo um alô provando que você se lembrou. Avise ao seu novo amor que você já me conhece há muito tempo e que não há razão para ciúmes fúteis e supérfluos. Convidem-me para o casamento de vocês, para ser madrinha e me mande um postal da lua de mel. E jure pelos filhos que você tiver, que nunca vai achar que eu estou gorda.

2.2.07

Perfeições

Eram feios de dar dó, mas nem mesmo quando se conheceram viram isso um no outro. Ele sempre desejou as pernas dela, tortas e cheias de marcas de mordidas de mosquitos, envolvendo seu tronco desproporcional e exageradamente cabeludo. Imaginava o quadril extremamente fino e ossudo dela colado em sua pélvis.

Na primeira noite juntos viam apenas belezas. Ela colocava as mãos dele em sua bunda, tão escassa de carne, mas de onde ele tirava tudo o que precisava. O pescoço curto e grosso dele não a impedia de passar seus lábios finos por cada centímetro de pele. E os narizes avantajados não eram obstáculo para beijos que envolviam dentes tortos e bigodes, de ambos os lados.

Em suas imperfeições eram harmônicos. E isso fazia o desejo aumentar. Não se importavam com olhares, comentários feitos entre risinhos. Já estavam acostumados a conviver com aparências totalmente afastadas de padrões de beleza.

Juntos, sentiam-se fortes. Riam daqueles que corriam suados pela praia, que comiam apenas folhas no almoço, na tentativa de atrair alguém. Eles não precisaram disso.

Ela não foi a noiva mais linda. Ele não foi o príncipe dos sonhos. Não para os que viam. Mas eram, um para o outro, a personificação do amor. O que eles viam, ninguém mais enxergava. A aparência protegia aquele amor de invejas e cobranças. Ninguém perguntava sobre filhos. Tinham pena de imaginar os genes herdados pela criança.

Envelheceram juntos. Rugas nunca foram problemas. A atração sexual existia sim e nunca acabou. Nem de Viagra precisou. O amor nunca esteve ali na pele, nos músculos, na formação óssea, nos cabelos. O amor estava onde poucos vêem porque vivem distraídos com perfeições.

26.1.07

Romance à moda moderna


Ele não é nada romântico. Nunca falou eu te amo de sopetão. Jamais fez planos impossíveis. Jurar amor eterno então, hunpf.

No início eu achava que era apenas timidez e me consolei com essa desculpa, criada por mim mesma. E a ausência de romantismo não me desiludia. Apenas fazia pensar que era uma espera, que seria devidamente compensada com o tempo. Se ele dizia que eu estava bonita, agradecia, mas ficava esperando um é a mais linda que já conheci. Se ele sorria, aguardava um abraço desses de cansar de ficar na ponta dos pés.

Esperava o romantismo se manifestar e perdia todas as demonstrações mais sinceras de afeto. Idealizar o amor foi um desperdício de tempo. Queria ouvir declarações prontas, promessas absurdas, frases dignas de fim de filme. Esperava refrões de músicas, versos únicos. E querendo tanto, a frustração só era maior.

Queria exageros ditos de um jeito bonito, que parecessem exclusivos. Durante meses, ele dizia verdades e eu buscava clichês. Não entendia que o amor também estava escondido em silêncios e olhares inocentes. Em palavras comuns, sem lágrimas, comoção excessiva, sem Almodóvar.

Enquanto ele era sincero, eu queria mentiras. Queria aquilo ali que vi na tv. Como chegar no supermercado e pedir um amor pronto. E ceguei pro amor sendo construído bem na minha frente. Jogava expectativas para cima dele, tentando abafar inseguranças minhas. Vai ver não reconheci porque não conhecia, tinha referências erradas, entortadas por conceitos surreais de amor e romantismo. Bom que percebi a tempo de me deleitar. Sei que seus sorrisos, quando vêm, são espontâneos. E até seus acessos de sinceridade não me doem. Fazem sorrir.
- Tá com saudade?
- Não, ué, nos vimos há 30 minutos.

