30.3.07

Pequenas coisas

Nasceu normal, com todos os dedos do pé e todos os dedos das mãos. Dois ouvidos, dois olhos, um nariz e uma boca. Fizeram todos os testes: bateram palmas pra ver se ela se assustava, deixaram-na sem ar pra ver se reagia, furaram seu pezinho para fazer o famoso exame. Tudo em ordem.

A família respirou aliviada, tinham um bebê perfeito. Até os seis anos tudo correu muito bem. Brincava na rua com as outras crianças, caía, se machucava, voltava pra casa chorando igual a qualquer um da sua idade. Chegou a hora de ir para a escola. A babá prendeu seu cabelo com duas chiquinhas vermelhas, o uniforme estava impecável, camisa branca e saia-calça xadrez pregueada. No caminho até a escola começou a sentir que um bico tomava o lugar da sua boca. A testa franziu. Quem sabe pressentiu que sua vida iria mudar a partir daquele momento? Não, não seria a escola, a turma, os professores, as notas, as provas os culpados pela mudança em sua vida. Como você vai ver mais pra frente, o destino lhe pregaria uma peça. Nada demais, coisa pouca. Mas, sem dúvida, um incômodo para toda a vida. E até mesmo em sua morte.

Na hora de ir para sala de aula, não quis entrar de jeito nenhum. Agarrou a perna da mãe e começou a berrar. Dentro da sala os amiguinhos formavam uma fila e a professora tentou ser simpática:
- Venha com a titia, você vai ser a primeira da fila.
E lá foi ela, convencida pelo argumento que mexia com sua vaidade, ficou orgulhosa por ser a primeira. E nunca mais saiu do primeiro lugar. Não no sentido de ser a melhor mas sim porque parou de crescer. Começaram os apelidos e chaveirinho era o mais agradável deles. Teve que aprender a lidar com a situação, mas nem sempre foi fácil. Passou pela raiva, pela tristeza, pela depressão, pela irritação e por fim, pela resignação.

Ficou tão pequena que para ir ao salão de beleza tinha que levar sua própria almofada senão era impossível lavar o cabelo naquelas cadeiras onde se encaixam o pescoço. Até os dezoito anos, passava por baixo da roleta do ônibus e sempre davam desconto na sua passagem de avião. Chegou a hora de tirar carteira de motorista, mas teve que desistir, sua perna não alcançava o acelerador. Na boate, o barman se recusou a entregar o drink que ela pedia berrando com a identidade na mão. E teve um dia que não agüentou mais de tanta humilhação. Era o coquetel da empresa onde trabalhava, iriam lançar um empreendimento que mudaria o mercado. No meio da festa, depois de conseguir alcançar a bandeja de bebidas, tentou circular para ver se encontrava o rapaz que trabalhava no telemarketing e, segundo ouviu falar, não passava de um metro e sessenta. Enquanto procurava, sentiu uns tapinhas de leve na sua cabeça e viu que uma mulher muito, muita alta se curvava para falar com ela:
- Tá perdida? Quer que eu ajude você a encontrar sua mãe?
Sentiu o sangue subir rapidamente, coisa que era simples devido ao seu tamanho. As pupilas dilataram, a garganta secou e a boca se preparou para soltar seu insulto preferido:
- Vai tomar no... – desistiu de xingá-la e percebeu que pelo tamanho daquela enorme mulher, ela também deveria ter tido alguns inconvenientes na vida. Como consolo, pensou que pelo menos ela iria para a noite de núpcias nos braços de alguém, ao contrário da moça gigante. Virou-se para sua nova amiga e perguntou:
- Será que você pode me ajudar a encontrar uma pessoa?

Com a ajuda da grandona, achou o amor da sua vida, se casou, teve filhos, netos e, inevitavelmente, chegou a hora da sua morte. E pelo seu pouco tamanho, a funerária recomendou um caixão de criança, que era mais barato inclusive. O marido quase se convenceu, mas sua amiga grandona lembrou: ela não abria mão de ser enterrada num caixão três vezes maior que seu tamanho. E assim foi feito. Uma vez na vida, ou melhor, na morte, ninguém reparou no quanto ela era pequena.

Ilustração: Claudio França

27.3.07

Luana

Após seis meses de namoro, Júlio tomou coragem para falar o que sabia desde o primeiro minuto em que a conheceu.
- Luana, você é a mulher da minha vida.
Então ele fechou os olhos e partiu para dar o beijo que selaria a maior declaração de amor que já havia feito a alguém. Em vez da boca de Luana, Júlio se pegou beijando o travesseiro. Ela havia virado o rosto. A testa, bem ali no meio das sobrancelhas, estava enrugada. Até bico ela fazia. Não era exatamente a reação que ele esperava depois de um momento tão profundo.
- O que foi? Fui precipitado?
- Não.
- O que foi então? Fala pra mim.
- Você me chamou de Luana.
- Ué. Mas é seu nome, olha lá na sua carteira de identidade.
- Eu sei, né, Júlio, eu sei que é meu nome. Mas pela entonação, eu sei que você trocou nossos nomes.
- Trocar seu nome com o de quem?
- Com a da sua ex, da Luana.
- Ah, Luana, só pode ser brincadeira... você tá com ciúmes?
- Ciúmes nada. Tô com muita raiva. O meu Luana você fala assim, prolongando o a, tipo Luaaana. E termina a palavra com um ene bem pronunciado, como se tivessem dois enes. Luaanna, entende? E agora você disse “Luanáá”, com ênfase o último a, uma coisa abaianada. Você falou pra outra Luana que eu sei!
- Mulher de Deus, você tá perdendo o juízo? Os nomes são iguais, não falo de um jeito diferente. Larga de ser paranóica.
- O quêêê? Paranóica? Eu sou é sensível, percebo sutilezas, Júlio. E graças a isso, que você chama de paranóia, eu sei que você cometeu um ato falho.
- Ato falho? Mas a gente nem tinha transado ainda, como eu ia falhar?
- Ai, Júlio, puta que pariu. Ato falho é aquela coisa psicológica, quando você deixa escapar um pensamento que mostra o que realmente quer. Não tem nada a ver com brochar não. Só pensa em sexo, putz.
- Ah, ufa.
- Ufa?! Seria melhor se você tivesse brochado. Agora fui eu quem brochou. Enquanto você não admitir que me chamou de Luanáá, não coloco nem mais uma cereja no umbigo.
- Hunnnnpf... Luana, você tá querendo brigar porque isso te deixa excitada?
- Que saco, Júlio! Tudo é sexo pra você, que inferno!
- Luana... estamos os dois pelados, besuntados de chantilly até onde o sol não bate. Você com um fio dental tão pequeno que nem alcançaria meu siso, e não quer que eu pense em sexo? Você quer que eu pense em quê?
- Quero só que admita seu erro.
- Não errei em nada.
- Tá. Se você não admitir eu nem vou fazer a outra surpresa. Uma coisinha boba que treinei pra mostrar pra você.
- É...? Uma coisinha?
- Era surpresa... esse negócio de pompoarismo, sabe?
- Pom-pom-pompoarismo?
- É... mas não posso mostrar se você não admitir.
- Você quer que eu minta pra você, é isso?
- Não é mentir. É admitir.
- Não... você quer me humilhar. Quer provar que minha vontade sexual é maior que minha dignidade.
- Ih, tá complicando demais.
- É um absurdo, um insulto! Que cara de pau. Sua feminista moderninha, tentando me manipular pra ouvir o que quer, usando sexo pra mostrar que manda em mim.
- ... talvez.
- Lutam tanto pra ter direitos iguais e no final agem como homens. Que mesquinharia, que golpe baixo.
- Pode ser.
- Você deveria ter vergonha desse joguinho pré-histórico, dessa submissão falsa.
- E aí? Vai pedir desculpa ou não?
- Desculpa.
ilustração: www.vidabesta.com

