15.12.06

Brigas


Antes mesmo de abrir os olhos senti meu coração murchinho. Estava zonza, sonolenta. Não conseguia entender o motivo daquela dorzinha. Apenas sentia um aperto.
Provavelmente um sonho ruim, pensei. Tentei descobrir enquanto virava de barriga pra cima com toda a lentidão do mundo. Então lembrei. A gente brigou ontem. Eu não queria, você não queria. Quem quer brigar?

Quando tinha uns 12, 13 anos, briguei feio com minha mãe. Eu escutava o jogo do flamengo no rádio quando meu irmão vascaíno chegou perto e tirou o fio da tomada. Fui lá e coloquei de volta. Ele insistentemente desligava o rádio. Virou uma pancadaria, digna de maracanã. Minha mãe foi ver o que estava acontecendo e não pensou duas vezes. Confiscou a prova do crime. Fiquei sem saber como o jogo havia terminado e parei de falar com minha mãe.

Sentia raiva por ela nem mesmo ter procurado saber o que estava acontecendo. Meu irmão, que estava errado, conseguiu exatamente o que queria. Fiquei uma semana sem falar com ela. Chorava de tristeza, mas me recusava a procurá-la. Será que ela não percebia?

Não. A verdade é essa. Ela não sabia que o jogo do flamengo tinha tanta importância pra mim. E é disso que brigas são feitas. Quem se sente injustiçado espera desculpas e quem, teoricamente foi injusto, não vê motivos pra se desculpar por não ter idéia da dimensão do estrago.

Meu pai pedia pra eu falar com ela. Dizia que ela chorava muito. Eu também sofria. Apesar dos anos, sinto a dor ainda. Sabia do sofrimento dela, ela sabia do meu. Sabia que ela, assim como eu, queria me abraçar e esquecer tudo. Mas ninguém movia uma peça. E ambas tinham suas razões.

De volta à minha cama, onde eu despertava devagar, sentia esse mesmo gosto. Um ranço, um rastro amargo. Uma ressaca. Pensava quantas vezes mais teria que passar por uma briga vaga. Medir sentimentos, sendo que eles são imensuráveis. Exigir desculpas, quando o outro não vê necessidade de pedir. Entender que não se trata de achar culpados, mas de dizer como se gosta ou não das coisas.

Levantei e fui até minha mãe. Perguntei se ela lembrava da briga de anos atrás. Nem precisei dar mais detalhes.
- Lembro.
- Quem foi que quebrou o silêncio?
- Fui eu.
- Mas mãe, eu tinha razão.
- Não vamos falar disso. Certas coisas não se discutem.

Mãe sabe o que diz. A minha então sabe tudo. Ouvi o que precisava para encarar a ressaca que me acompanharia durante uns dias, até tudo voltar ao normal. Da próxima vez quero lembrar disso. Discutir o que não se pode mudar é dolorido, inútil, desgastante. Algumas feridas não saram. Depois de abertas, só o tempo ajuda a ignorá-las.

Mesmo mais nova, fiz uma escolha que deveria repetir mais vezes. Ficar em silêncio.

Ilustração do Galvão: www.vidabesta.com

11 comentários:

Drix disse...

eu acho q o grande problema da gente é esse. esperar q o outro entenda. as vezes um simples "não gostei disso" faz com q tudo se resolva!

José Arnaldo disse...

Oia, vou dizer a verdade. O meu dia não seria o mesmo sem vocês, meninas. Ainda mais quando este dia é um domingo de trabalho. Aliás, vou começar a contar sábados e domingos como dia útil.

É muito bom quando eu entro e tem uma nova anedota escrita. Olha gente, estou morrendo de saudades de vocês, muita mesmo. Como não entro mais no msn, o meu único meio de exteriorizar os meus sentimentos é através dos comments que deixo. Mas enfim, a vida é assim, como diria blue eyes, thats life.

Mas é isso, um beijo a todas e a todos. E como sempre, na esperança de um dia inventarem um trem-bala que ligue SP a ES.


Bjs.

PS.: Escrevam mais por semana.

Anônimo disse...

Gostei da ideia, escrevam mais por semana... isso aqui é bom demais! Descobri por indicação de um amigo e fiquei viciado...
Parabéns!!

Duas disse...

oi anônimo, quem é você?

oamareloeonada disse...

eu ainda acho que deveria existir remédio para coração apertado, frio na barriga, dor de cotovelo, ressaca depois de briga...seria tão mais fácil.

Duas disse...

O inventor ficaria rico:)
Por enquanto, o único remédio é evitar a briga. E pra isso, só mesmo o bom e velho contar até 10.
bj. val.

Bruno R. disse...

é... muitas vezes as pessoas não têm noção da dor que são capazes de causar. infelizmente isso nunca acaba. nunca.

Bruno R. disse...

opa, esqueci de comentar que adorei o layout novo. gosto desse cinza. aliás, é da cor do blog da nave, hehe. e aquela ilustra ali em cima ficou ótima. :-)

beijo pras duas moças.

Primo disse...

Lilaaaaaa!!! Kct.. só qdo você colocou o endereço do blog no msn que vi que vc tinha um blog. Estou ainda lendo todos os antigos que ainda não li... muita coisa, muita coisa boa... li em um comentário a idéia de um livro - eu DEFINITIVAMENTE aprovo a idéia. Estou orgulhoso de vc e da Val (mesmo que ainda não a conheça). Beijos p/ as duas e saibam que de agora em diante vcs tem audiência internacional.

Beijos, Primo.

Thaisiinha ;) disse...

As vezes palavras dita na hora errada, uma briga banal, pode fazer grandes estragos, e o pior é quando ficamos na espera de que a pessoa que nos maguou nos procure pra se desculpar, quando isso não acontece , eu particularmente me sinto mal, mas como sou orgulhos penso muito antes de procurar e eu mesma tentar uma reconciliação . Então pra não provocar maiores estragos, o silêncio é uma otima dica :)

amei o texto ;*

Daia disse...

É mas é ainda pior é qdo simplesmente não se discute,,,não dá a possibilidade p/ o oyro falar...Apenas foge como um covarde,restando apenas o vácuo.