O que me deixaria arrasada, agora me faz feliz. Sinto alívio por entender que amor não pede por exclusividade. Amor exercitado com leveza e suavidade não sobrevive sozinho. Não é a base da vida, não rege vontades e desejos, mas se mistura como açúcar em café, tirando o amargo e aumentando o sabor.

Claro que ainda peço afagos quando me cansa dirigir ou quando me sinto feiosa. Mas que venha como dengo e não como uma massagem de ego descarada, um predadorismo romântico, que busca usar o outro para se alimentar.

Como diz minha mãe, a gente não nasce grudado em ninguém. Só na mãe mesmo, e ainda assim, somos separados imediatamente. Viver a dois é viver bem sozinho. E mesmo com medo de admitir e depois me arrepender, acho sim que posso aprender.
Ilustração do romântico à moda moderna, Everson Cabideli.

19.1.07

Desventura


Tenho tanto para ler, escrever e sentir que cansei de tudo isso, chega de palavras bem colocadas, pontos nos finais, vírgulas que separam orações, idéias e separam-me do que mais quero, ficar quieta. Chega de pensar tanto e tentar traduzir e seduzir com linhas retas e curvas. Que se lasque tudo isso, azar o seu, vou chutar esse monte de asneiras e vai ser já. Cansei de pensar em você e querer que você me queira, cansei de esperar um convite seu ou uma palavra que possa se encaixar na outra: — Gostaria de tomar um café comigo? — Tomaria tudo com você, café, chá, cachaça, banho de mar, de piscina ou de espuma.

It’s enough, diria meu professor de inglês. Ou c'est tout, diria Florance, a professora de francês. Pra mim, é chega mesmo. Que mais tenho que fazer para você me notar, hein?
Comprei um hidratante labial com colágeno para deixar meus lábios macios pra você beijar. Mas o tal batom milagroso tem cheiro de percevejo, você nunca vai conseguir me beijar se eu estiver usando isso. Acontece que nem querer me beijar você quer, nem com batom-percevejo nem sem.

Escutei as músicas, li os livros, conheci os lugares de que você gosta, segui você, mas você não me viu, então que se dane. Vou procurar outro para me distrair enquanto o mundo dá voltas ao meu redor e me enrola de tal forma que um ano não traz sequer uma, umazinha pequena mudança na minha vida, no dia após dia que passa por mim sem ao menos acenar para eu achar que as próximas 24 horas serão tão diferentes e intensas quanto o seriado da TV.
Chega de me torturar e suspirar por você, queria muito mais, daria muito mais. Daria da forma que você quisesse, é só mandar que eu faço, direitinho, não sou moça direita, não tenho vergonhas nem pudores. Não, deixa pra lá, já disse que não quero mais – preciso acreditar que sou eu quem está dispensando você no meu cérebro recheado de porcarias. Queria viver um pouquinho só, um tantinho de nada, para poder acumular histórias mais emocionantes do que as que conto agora. Quer uma aventura com direito a frio na barriga, chocolate quente e beijos molhados? Desculpe, tarde demais.

12.1.07

O maior amor do mundo

Começou chupando seus dedos, um por um, devagar, como uma tarde de domingo. Mordiscou-lhes as pontas com uma leve pressão, passou-lhes a língua agora áspera tentando refazer o desenho de cada uma das digitais. Ele suspirava; também não tinha pressa. Esperaram tanto por isso que não pensavam em mais nada a não ser contar os segundos que permaneceriam juntos. Ela deixou os dedos úmidos e começou a brincar com seus mamilos duros fazendo círculos molhados em volta deles, sugando-os com a força necessária, apertando-os com delicadeza.
Ela imaginou essa cena por dias e dias, e tanto foram eles que o tempo não pôde esperar por ela e teve que agir. Deixou seus cabelos mais brancos e com menos brilho, tirou a força das suas coxas, tornou seus seios mais confortáveis. Ele com nada disso se importou. Tinha sua amada pronta em sua cabeça, idealizada, perfeita, de corpo e de alma. Amavam-se tanto que nem o tempo faria estragos no que sentiam um pelo outro. Sabiam, sempre souberam, que o amor que existia entre eles não era para ser vivido, era somente para se sentir.