23.3.07

A normal

Me senti diferente quando minha mãe perguntou-me de onde tirava minhas idéias. Não soube responder, mas nada do que ela pensava fazia sentido para mim. Via em minha mãe o modelo da mulher anulada, traída, submissa, acovardada, que se submetia a uma condição por medo de mudá-la, não importando o sofrimento que toda a existência de um casamento feito de mentiras lhe causava.

Vi uma mulher que foi linda se encurvar, se amargurar, secar. Tudo por causa de um amor que não foi correspondido, de um lar que não foi conservado sem máculas. Talvez a resposta para a pergunta que ela me fez estivesse justamente aí: mãe, não quero ser como você.

Sou pouco convencional, mas também não sou nada louca, sou extremamente comum, ordinária, passo despercebidamente nos lugares. Somente desenvolvi alguns pensamentos diferentes dos da minha mãe. Prezo a liberdade e tudo de bom que ela traz. E aceito as coisas ruins também. Acredito que podem existir várias formas de amar, que um relacionamento pode sim ter o sexo como o fator mais importante. Para minha mãe, isso é o absurdo dos absurdos. Então nunca consegui fazer ela entender que gosto de ser desejada e desejar. Aprendi a não ter vergonha disso. Mas por que demorei tanto a perceber isso? A avalanche de conceitos conservadores que eram despejados em meus ouvidos todos os dias não deixavam que as doses de culpa e vergonha que cada ato de prazer provocava se esvaíssem de mim.

Não existe nada pior que culpa e vergonha. E também o medo. É o trio fantasma, principalmente na vida de uma mulher que é mãe, é solteira e ama viver. Aos poucos percebo que me despir de normas e estruturas pré-estabelecidas é o caminho mais tranqüilo que posso seguir. Criei meu filho sozinha e hoje ele é um menino seguro, saudável, bem-humorado, sem medos ou travas. Nesses onze anos acho que consegui separar a mãe da mulher e não me tornar uma só. Ser flexível, mais uma vez, me ajudou. Meu filho me respeita, me admira, me ama e me elogia. Mais do que uma relação de mãe e filho, sou feliz por estar construindo uma relação entre um homem e uma mulher. Somos apaixonados um pelo outro, mas temos nossos espaços respeitados. Ninguém me ensinou a ser assim, mas acredito que minhas idéias tortas me ajudaram muito.

Agora quero aprender a ser também flexível num novo relacionamento. Quero o amor de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. Quero amar no momento em que sentir vontade e de maneiras diferentes, mas sem magoar ninguém. Sei que é difícil ou até impossível, mas gostaria muito de tentar. Minha mãe se fechou para um novo amor por acreditar que é impossível existir um homem fiel. Eu quero fazer o contrário. Quero acreditar que é possível amar e ser amada por pessoas diferentes, no mesmo instante. E ainda assim, ser uma pessoa normal.

ilustração: www.vidabesta.com

19.3.07

Algo bom

Cansei de me sentir pequena, de olhar pra trás e ver nada. Me sinto inútil e estúpida por ter pisado em tanto que plantei. Tanto falo em medir conseqüências, que diabos sei disso? Sempre que penso ter aprendido meus limites, me pego pisando na linha e tendo um déjà vu. Cometendo os mesmos pecados, reclamando da mesma coisa, magoando as mesmas pessoas e afastando elas de mim, numa tentativa subconsciente (que bom que alguma parte do cérebro ainda funciona) de colocar quem amo longe do perigo.

Sou tudo que condeno. Sou a mesmice, a mesquinharia, a água parada. Olho para trás e vejo quanta merda fiz achando ter feito a coisa certa. Não me arrependo, porque é assim que idiotas aprendem. Eles erram, erram, erram novamente até que um dia decidem pensar antes de agir. Sem arrependimento, mas com lamento. Magoar quem se ama deveria ser crime sujeito a penas legalizadas.

Por outro lado, tem também sua pequenez. Se não fosse sua falta de convites para festas, sua cara de desprezo quando me olha, o que seria de mim? Não finjo gostar de você e isso eu sei que é bom em mim. Posso cagar amizades, mas não quero agradar você em troca de um bom-dia dito entre os dentes. Pode guardar seus trocados pra quem sobrevive de sorriso amarelo. Pra quem engole suas grosserias, seu papinho de novo socialite em troca de jantares com gorgonzola, funghi secchi e um vinho do qual você finge entender.

Você fala como se tivesse nascido em berço de ouro, como se cagasse dólar. Você teve catapora, sarampo, diarréias, vomitou. Aposto que tem espinha na bunda, caspa. Você brincou na rua, chegou em casa sujo e não quis tomar banho. Foi criança como qualquer um, mas age como se tivesse nascido na posição em que está. Que espécie de pessoa apaga o passado? Menos mal que eu faço parte dele e sobrou borracha pra mim também.

