23.3.06

Nulo


Ela prometeu que não esqueceria mais a toalha molhada na cama, não deixaria louça acumulada na pia e que, tudo que abrisse, fecharia.
Ele prometeu que beberia menos, que ouviria Motörhead bem baixo e só veria os amigos quando ela deixasse.

Ela jurou que não o chamaria mais pra ir à missa, que falaria menos ao telefone e que nunca mais atrasaria.
Ele jurou escutá-la mais atentamente, não discutir política com o sogrão e parar de arrotar nas refeições.

Ela disse que pararia de rir tão alto, que compraria menos sapatos, se era isso que ele queria.
Ele falou que dirigiria mais devagar, que deixaria o futebol pra lá e voltaria a malhar.

Um dia se olharam e viram que não havia mais nada a pedir. Mais que isso, que já não conheciam nem ao outro, nem a si.
De tantas afirmações e exclamações, sobrou apenas uma pergunta: cadê a pessoa com quem me casei?

Ilustração: Ramon Alves (http://semsabersonhar.blogspot.com)

4 comentários:

Duas disse...

a difícil arte de respeitar a tal individualidade. i loviurrr, docinho :)

Duas disse...

Oddy, i loviurrrr too.
(a outra Duas)

Prot disse...

complicado esse post!

e o autor? disse...

Coincidência. Algo muito antigo veio na minha cabeça depois de ler esse texto. Tá aí se quiserem ver. Beijos.

Do amado

Ele avisou que não sabia chorar
Mas que ainda assim, acima de tudo,
Era capaz de amar

Ela disse saber chorar
E que sem isso ninguém no mundo
Seria capaz de amar

Ele pediu pra ela parar
E prestar atenção um segundo
Ele queria provar

Ela disse para ele andar
Pois ainda tinha que caminhar muito
E queria chegar

Se ela tivesse dado ouvidos
Talvez se entregasse mais

Se ele tivesse insistido
Talvez tivesse sofrido mais

Se ela tivesse entendido
Não seria sozinha jamais

Se ele tivesse corrido
Agora estaria cansado demais

Se tivessem conseguido
Não precisariam andar mais