Não iriam dividir a vida juntos, não teriam problemas, não iriam sofrer, não machucariam um ao outro. Apenas se entregariam à vontade de se olhar, de se tocar, de dormir com as pernas enroladas umas nas outras. Quem sabe, um dia, conseguiriam viajar juntos, pisar juntos pela primeira vez em uma terra, areia ou grama que nem um dos dois ainda tivesse pisado. Este lugar seria deles, assim como uma nova música também seria deles – é sempre assim com os casais apaixonados. E apaixonados eles já eram há muito tempo. Se amavam por palavras, por vozes, por olhares trocados furtivamente.

Agora ele puxava-lhe os cabelos enfiando a mão pela nuca, metendo os dedos entre os cabelos fazendo-a se virar de uma só vez. Ela cedia a cada movimento, como um balé, um tango, um ritmo perfeito onde cada um sabia seu papel. Ela pensou como era grata por tudo que já havia vivido, só assim poderia estar em paz com o que vivia agora, a isso chamam de maturidade e pela primeira vez experimentava as delícias de não ser mais tão nova. Ele ria do seu sorriso e da sua felicidade. Ria com ela, das coisas que dizia, de toda a leveza que tinha. Era a mulher que ele nunca teria; ela o amaria pelo resto da vida.

6.1.07

Nós

Onde desato este fio de lembrança de você que vem toda vez que ouço a canção, sinto o cheiro, mordo qualquer pedaço de tantas coisas?
Ficamos nós, amarrados um ao outro, sem saber como desenrolar cada um dos poucos restos de nós mesmos que ainda estão embolados formando um novelo de cor indefinida.
Sobraram nós que nos atam embaixo do mesmo teto, do mesmo lençol, do mesmo guarda-chuva. Quanto tempo demora para soltar todos os fios que ficaram gastos pelo tempo, puídos pela dor e salgados por tanta lágrima? E que mesmo assim não se soltam, presos por linhas feitas de histórias que agora nem precisam fazer sentido. E melhor assim. Então me ajude aqui com mais esse nó, esse que ainda segura forte, aperta, machuca mas que a gente não quer soltar de jeito nenhum. Porque tantas vezes trançamos pernas, braços e bocas tão bem entrelaçados que não conseguimos entender porque nada mais se encaixa como antes.
Um de nós se soltou mais que o outro e agora vai até onde consegue chegar, mesmo sem querer, mas sabendo que precisa se desenrolar. Até achar o próximo nó.

30.12.06

Quereres de ano novo

Quero 2007 com gosto de Nutella, de cappuccino que só você faz, de tempero da minha mãe e dos biscoitos da minha vó.

Quero um 2007 revigorante que nem mergulhar no mar, secar no sol, descansar na sombra. Que nem garrafa de cerveja sendo aberta, espuma no buço e língua limpando.

Quero 2007 com som de criança gargalhando, de ginásio lotado, de chuva na janela. Aquele barulhinho de teclado digitado rapidamente, de chaveiro balançando quando alguém chega em casa, de apito no ouvido voltando de festa.

Quero 2007 com cheiro de bolo no forno, de dama-da-noite, de nuca de namorado. Quero 2007 cheirando a lençol limpo, óleo de pitanga e papel recém-impresso.

Quero 2007 com momentos simples, como subir no elevador sem ninguém, achar vaga no shopping e encontrar aquele sapato pela metade do preço.

Quero 2007 pingando como picolé na camisa, virando bola de chiclete, voando com balões, levantando os braços na montanha russa.

Quero 2007 fugaz como decolagem de avião, arrebatador como lágrima de alegria, redentor como um pedido de desculpas sincero.