Em boas maneiras, posso dizer que estou pouco me fudendo pro seu cargo na nova empresa, seu salário alto. Você é cada julgamento que faz, cruel, sarcástico, com uma ponta de inveja tão visível, mas que você pensa esconder bem, que dá medo de ver o resto. E se você ler isso, saiba que é a única manifestação de nojo que farei em sua homenagem, porque me recuso a perder tempo com sua vida. Deixo aqui, em algumas linhas, todo o espaço que você merece pra não ter que novamente tocar em seu nome ou deixar escapar um veneno quando alguém vier falar mal de você. Ah, sinto muito, esqueci de falar antes, as pessoas falam sim mal de você.

Posso ter meus problemas, perder a hora sempre, falar o que não devo. Posso não ser popular, escrever mal e me expor apesar disso. Posso levar a vida toda tropeçando em meus próprios pés, sem saber pra onde vou e muito menos o porquê. Mas se resta algo bom, se tem uma coisa que me faz acordar de manhã e sorrir com esperança, é saber que você não gosta de mim.
ilustração: www.vidabesta.com

13.3.07

Assim será

O vestido novo, o perfume, o salto, nada por baixo. Você vai se lembrar disso e me diga como vai suportar sabendo que não é com você que eu vou estar. Como vai conviver com a minha lembrança saindo do banho, o cabelo preso num coque mal feito, os fios sobrando na nuca, as costas molhadas que não vai ser mais você quem irá enxugar.

Como vai fazer para esquecer que era você quem me cobria todas as noites, por todos esses anos. E como irá acordar e lembrar que não é seu nome que vou chamar baixinho até seus olhos se abrirem. Como viver pensando que não será no seu rosto que irei passar a mão, que não será no seu ombro que deitarei a cabeça, que não será para você que irei sorrir meio de lado. Que não será em seu nome que farei a reserva do restaurante, que não vai ser do seu prato que vou roubar o último pedaço de torta.

Como continuar imaginando que não é você que está ao meu lado enquanto dirijo, que não é em você que penso quando paro em frente à vitrine de lingerie. Me diz com vai ser quando eu rir da piada que não é sua.

Como seguir em frente sabendo que não será por você que estarei esperando na varanda, que não será com você que irei ao cinema, que não será para você que comprarei a blusa que não é a sua cara. Não será seu nome que irei dizer quando estiver trepando, não será você que irá me ver chorando pedindo desculpas por ter errado.

Espero que saiba porque assim será.

8.3.07

Seria bom

Queria me contentar com menos. Não com pouco, mas com menos. Aceitar a rotina como um presente, uma dádiva que pouca gente tem de acordar e viver o mesmo dia todo dia. Ter sempre os mesmos problemas e por isso, ter as soluções certas.

Queria não ter vontade de mudar o cabelo e manter o mesmo corte por décadas. Ou apenas alisá-los. Cabelo liso é tão mais fácil de se cuidar. Queria não gostar de meus cachos.

Queria não enjoar de comer rúcula com agrião. Queria ter algumas manias que não se tornassem irritantes com o tempo, mas apenas bonitinhas pra quem vê.

Queria ser mais calma, quase acomodada. Me contentar em ficar em casa ao chegar do trabalho, ter sexo comum, sem novas posições, palavrões e puxões de cabelo. Queria me satisfazer com missa ao domingo, curso de espanhol às terças e quintas, visitas semanais à alguém da família, ginástica três vezes por semana, unha a cada 15 dias.

Queria não acreditar que estou privando meu gato de uma vida livre ao confiná-lo em um apartamento. E não pensar que ele pode morrer virgem.

Queria não desejar o novo, o desconhecido. Queria não gostar de frio na barriga e não ter a necessidade de experimentar sabores diferentes. Viagens apenas anuais, por 30 dias seguidos. Queria me contentar com excursões, que trazem pacotes prontos e tudo definido. Conhecer as pessoas que vão a esses passeios, ter curiosidade sobre a vida delas, ganhar a faixa de pessoa mais simpática do trecho Vitória x Paraguai.

Queria não gostar de show, de sentir o estômago pulsar junto com o coração quando os graves balançam o chão. Queria me contentar em passar em um concurso público e ser rica.

Queria me contentar com música baiana. Esperar o ano todo pelo Vital ou acompanhar micaretas por todo o Brasil, garantindo minha diversão simples e saltitante, com letras que não me façam pensar.

Queria saber ser mais cínica, porque falar a verdade dá trabalho e preguiça, mas não sei disfarçar. Queria me contentar com o que tenho, porque mesmo que pouco, é o que conquistei.

Queria acreditar em tudo que escrevi aqui, mas a impaciência não chega a esse ponto. Queria poder dizer que preferiria ser medíocre a questionar tanto, mas quem disse que não sou medíocre?

Queria aceitar o contentamento, porque afinal, contentar-se deve ter tudo a ver com ser contente. Mas que merda. Até isso parece pouco pra mim.
ilustração: www.vidabesta.com

1.3.07

Crenças


Você acredita em quê? Acredita, por exemplo, em sinais? Você quer muito um emprego no setor de marketing de uma marca de laticínios. Sua avó o convida para um lanche na casa dela e chegando lá, qual a marca do queijo, do requeijão e da manteiga? Você pensa se é coincidência, se é um mero acaso. Aí, voltando pra casa você cumprimenta seu novo vizinho que acaba de chegar, ele dirige o carro da empresa. Sim, a da marca de laticínios.

Há um tempão você não encontra com sua melhor amiga do primeiro grau. Vocês viviam grudadas, o recreio era só de vocês duas. Aí o tempo passa, os caminhos tomam rumos diferentes e quando você se dá conta, são mais de dez anos sem vê-la, mesmo as duas morando na mesma cidade. Sem saber exatamente por que, você se lembra dela. E na outra semana vocês se reencontram. E de novo e de novo. Isso já aconteceu com você? Como isso se chama?