Quero um 2007 supreendente como ganhar flores sem motivo, encontrar dinheiro no bolso, receber carta escrita à mão.

Quero um 2007 miraculoso como acordar sem ressaca depois de abusar tanto, não estragar as unhas depois de fazê-las, dormir de cabelo molhado e acordar sem parecer a maria bethânia.

Quero um 2007 acolhedor como abraço de mãe, mão dada no cinema, carona em guarda-chuva.

Quero um 2007 quente como suco de fruta mordida escorrendo pelo queixo, firme como sua mão apertando minha cintura, menos complicado que abrir um cinto.

Quero 2007 com mais vocabulário, menos colesterol e muitas promessas.
Quero 2007 de branco e verde e talvez dourado.
Quero tudo, mas só um pouco. Quero menos trocadilhos.
E finalmente, quero textos que terminem bem.

22.12.06

Imaginado


Hoje passei o dia olhando pra você. Mesmo nos momentos em que você não estava na minha frente. Construí cada pedaço seu, de dedo a umbigo, de nariz a tornozelo, de cabelo a panturrilha. Meu mal é inventar paixões platônicas; e essa agora — muito perfeita, muito direita, muito real. Penso, sonho, sinto, vivo com você aqui, no meio de todos meus pensamentos, dos mais nobres aos mais profanos.

Profano, não. Ainda não cheguei lá. Sinto o amor romântico, apenas, com todos os sintomas: frio na barriga, tremor, vergonha e de repente fico muda. Seria melhor virar puta. É você passar pra eu esquecer todo o repertório que passei por horas, tudo some, os músculos se paralisam, parece que tenho 12 anos. Só com uma diferença: com 12 anos já teria ido até você e falado todas essas coisas. Entendeu por que seria melhor eu virar puta? Toda essa agonia iria acabar no primeiro motel vagabundo, na primeira luz de néon piscando na beira do asfalto.

Preciso dizer o quanto você me faz bem. Melhora o meu humor, me faz ter vontade de emagrecer, de passar sombra nos olhos, de comprar vestidos, de viajar. Me coloca sorriso nos lábios e acelera minha pulsação. Vou amar você assim, sem ciúmes, sem cobranças, sem jogos, sem choro. Este último guardo só pra mim, sufocado, dissecado, suprimido para que você não saiba que mesmo este amor, que só existe em mim, também faz doer.

Não quero que você saiba de mim mais do que imagina. Não quero dividir com você minha solidão nem tampouco quero a sua. Juntar duas solidões não é amar. Amar sozinho também não. Como não tenho escolhas não quero que você as tenha também. Viu como sou egoísta? Por favor, não veja mais nada. Tudo isso vai terminar exatamente como começou. Assim que eu conseguir domar meu coração que me desobedece toda vez que vejo você.

15.12.06

Brigas


Antes mesmo de abrir os olhos senti meu coração murchinho. Estava zonza, sonolenta. Não conseguia entender o motivo daquela dorzinha. Apenas sentia um aperto.
Provavelmente um sonho ruim, pensei. Tentei descobrir enquanto virava de barriga pra cima com toda a lentidão do mundo. Então lembrei. A gente brigou ontem. Eu não queria, você não queria. Quem quer brigar?

Quando tinha uns 12, 13 anos, briguei feio com minha mãe. Eu escutava o jogo do flamengo no rádio quando meu irmão vascaíno chegou perto e tirou o fio da tomada. Fui lá e coloquei de volta. Ele insistentemente desligava o rádio. Virou uma pancadaria, digna de maracanã. Minha mãe foi ver o que estava acontecendo e não pensou duas vezes. Confiscou a prova do crime. Fiquei sem saber como o jogo havia terminado e parei de falar com minha mãe.

Sentia raiva por ela nem mesmo ter procurado saber o que estava acontecendo. Meu irmão, que estava errado, conseguiu exatamente o que queria. Fiquei uma semana sem falar com ela. Chorava de tristeza, mas me recusava a procurá-la. Será que ela não percebia?