Você acredita em promessa? Imagine a situação: você precisa escolher um apartamento para comprar. O mês é agosto. Você escolheu morar em Vitória, é lá onde trabalha, sai, faz compras. Passa agosto, setembro, outubro. Você tem até novembro para achar um apartamento e se mudar. Precisa fazer matrícula na escola para o filho e o prazo final está perto. Mesmo rodando o classificado de imóveis de cima a baixo todos os dias, passando as horas de almoço com os mais diferentes corretores (onde eles aprendem a ser tão chicletes?) nada de achar apartamento. Bate o desespero, você se vê indo até o Convento da Penha e se pega fazendo uma promessa se conseguir achar o apartamento desejado até o fim do mês. Em quinze dias você encontra o que procurava. Não em Vitória, mas em Vila Velha. Em um mês o apartamento está comprado e você morando dentro dele. E, acreditando ou não, nem por um momento pensa em não pagar a promessa.

Você acredita que vai ficar a vida toda com uma pessoa só? Acredita que dessa vez é pra valer? Acredita que essa era a pessoa que você tanto procurou? Mesmo quando você começa a ver as coisas de um outro ângulo, quando você se decepciona, quando tudo muda de cor, você ainda consegue acreditar? Ou vira teimosia, insistência, dificuldade em admitir o fracasso? Você conhece um casal de amigos, sai sempre com eles, ouve as histórias de viagem que eles contam, escuta os planos para daqui a cinco, dez e vinte anos. Vai com eles conhecer o novo apartamento que vão pagar por uns bons quinze anos. Pode um amor durar tudo isso? Ou será que as pessoas se agarram aos compromissos para poderem justificar uma relação?

Quando um amor vale uma promessa, um emprego vale todo o seu otimismo em achar que lá na frente há um pote de ouro, mesmo estando submetido a tanto estresse, o que faz você acreditar que um dia as coisas irão mudar? em deus, no diabo, em você, no buda, em maomé, no futuro? Quanto de convicção em um deles ou em todos é necessário para seguir em frente?

E o pior de tudo, mesmo eu não acreditando mais em um monte de coisas, ainda estou disposta a continuar. Não acredito mais no casamento, não acredito que um dia esse país ficará menos injusto, não acredito que um dia vou ganhar muito dinheiro com o que faço. Mas aqui estou eu. E você? No que você acredita para seguir em frente e não desistir de viver?

23.2.07

Meu pai

Meu pai comprou um desses bichinhos que deixam o carro cheiroso e me deu de presente. É um golfinho azul. Um azul meio pálido, translúcido, com certo degradé. Estranho. Nada do meu agrado.

Pensei em escondê-lo, dar pra alguém, dizer que perdi. E assim fui deixando o golfinho num canto do quarto, junto com extratos de banco antigos, malas-diretas que esqueci de rasgar e clipes de papel que sempre surgem de não sei onde. Assim foi. Até o dia em que meu pai perguntou se eu tinha gostado do golfinho. Nem na TPM mais brava eu conseguiria dizer a verdade. Falei que amei e que ainda não tinha colocado no carro por falta de tempo.

No dia seguinte, transportei o golfinho até o carro, deixando tudo que encostava nele empesteado de um perfume inegavelmente feito para carros. Enquanto o pendurava, me senti mal por não tê-lo feito antes. Lembrei de tanta coisa que meu pai fez por mim, tanta coisa muito mais importante que um mero perfumador de carros.

Com cinco anos, quando fui atropelada, ele me segurou no colo e de tão nervoso e trêmulo, me deixou cair no chão novamente. Lá pros dez anos, me colocou de castigo incontáveis vezes e ensinou que vou pagar por tudo que fizer. Mais tarde, por ciúme e também por acreditar que estava me protegendo, não deixou que eu furasse a orelha antes dos 14, usasse batom antes dos 15, fosse a uma boate antes dos 16. E quando tinha 25, discuti porque queria dormir na casa do meu namorado. Entre gritos e muita discussão, começaram as lágrimas e ele disse algo que nunca esqueci:
- Quando você era pequena eu sabia como te proteger. Agora que cresceu não sei o que fazer.
Ele me abraçou rapidamente e sem jeito, como sempre faz, mas nunca mais tocou no assunto e aceitou minha decisão.

Meu pai me ensinou a gostar do flamengo, a comer pão com uva, a amar macarrão. Torceu muito quando participei de uma corrida no colégio e me abraçou quando perdi. Se tornou uma pessoa mais divertida com o tempo e com a aceitação de que sou adulta. Anda meio surdo, continua marrento, gritão e xingão, mas é o homem que sempre esteve ao meu lado, amando e protegendo ao seu modo. E claro, como esquecer, o homem que meu deu aquele golfinho lindo, pendurado ali no meu retrovisor.

ilustração linda linda do radael, que agora também é pai:)

16.2.07

Tudo pára



O relógio da cozinha marcava dez pras nove. Mas na verdade, a hora não era essa. A falta de pilhas atrasou o tempo. E o próprio relógio de fundo laranja marcava um outro tempo, do qual ela se lembrava com saudade. Era o tempo das coisas no lugar. Tempo em que as pilhas eram trocadas exatamente na hora em que paravam de funcionar para que nada, nada parasse no tempo por falta da vontade e de energia, seja qual fosse a fonte.

Sentada sozinha no banco de madeira da mesinha da copa, tentava em vão espantar o sono que iria fazer parte de todo o seu dia, deixaria seu olhar ainda mais sem brilho e despertaria a pena dos que iriam encontrá-la na reunião marcada para o início da tarde. – Que hora mais ingrata para uma reunião, pensou desejando desmaiar, ter um colapso, ficar toda torta para não ter de ir trabalhar. Olhou para a xícara branca de cerâmica comprada com tanto gosto para formar um conjunto bonito no armário da sala e um dia, se transformar na oportunidade de convidar alguns amigos para um café na varanda, em meio a plantas tropicais que havia ganhado no último verão.

Pensou no sentido de todas essas bobagens que acumulava em sua casa, em sua cabeça e em seus armários. Tinha um plano para tudo que pensava, mas não conseguia colocar em prática nenhum deles. O relógio, as plantas, as xícaras, o sofá, a tv, as cores da parede pertenciam a um desejo de deixar a vida mais intensa, mais divertida, com fotos que iriam registrar o sorriso de todos aqueles que faziam parte quase de uma confraria, amigos de fazer inveja, tão bacanas e modernos que só poderiam existir na sua imaginação.

E assim viveu imaginando que um dia tudo poderia acontecer da forma que havia planejado, e que nem ao menos sentiria aquele típico nervoso das pessoas que organizam festas e sofrem de ansiedade até que todos os convidados cheguem, felizes e com vontade de se divertir, sem hora para ir embora.

Mas entendeu que o tempo passou, as plantas murcharam, o relógio parou e as xícaras ficaram com o fundo amarelado dos cafés que tomou sozinha, todos os dias na mesa da cozinha. Queria comprar pilhas novas para o relógio, mas não tinha mais vontade de fazer nada funcionar. Nem o relógio nem sua vida.

12.2.07

Tanto amor



Por um segundo desejei que você morresse logo. Quis antecipar a dor que um dia será inevitável. Quis que você morresse, pra eu não ter que viver mais nem um minuto ao seu lado, cultivando tanto amor. Cada dia a mais, seria uma nova lembrança triste de como fui feliz um dia.

Não quero que duvide do quanto sou apaixonada. Nem imagino como seria chegar em casa sem te encontrar. Adoro dividir a cama com você. A cama e até o banheiro, quando você chega querendo usar a pia enquanto faço xixi. Acordar de manhã com você me chamando é começar o dia de bom-humor.


Mas me desculpe. Por aquele segundo, aquele mesmo, em que você me olhou tão fixamente que até taquicardia eu tive, eu desejei que você morresse de vez. Lamentaria pelo que ainda não teríamos vivido, choraria e sofreria por meses. Mas prolongar sua vida é aumentar o sofrimento da perda por anos.


Me imaginei, naqueles milésimos de segundos, ajoelhada, cotovelos no chão, olhando para sua lápide, aliviada por tanto amor ter acabado. Por que onde vou colocar ainda mais amor, se ele continuar crescendo assim? Não cabe em mim. Mas caberia num túmulo. Ali, escuro, quieto, trancado.


Se você morresse logo, eu poderia dizer a todos o quanto amei e fui amada e estaria livre para viver uma vida plena, em que a busca por tanto carinho não seria mais necessária.
Por aquele segundo pensei em deixar a porta da varanda aberta e entregar seu destino a Deus. Mas um segundo depois, talvez até menos, o arrependimento de ter desejado sua morte prematura me tomou num gole, e sentei porque não agüentei o peso da minha estupidez.

Engoli minha covardia, olhei para o céu azul, tão azul quanto seus olhos, e só encontrei motivos pra sorrir. Um dia você vai morrer. De repente, eu até vá antes. Mas não adianta pensar agora. Por um segundo, quero acreditar que somos eternos.


ilustração: www.vidabesta.com

7.2.07

Amigo pra chamar de meu


Acho que é a primeira vez que sinto essa necessidade, essa vontade que fecha a garganta e faz saltar as veias das têmporas. Não tenho grandes segredos, não tenho carência ao extremo, a não ser quando acaba a cartela de anticoncepcional, não choro sem necessidade. Mas agora, juro, preciso muito de um amigo, um amigo que seja homem e que como homem seja capaz de fazer entender por que um outro homem me faz sofrer tanto.

Quero um amigo que seja capaz de dormir comigo sem querer me comer, sem querer ver meus peitos. Que acorde no meio da noite para espantar os mosquitos que voam pelo quarto zumbido a verdade nos meus ouvidos: é impossível estar em paz mesmo quando se dorme. Que estique minhas cobertas até meus ombros para que eu não trema, nem de frio nem de medo das coisas que penso sem parar. Pensamentos que não me deixam, por nada me largam e me levam para mais longe de mim mesma.

Esse amigo precisa me buscar para ir ao cinema, à praia, pra sentar naquele bar que a gente adora e o garçom já sabe nosso nome e trazer pra gente todas as cervejas geladas que houver na geladeira. E na hora de me deixar em casa ter toda certeza do mundo de que eu irei ficar bem sozinha e que não vou chorar baixinho com a cara no travesseiro até pegar no sono de tanto cansaço de sofrer.

Para esse amigo vou guardar o melhor de mim, vou ser sincera e dizer a ele a verdade que ele precisa ouvir, mas vou fazer isso de mansinho, para ele também não sofrer. Vou ajudá-lo a comprar roupas e combinar meias com sapatos. Vou a sua casa colocar suas coisas em ordem, vou, pelo menos uma vez, deixar um jantar pronto para quando ele chegar do trabalho. Vou atender todas as ligações e responder todos os e-mails que você mandar. Prometo que não vou ser grudenta nem inconveniente. Não vou ter ciúmes de suas namoradas, mas também não vou deixar que elas tratem você mal.

Não vou ligar se um dia você precisar de sexo, pode me usar se eu não estiver triste nem apaixonada por ninguém. Prometo não ficar brava se você se masturbar pensando em mim, por pura falta de outro alguém para pensar. Não se esqueça do dia do meu aniversário, não precisa de presente, só mesmo um alô provando que você se lembrou. Avise ao seu novo amor que você já me conhece há muito tempo e que não há razão para ciúmes fúteis e supérfluos. Convidem-me para o casamento de vocês, para ser madrinha e me mande um postal da lua de mel. E jure pelos filhos que você tiver, que nunca vai achar que eu estou gorda.

2.2.07

Perfeições

Eram feios de dar dó, mas nem mesmo quando se conheceram viram isso um no outro. Ele sempre desejou as pernas dela, tortas e cheias de marcas de mordidas de mosquitos, envolvendo seu tronco desproporcional e exageradamente cabeludo. Imaginava o quadril extremamente fino e ossudo dela colado em sua pélvis.

Na primeira noite juntos viam apenas belezas. Ela colocava as mãos dele em sua bunda, tão escassa de carne, mas de onde ele tirava tudo o que precisava. O pescoço curto e grosso dele não a impedia de passar seus lábios finos por cada centímetro de pele. E os narizes avantajados não eram obstáculo para beijos que envolviam dentes tortos e bigodes, de ambos os lados.

Em suas imperfeições eram harmônicos. E isso fazia o desejo aumentar. Não se importavam com olhares, comentários feitos entre risinhos. Já estavam acostumados a conviver com aparências totalmente afastadas de padrões de beleza.

Juntos, sentiam-se fortes. Riam daqueles que corriam suados pela praia, que comiam apenas folhas no almoço, na tentativa de atrair alguém. Eles não precisaram disso.

Ela não foi a noiva mais linda. Ele não foi o príncipe dos sonhos. Não para os que viam. Mas eram, um para o outro, a personificação do amor. O que eles viam, ninguém mais enxergava. A aparência protegia aquele amor de invejas e cobranças. Ninguém perguntava sobre filhos. Tinham pena de imaginar os genes herdados pela criança.