Não. A verdade é essa. Ela não sabia que o jogo do flamengo tinha tanta importância pra mim. E é disso que brigas são feitas. Quem se sente injustiçado espera desculpas e quem, teoricamente foi injusto, não vê motivos pra se desculpar por não ter idéia da dimensão do estrago.

Meu pai pedia pra eu falar com ela. Dizia que ela chorava muito. Eu também sofria. Apesar dos anos, sinto a dor ainda. Sabia do sofrimento dela, ela sabia do meu. Sabia que ela, assim como eu, queria me abraçar e esquecer tudo. Mas ninguém movia uma peça. E ambas tinham suas razões.

De volta à minha cama, onde eu despertava devagar, sentia esse mesmo gosto. Um ranço, um rastro amargo. Uma ressaca. Pensava quantas vezes mais teria que passar por uma briga vaga. Medir sentimentos, sendo que eles são imensuráveis. Exigir desculpas, quando o outro não vê necessidade de pedir. Entender que não se trata de achar culpados, mas de dizer como se gosta ou não das coisas.

Levantei e fui até minha mãe. Perguntei se ela lembrava da briga de anos atrás. Nem precisei dar mais detalhes.
- Lembro.
- Quem foi que quebrou o silêncio?
- Fui eu.
- Mas mãe, eu tinha razão.
- Não vamos falar disso. Certas coisas não se discutem.

Mãe sabe o que diz. A minha então sabe tudo. Ouvi o que precisava para encarar a ressaca que me acompanharia durante uns dias, até tudo voltar ao normal. Da próxima vez quero lembrar disso. Discutir o que não se pode mudar é dolorido, inútil, desgastante. Algumas feridas não saram. Depois de abertas, só o tempo ajuda a ignorá-las.

Mesmo mais nova, fiz uma escolha que deveria repetir mais vezes. Ficar em silêncio.

Ilustração do Galvão: www.vidabesta.com

8.12.06

Saudade ultrapassada



Engraçado esses dias em que acordo saudade. Penso em todos que conheci, em todos que contei segredos, em todos que beijei, em todos que chorei, em todos que vivi, em todos que deixaram pedacinhos em mim e que eu, também assim, deixei pedaços. Mas talvez tão pequenos que ficaram invisíveis e esquecíveis. Quero contar pra você, que conheci na 4ª série, que hoje vivo de redação. Ah, sim, na escola eu já gostava e lembro de ganhar um chocolate por ter feito uma redação muito bonita. Também tive meu nome escrito no caderninho de ouro. Quero contar pra você que foi meu primeiro namorado que tenho vontade de rir quando lembro que você me beijou depois da festa junina da escola, eu de vestido de chita vermelho e fita no cabelo, bochechas rosas de tanta vergonha de nunca ter beijado. Quero contar pra você que não moro mais em Brasília, que moro em Vitória e que pode um dia me visitar, mesmo com mulher, filhos, família. Quero contar pra você que era a amiga da minha rua, que em Brasília se chama quadra, que enquanto você colecionava papel de carta, eu colecionava etiquetas de lojas porque gostava das formas e cores. Formas e cores que hoje se chamam logomarca e que acho que sim, eu já tinha um pezinho aqui nesta profissão que escolhi.

Nestes dias em que acordo assim, com o passado colado no meu rosto, marcando tanto quanto o travesseiro aquilo que passou e de que sinto muita saudade, me sinto só, órfã, pouca, pequena. Mesmo que essa saudade que é muita caiba em apenas algumas horas, até o dia tomar forma, o telefone tocar, os problemas aparecerem e as lembranças voltarem pra lá de onde vieram. E essa saudade, dizem, é verdade sim, é coisa de idade isso. Mas se é de idade, meus amigos lá da minha rua, que brincavam de queimada e carniça, que corriam depois de tocar a campainha de todas as casas, que roubavam pequenas balinhas na loja de doces do outro lado da rua, que assustavam todo mundo quando era dia das bruxas, que pegavam amora, abacate e manga nas árvores, esses mesmos que também têm hoje a minha idade, será que pensam em mim? Será que lembram que lá na garagem da minha casa a gente fazia festa americana e dançava música lenta?