Envelheceram juntos. Rugas nunca foram problemas. A atração sexual existia sim e nunca acabou. Nem de Viagra precisou. O amor nunca esteve ali na pele, nos músculos, na formação óssea, nos cabelos. O amor estava onde poucos vêem porque vivem distraídos com perfeições.

26.1.07

Romance à moda moderna


Ele não é nada romântico. Nunca falou eu te amo de sopetão. Jamais fez planos impossíveis. Jurar amor eterno então, hunpf.

No início eu achava que era apenas timidez e me consolei com essa desculpa, criada por mim mesma. E a ausência de romantismo não me desiludia. Apenas fazia pensar que era uma espera, que seria devidamente compensada com o tempo. Se ele dizia que eu estava bonita, agradecia, mas ficava esperando um é a mais linda que já conheci. Se ele sorria, aguardava um abraço desses de cansar de ficar na ponta dos pés.

Esperava o romantismo se manifestar e perdia todas as demonstrações mais sinceras de afeto. Idealizar o amor foi um desperdício de tempo. Queria ouvir declarações prontas, promessas absurdas, frases dignas de fim de filme. Esperava refrões de músicas, versos únicos. E querendo tanto, a frustração só era maior.

Queria exageros ditos de um jeito bonito, que parecessem exclusivos. Durante meses, ele dizia verdades e eu buscava clichês. Não entendia que o amor também estava escondido em silêncios e olhares inocentes. Em palavras comuns, sem lágrimas, comoção excessiva, sem Almodóvar.

Enquanto ele era sincero, eu queria mentiras. Queria aquilo ali que vi na tv. Como chegar no supermercado e pedir um amor pronto. E ceguei pro amor sendo construído bem na minha frente. Jogava expectativas para cima dele, tentando abafar inseguranças minhas. Vai ver não reconheci porque não conhecia, tinha referências erradas, entortadas por conceitos surreais de amor e romantismo. Bom que percebi a tempo de me deleitar. Sei que seus sorrisos, quando vêm, são espontâneos. E até seus acessos de sinceridade não me doem. Fazem sorrir.
- Tá com saudade?
- Não, ué, nos vimos há 30 minutos.

O que me deixaria arrasada, agora me faz feliz. Sinto alívio por entender que amor não pede por exclusividade. Amor exercitado com leveza e suavidade não sobrevive sozinho. Não é a base da vida, não rege vontades e desejos, mas se mistura como açúcar em café, tirando o amargo e aumentando o sabor.

Claro que ainda peço afagos quando me cansa dirigir ou quando me sinto feiosa. Mas que venha como dengo e não como uma massagem de ego descarada, um predadorismo romântico, que busca usar o outro para se alimentar.

Como diz minha mãe, a gente não nasce grudado em ninguém. Só na mãe mesmo, e ainda assim, somos separados imediatamente. Viver a dois é viver bem sozinho. E mesmo com medo de admitir e depois me arrepender, acho sim que posso aprender.
Ilustração do romântico à moda moderna, Everson Cabideli.

19.1.07

Desventura


Tenho tanto para ler, escrever e sentir que cansei de tudo isso, chega de palavras bem colocadas, pontos nos finais, vírgulas que separam orações, idéias e separam-me do que mais quero, ficar quieta. Chega de pensar tanto e tentar traduzir e seduzir com linhas retas e curvas. Que se lasque tudo isso, azar o seu, vou chutar esse monte de asneiras e vai ser já. Cansei de pensar em você e querer que você me queira, cansei de esperar um convite seu ou uma palavra que possa se encaixar na outra: — Gostaria de tomar um café comigo? — Tomaria tudo com você, café, chá, cachaça, banho de mar, de piscina ou de espuma.

It’s enough, diria meu professor de inglês. Ou c'est tout, diria Florance, a professora de francês. Pra mim, é chega mesmo. Que mais tenho que fazer para você me notar, hein?
Comprei um hidratante labial com colágeno para deixar meus lábios macios pra você beijar. Mas o tal batom milagroso tem cheiro de percevejo, você nunca vai conseguir me beijar se eu estiver usando isso. Acontece que nem querer me beijar você quer, nem com batom-percevejo nem sem.

Escutei as músicas, li os livros, conheci os lugares de que você gosta, segui você, mas você não me viu, então que se dane. Vou procurar outro para me distrair enquanto o mundo dá voltas ao meu redor e me enrola de tal forma que um ano não traz sequer uma, umazinha pequena mudança na minha vida, no dia após dia que passa por mim sem ao menos acenar para eu achar que as próximas 24 horas serão tão diferentes e intensas quanto o seriado da TV.
Chega de me torturar e suspirar por você, queria muito mais, daria muito mais. Daria da forma que você quisesse, é só mandar que eu faço, direitinho, não sou moça direita, não tenho vergonhas nem pudores. Não, deixa pra lá, já disse que não quero mais – preciso acreditar que sou eu quem está dispensando você no meu cérebro recheado de porcarias. Queria viver um pouquinho só, um tantinho de nada, para poder acumular histórias mais emocionantes do que as que conto agora. Quer uma aventura com direito a frio na barriga, chocolate quente e beijos molhados? Desculpe, tarde demais.

12.1.07

O maior amor do mundo

Começou chupando seus dedos, um por um, devagar, como uma tarde de domingo. Mordiscou-lhes as pontas com uma leve pressão, passou-lhes a língua agora áspera tentando refazer o desenho de cada uma das digitais. Ele suspirava; também não tinha pressa. Esperaram tanto por isso que não pensavam em mais nada a não ser contar os segundos que permaneceriam juntos. Ela deixou os dedos úmidos e começou a brincar com seus mamilos duros fazendo círculos molhados em volta deles, sugando-os com a força necessária, apertando-os com delicadeza.
Ela imaginou essa cena por dias e dias, e tanto foram eles que o tempo não pôde esperar por ela e teve que agir. Deixou seus cabelos mais brancos e com menos brilho, tirou a força das suas coxas, tornou seus seios mais confortáveis. Ele com nada disso se importou. Tinha sua amada pronta em sua cabeça, idealizada, perfeita, de corpo e de alma. Amavam-se tanto que nem o tempo faria estragos no que sentiam um pelo outro. Sabiam, sempre souberam, que o amor que existia entre eles não era para ser vivido, era somente para se sentir.

Não iriam dividir a vida juntos, não teriam problemas, não iriam sofrer, não machucariam um ao outro. Apenas se entregariam à vontade de se olhar, de se tocar, de dormir com as pernas enroladas umas nas outras. Quem sabe, um dia, conseguiriam viajar juntos, pisar juntos pela primeira vez em uma terra, areia ou grama que nem um dos dois ainda tivesse pisado. Este lugar seria deles, assim como uma nova música também seria deles – é sempre assim com os casais apaixonados. E apaixonados eles já eram há muito tempo. Se amavam por palavras, por vozes, por olhares trocados furtivamente.

Agora ele puxava-lhe os cabelos enfiando a mão pela nuca, metendo os dedos entre os cabelos fazendo-a se virar de uma só vez. Ela cedia a cada movimento, como um balé, um tango, um ritmo perfeito onde cada um sabia seu papel. Ela pensou como era grata por tudo que já havia vivido, só assim poderia estar em paz com o que vivia agora, a isso chamam de maturidade e pela primeira vez experimentava as delícias de não ser mais tão nova. Ele ria do seu sorriso e da sua felicidade. Ria com ela, das coisas que dizia, de toda a leveza que tinha. Era a mulher que ele nunca teria; ela o amaria pelo resto da vida.

6.1.07

Nós

Onde desato este fio de lembrança de você que vem toda vez que ouço a canção, sinto o cheiro, mordo qualquer pedaço de tantas coisas?
Ficamos nós, amarrados um ao outro, sem saber como desenrolar cada um dos poucos restos de nós mesmos que ainda estão embolados formando um novelo de cor indefinida.
Sobraram nós que nos atam embaixo do mesmo teto, do mesmo lençol, do mesmo guarda-chuva. Quanto tempo demora para soltar todos os fios que ficaram gastos pelo tempo, puídos pela dor e salgados por tanta lágrima? E que mesmo assim não se soltam, presos por linhas feitas de histórias que agora nem precisam fazer sentido. E melhor assim. Então me ajude aqui com mais esse nó, esse que ainda segura forte, aperta, machuca mas que a gente não quer soltar de jeito nenhum. Porque tantas vezes trançamos pernas, braços e bocas tão bem entrelaçados que não conseguimos entender porque nada mais se encaixa como antes.
Um de nós se soltou mais que o outro e agora vai até onde consegue chegar, mesmo sem querer, mas sabendo que precisa se desenrolar. Até achar o próximo nó.

30.12.06

Quereres de ano novo

Quero 2007 com gosto de Nutella, de cappuccino que só você faz, de tempero da minha mãe e dos biscoitos da minha vó.

Quero um 2007 revigorante que nem mergulhar no mar, secar no sol, descansar na sombra. Que nem garrafa de cerveja sendo aberta, espuma no buço e língua limpando.

Quero 2007 com som de criança gargalhando, de ginásio lotado, de chuva na janela. Aquele barulhinho de teclado digitado rapidamente, de chaveiro balançando quando alguém chega em casa, de apito no ouvido voltando de festa.

Quero 2007 com cheiro de bolo no forno, de dama-da-noite, de nuca de namorado. Quero 2007 cheirando a lençol limpo, óleo de pitanga e papel recém-impresso.

Quero 2007 com momentos simples, como subir no elevador sem ninguém, achar vaga no shopping e encontrar aquele sapato pela metade do preço.

Quero 2007 pingando como picolé na camisa, virando bola de chiclete, voando com balões, levantando os braços na montanha russa.

Quero 2007 fugaz como decolagem de avião, arrebatador como lágrima de alegria, redentor como um pedido de desculpas sincero.

Quero um 2007 supreendente como ganhar flores sem motivo, encontrar dinheiro no bolso, receber carta escrita à mão.

Quero um 2007 miraculoso como acordar sem ressaca depois de abusar tanto, não estragar as unhas depois de fazê-las, dormir de cabelo molhado e acordar sem parecer a maria bethânia.

Quero um 2007 acolhedor como abraço de mãe, mão dada no cinema, carona em guarda-chuva.

Quero um 2007 quente como suco de fruta mordida escorrendo pelo queixo, firme como sua mão apertando minha cintura, menos complicado que abrir um cinto.

Quero 2007 com mais vocabulário, menos colesterol e muitas promessas.
Quero 2007 de branco e verde e talvez dourado.
Quero tudo, mas só um pouco. Quero menos trocadilhos.
E finalmente, quero textos que terminem bem.

22.12.06

Imaginado


Hoje passei o dia olhando pra você. Mesmo nos momentos em que você não estava na minha frente. Construí cada pedaço seu, de dedo a umbigo, de nariz a tornozelo, de cabelo a panturrilha. Meu mal é inventar paixões platônicas; e essa agora — muito perfeita, muito direita, muito real. Penso, sonho, sinto, vivo com você aqui, no meio de todos meus pensamentos, dos mais nobres aos mais profanos.

Profano, não. Ainda não cheguei lá. Sinto o amor romântico, apenas, com todos os sintomas: frio na barriga, tremor, vergonha e de repente fico muda. Seria melhor virar puta. É você passar pra eu esquecer todo o repertório que passei por horas, tudo some, os músculos se paralisam, parece que tenho 12 anos. Só com uma diferença: com 12 anos já teria ido até você e falado todas essas coisas. Entendeu por que seria melhor eu virar puta? Toda essa agonia iria acabar no primeiro motel vagabundo, na primeira luz de néon piscando na beira do asfalto.

Preciso dizer o quanto você me faz bem. Melhora o meu humor, me faz ter vontade de emagrecer, de passar sombra nos olhos, de comprar vestidos, de viajar. Me coloca sorriso nos lábios e acelera minha pulsação. Vou amar você assim, sem ciúmes, sem cobranças, sem jogos, sem choro. Este último guardo só pra mim, sufocado, dissecado, suprimido para que você não saiba que mesmo este amor, que só existe em mim, também faz doer.

Não quero que você saiba de mim mais do que imagina. Não quero dividir com você minha solidão nem tampouco quero a sua. Juntar duas solidões não é amar. Amar sozinho também não. Como não tenho escolhas não quero que você as tenha também. Viu como sou egoísta? Por favor, não veja mais nada. Tudo isso vai terminar exatamente como começou. Assim que eu conseguir domar meu coração que me desobedece toda vez que vejo você.