Queria ligar para cada um de vocês e dizer que tenho coisas novas pra contar, que entre uma lembrança e outra, a gente toma uma cerveja e ri vai ser legal ficar quase bêbado com alguém que conheço há muito tempo e que ocupou uma parte tão importante da minha vida. Minha preciosa infância, que passei correndo na rua, brincando aos domingos até começar o Fantástico e aí entrar em casa, tomar banho, jantar e dormir. E acordar agora pra lembrar que nunca, eu acho, terei coragem de dizer todas essas coisas pra você, que era meu vizinho, que era da minha turma na escola, que era minha melhor amiga. Porque me sinto muito envergonhada de dizer tudo isso e de sentir também. Porque se é coisa de idade, não quero parecer ultrapassada. Moderno é não sentir saudade de vocês? Se assim for, não quero ser moderna não.

Ilustração: Claudio França

30.11.06

Aniversário de um ano - nossa declaração de amor ao blog.


Ó, docinho, fez um ano o nosso blog. Adorei conseguir manter isso, escrever de 15 em 15 dias, com poucos atrasos, nenhum furo e muito orgulho dos nossos poucos e fiéis leitores. Podemos chamar de conquista? Pra mim foi até mais. Exorcizei alguns fantasmas, troquei a análise pelos textos e oba, economizei. Conheci pessoas novas que conhecem mais de mim do que minha própria mãe. Com o Redatoras de Merda, abri uma caixa de pandora, acho que daqui não deixa mais de sair nada. Também não tô ligando se pensarem pô, esse menina só fala dela mesma, que coisa chata. Gostei muito de conseguir escrever sem precisar ter um job na frente. Querido blog, parabéns pra você.

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Lembra quando começamos a trocar textos que escrevíamos quando vinha a vontade de gritar? Lamentamos fazer isso com pouca freqüência. Daí surgiu a idéia do blog. Afinal, bem ou mal, sabemos conviver bem com prazos e obrigações. E transformamos escrever em um dever de casa, uma terapia, uma diversão. Lembra no início, como sentíamos vergonha de postar? Do frio na barriga? De descobrir que alguém lia?! Meu Deus, alguém lia aquilo, ai, socorro. E ainda lê. Depois ainda comentaram. Ficamos tímidas, mas felizes que nem crianças. Ainda ficamos, na (e de) verdade. Quando ninguém comenta, falamos “ninguém tá lendo porra nenhuma” e caímos na gargalhada. Obrigada, brógui por me aproximar de mim, da docinho e de pessoas fofas que apareceram no caminho.
(docinho, meu texto ficou maior que o seu pra manter a tradição, tá?)

ilustração: vlad paiva. adoramos:)

16.11.06

Sem pensar


Acordei pensando, pensando, pensando, cansada como se não tivesse dormido. Como se tivesse passado a noite inteira pensando, pensando. Acho que minha cabeça tem o maior HD do mundo. Cabe tanta coisa, tanta coisa, que pra ela ficar bem ocupada, tenho que enchê-la de informação.Quando tenho poucas coisas pra fazer e pensar, parece que os pensamentos tomam uma dimensão grande, incham, inflam e recebem mais atenção do que deveriam. É um perigo isso. Começo a pensar besteiras de todos os tipos e desenvolver assuntos que não têm que ser desenvolvidos.