15.12.06

Brigas


Antes mesmo de abrir os olhos senti meu coração murchinho. Estava zonza, sonolenta. Não conseguia entender o motivo daquela dorzinha. Apenas sentia um aperto.
Provavelmente um sonho ruim, pensei. Tentei descobrir enquanto virava de barriga pra cima com toda a lentidão do mundo. Então lembrei. A gente brigou ontem. Eu não queria, você não queria. Quem quer brigar?

Quando tinha uns 12, 13 anos, briguei feio com minha mãe. Eu escutava o jogo do flamengo no rádio quando meu irmão vascaíno chegou perto e tirou o fio da tomada. Fui lá e coloquei de volta. Ele insistentemente desligava o rádio. Virou uma pancadaria, digna de maracanã. Minha mãe foi ver o que estava acontecendo e não pensou duas vezes. Confiscou a prova do crime. Fiquei sem saber como o jogo havia terminado e parei de falar com minha mãe.

Sentia raiva por ela nem mesmo ter procurado saber o que estava acontecendo. Meu irmão, que estava errado, conseguiu exatamente o que queria. Fiquei uma semana sem falar com ela. Chorava de tristeza, mas me recusava a procurá-la. Será que ela não percebia?

Não. A verdade é essa. Ela não sabia que o jogo do flamengo tinha tanta importância pra mim. E é disso que brigas são feitas. Quem se sente injustiçado espera desculpas e quem, teoricamente foi injusto, não vê motivos pra se desculpar por não ter idéia da dimensão do estrago.

Meu pai pedia pra eu falar com ela. Dizia que ela chorava muito. Eu também sofria. Apesar dos anos, sinto a dor ainda. Sabia do sofrimento dela, ela sabia do meu. Sabia que ela, assim como eu, queria me abraçar e esquecer tudo. Mas ninguém movia uma peça. E ambas tinham suas razões.

De volta à minha cama, onde eu despertava devagar, sentia esse mesmo gosto. Um ranço, um rastro amargo. Uma ressaca. Pensava quantas vezes mais teria que passar por uma briga vaga. Medir sentimentos, sendo que eles são imensuráveis. Exigir desculpas, quando o outro não vê necessidade de pedir. Entender que não se trata de achar culpados, mas de dizer como se gosta ou não das coisas.

Levantei e fui até minha mãe. Perguntei se ela lembrava da briga de anos atrás. Nem precisei dar mais detalhes.
- Lembro.
- Quem foi que quebrou o silêncio?
- Fui eu.
- Mas mãe, eu tinha razão.
- Não vamos falar disso. Certas coisas não se discutem.

Mãe sabe o que diz. A minha então sabe tudo. Ouvi o que precisava para encarar a ressaca que me acompanharia durante uns dias, até tudo voltar ao normal. Da próxima vez quero lembrar disso. Discutir o que não se pode mudar é dolorido, inútil, desgastante. Algumas feridas não saram. Depois de abertas, só o tempo ajuda a ignorá-las.

Mesmo mais nova, fiz uma escolha que deveria repetir mais vezes. Ficar em silêncio.

Ilustração do Galvão: www.vidabesta.com

8.12.06

Saudade ultrapassada



Engraçado esses dias em que acordo saudade. Penso em todos que conheci, em todos que contei segredos, em todos que beijei, em todos que chorei, em todos que vivi, em todos que deixaram pedacinhos em mim e que eu, também assim, deixei pedaços. Mas talvez tão pequenos que ficaram invisíveis e esquecíveis. Quero contar pra você, que conheci na 4ª série, que hoje vivo de redação. Ah, sim, na escola eu já gostava e lembro de ganhar um chocolate por ter feito uma redação muito bonita. Também tive meu nome escrito no caderninho de ouro. Quero contar pra você que foi meu primeiro namorado que tenho vontade de rir quando lembro que você me beijou depois da festa junina da escola, eu de vestido de chita vermelho e fita no cabelo, bochechas rosas de tanta vergonha de nunca ter beijado. Quero contar pra você que não moro mais em Brasília, que moro em Vitória e que pode um dia me visitar, mesmo com mulher, filhos, família. Quero contar pra você que era a amiga da minha rua, que em Brasília se chama quadra, que enquanto você colecionava papel de carta, eu colecionava etiquetas de lojas porque gostava das formas e cores. Formas e cores que hoje se chamam logomarca e que acho que sim, eu já tinha um pezinho aqui nesta profissão que escolhi.

Nestes dias em que acordo assim, com o passado colado no meu rosto, marcando tanto quanto o travesseiro aquilo que passou e de que sinto muita saudade, me sinto só, órfã, pouca, pequena. Mesmo que essa saudade que é muita caiba em apenas algumas horas, até o dia tomar forma, o telefone tocar, os problemas aparecerem e as lembranças voltarem pra lá de onde vieram. E essa saudade, dizem, é verdade sim, é coisa de idade isso. Mas se é de idade, meus amigos lá da minha rua, que brincavam de queimada e carniça, que corriam depois de tocar a campainha de todas as casas, que roubavam pequenas balinhas na loja de doces do outro lado da rua, que assustavam todo mundo quando era dia das bruxas, que pegavam amora, abacate e manga nas árvores, esses mesmos que também têm hoje a minha idade, será que pensam em mim? Será que lembram que lá na garagem da minha casa a gente fazia festa americana e dançava música lenta?

Queria ligar para cada um de vocês e dizer que tenho coisas novas pra contar, que entre uma lembrança e outra, a gente toma uma cerveja e ri vai ser legal ficar quase bêbado com alguém que conheço há muito tempo e que ocupou uma parte tão importante da minha vida. Minha preciosa infância, que passei correndo na rua, brincando aos domingos até começar o Fantástico e aí entrar em casa, tomar banho, jantar e dormir. E acordar agora pra lembrar que nunca, eu acho, terei coragem de dizer todas essas coisas pra você, que era meu vizinho, que era da minha turma na escola, que era minha melhor amiga. Porque me sinto muito envergonhada de dizer tudo isso e de sentir também. Porque se é coisa de idade, não quero parecer ultrapassada. Moderno é não sentir saudade de vocês? Se assim for, não quero ser moderna não.

Ilustração: Claudio França