Eu não gosto de nada complicado, não acredito que por trás de tudo que alguém diz ou faz exista outro significado. Não fico procurando duplo sentido em tudo que leio e escuto. Mas ser simples é difícil quando eu tenho espaço demais pra pensar. Porque acabo destrinchando demais as coisas. E aí fico chata, questionadora, implicante, querendo explicação pra tudo. Quem sofre mais são as pessoas que mais amo. É uma covardia isso, mas é histórico. Descarregar qualquer coisa em que mais amo é um defeito vergonhoso e que juro, venho lutando contra faz tempo. Com bons resultados. Falei que é covardia, porque brigar com quem gosta da gente é ter a garantia da desculpa. É esperar compreensão de volta. Fora que me parece uma busca desesperada por atenção.

Quando minha cabeça fica vazia, eu começo a procurar defeitos. Encaro o espelho e vejo imperfeições inaceitáveis, temíveis. Onde existem as usuais celulites e estrias, vejo deformidades que nem os melhores maquiadores hollywoodianos poderiam reproduzir.
Preciso encher a cabeça de ocupações. Divagando sou um perigo. Leio as entrelinhas quando elas não existem.

Difícil foi enxergar isso tudo e questionar: será que minhas reclamações conferem ou estou perdendo a razão? Se estivesse com problemas de verdade, estaria colocando chifre em cabeça de cavalo? Com certeza não. Piora quando, além de reclamar, grito, xingo e perco a razão. Mesmo estando com a razão. E aí, fico ainda mais nervosa, porque mesmo argumentando, vão achar que é apenas mais um piti.

Ainda não levantei da cama. Preguiça, vontade de não fazer nada. O gato entra no quarto e me olha com carinha de quem quer ser levado pra passear na varanda. Meu peixe olha pra mim querendo comida. Como é fácil vida de bicho. Acho que quero ser gato na próxima vida.

Ilustração do Galvão: www.vidabesta.com

3.11.06

Me tire daqui


De segunda a sexta acordo entre seis e seis e meia. Ando quatro quilômetros por dia. Às vezes, seis. Às vezes na areia da praia, às vezes no calçadão. Muitas vezes pela manhã. Poucas, à noite. Tomo café da manhã todos os dias. Nunca deixo de tomar. Nem de escovar os dentes. Fio dental eu tenho preguiça, às vezes esqueço. Vou à manicure uma vez por semana, depilo de 20 em 20 dias. Corto o cabelo a cada três ou quatro meses.

Vou ao dentista, cardiologista, ginecologista uma vez por ano. Vou ao cinema uma vez por semana, aos domingos. Mas estou preferindo as quartas mais em conta. Tenho vontade de chorar pelo menos uma vez por mês, mas não posso ver gente chorando na TV que também choro junto. Choro sempre que vejo uma cena de Crash, quando a menininha entra na frente do moço que atira no pai. Choro muito. Leio todas as noites antes de dormir. Durmo cada vez mais e leio cada vez menos. Menos de uma página por noite. É quase um ano para ler um livro. Uma vez por mês gosto de ir a um bom restaurante, japonês de preferência. Viajo uma vez por ano por pelo menos dez dias. Encontro minhas amigas de adolescência a cada dois meses ou mais. Muito pouco. Faço sexo nos finais de semana. Ou nos feriados. Muito pouco também. Vou ao supermercado todas as sextas-feiras. Pego filme na locadora às sextas também. Escrevo de quinze em quinze dias para este blog. Tento comer doce apenas nos fins de semana.

Trabalho todos os dias. E todos os dias me imagino saindo dessa rotina. Me imagino indo segunda à tarde para o cinema, dormindo até meio-dia em plena quarta-feira, nadando às cinco da tarde qualquer que seja o dia, almoçando em uma barraquinha na praia, sumindo por dois dias sem avisar a ninguém, bebendo vinho numa tarde fria, fazendo curso de teatro às 10 da manhã, lendo um livro inteiro em um dia, andando de barco, visitando uma exposição no centro da cidade, indo a uma festa na terça à noite e chegando às 8 da manhã em casa. E mais que tudo isso, imagino por quem, além de mim mesma, me motivaria a fazer tudo tão diferente.