18.3.10

O último

Todas as sextas ocupava a coluna de crônicas do jornal. Era lida por milhares de pessoas e recebia cartas que desejavam desde longa inspiração até pequenos bilhetes com ameaças assustadoras. Sabia que seria assim quando aceitou a proposta para ser cronista. Gostava de falar o que pensava. Ou melhor, falava sem pensar por justamente dizer tudo que lhe vinha à cabeça, sem filtros, disfarces ou excesso de metáforas. Narrava em primeira pessoa e sabia que cada frase sua espetava cuidadosamente seu alvo da semana.

Mas uma leitora era especial. Leu o primeiro texto há três anos. E então passou a repetir o mesmo ritual. Ao fim de cada texto, pegava a tesoura e seguia a linha que margeava a coluna, procurando manter reto o corte até chegar ao mesmo ponto de partida. Com o pedaço de jornal em mãos, lia-o mais uma vez, devagar, palavra por palavra e em seguida colocava o recorte junto aos outros, na primeira gaveta do criado-mudo. As sensações que se seguiam já eram conhecidas. Tinha calafrios, os olhos ardiam e a boca secava. Mas ao invés de parar de ler, esperava o próximo com ainda mais ansiedade.

Há três anos também que a escritora começou a achar que alguém mais fazia parte de seu casamento, e por mais que tivesse certeza disso, engoliu uma história esfarrapada e tentou seguir em frente. Fez do seu espaço no jornal um confessionário. Mas tudo precisa ter um fim e resolveu escrever um último texto. Esse era o seu presente para ela: a verdade.

“Ele a traiu mais de uma vez e ela descobria a cada novo nome. Tornou-se obsessiva, mexia nas coisas dele, fuçava gaveta, bolsos, comportamento típico de uma mulher desconfiada. Descobriu pela conta de telefone essa última, que até hoje está com ele.

Se separaram depois de um ano vivendo um tormento. Ele não tinha coragem de sair de casa, ela não tinha coragem de expulsá-lo. Depois de separados, voltaram a se encontrar, a tentar às escondidas uma brecha para a salvação do que já não tinha mais terreno para viver. Ela tentou de todas as formas se afastar, ele a procurava para falar sobre seus medos e aflições. Não a deixava em paz. Não tirava ela da cabeça.

Dizia a todo momento o quanto a amava e emendava logo em seguida dizendo que era impossível ficarem juntos. Ela via através de todas essas palavras e via ele repetir com a outra o que fizera antes com ela. Descobriu que ele usava com as duas os mesmo apelidos carinhosos, as mesmas brincadeiras e lhes dedicava um amor parecido.

Entendeu que ele continuava mentindo porque sua insegurança era tão intensa quanto ele. Viu a outra ocupando o lugar que era seu nos roteiros de viagens, nos restaurantes, nos cinemas. Suportou tudo isso sozinha, sem dar um grito, sem fazer um escândalo, sem machucar ninguém. O único conforto que tinha era a certeza de que um dia tudo volta para a superfície, por mais que você tente manter ali bem no fundo. Um dia, um novo nome iria aparecer e o ciclo se repetiria. Ele não mudou. Ainda mente, é egoísta, confuso, perdido. Ela vai descobrir, ele vai negar, ela vai vasculhar as coisas dele, ele vai se aborrecer e gritar com ela, ela vai chorar, ele vai se desesperar. Só mudam os personagens. A história vai continuar sendo a mesma.”

Salvou o texto e mandou para o jornal. E torceu para que, dessa vez, ela não lesse.

Ilustração em vidabesta.com

25 comentários:

Menina disse...

Ualll....essa semana aconteceu isso comigo....fui traiiida!Mas tudo bem....eu não torço para que ela nao leia....torço pra que ela encontre o caminho correto!;)

Dani disse...

São os papéis (chifres?) que a vida nos traz (infelizmente) mas que aprendemos ou não a conviver com eles, e nos tornamos paranóicas, ou tomamos as rédeas de nossas vidas de volta. Fantástico o texto, como sempre.
Abraço.

Vampira Dea disse...

Nossa! Pensei que ia terminar em morte, já tava sentindo o cheiro de sangue.

Laura Lacerda Fonseca disse...

Espetacular! Esse é o tipo de coisa que me daria muito mais prazer do que uma faca e vários movimentos de sobe-e-desce. A diferença é que aí, eu faria questão de mandar o jornal pra fulana! hahahhahaha
[pq perdoar é pra gente superior! Eu sou baixa mesmo!]
Beijos e parabéns!

Paulo Damasceno disse...

tem como pegar o contato de vcs??? sou do interior de sp... manda um e-mail pra mim no paulodama08@gmail.com (tbm como msn) ou DM no twitter @paulodamasceno_ tbm sigo vcs la!

isaque disse...

Eu acho esse blog fantástico. Acho mesmo.

Thiago Gabardo disse...

Excelente! Inclusive, dei um Print Screen na tela, colei no word, imprimi e guardei aqui na minha gaveta.

:)

bea disse...

vcs deveriam escrever um livro com todos os textos do blog, são ótimos.

Sam disse...

o complexo não é descobrir que a pessoa que amamos está amando outra mas, com certeza, que ela faz amor com outra, e somos somente aquilo chamado de porto seguro.

Mila disse...

Concordo com a bea. Eu me deleito lendo os textos antigos, sempre.
Queria dar esse livro de presente a alguém.
Um beijo.

DESABAFO.COM disse...

Cada palavra foi muito precisa. É o poder que as crônicas têm de sempre fisgarem alguém no exato momento em que algo acontece.


Muito bom!

Srta. Rosa disse...

Hum. Gostei. Não só da amante leitora voraz, mas da paciência calma da mulher traída. Eu acho que continuo encalhada porque não consigo me encaixar bem em nenhum dos papéis. Pra amante e mulher traída não presto, porque sou muito possessiva. Dividir homem, nem pensar. Pra dividir a cama tem que ganhar pirulito. Pft. Mundo moderno. Queria acreditar que homens não traem, mas é mais fácil um Papai Noel descer pela minha chaminé (que não existe).
Ótimo texto, como sempre. Sensível e irônico ao mesmo tempo. Clap, clap.

C. Lisdália disse...

Fiquei arrepiada...

Mto bom, pra variar!

C. Lisdália disse...

Fiquei arrepiada...

Mto bom, pra variar!

Luciana Pontes disse...

Muito bom o texto!
Acabei de achar esse blog e gostei muito!!!

Elga Arantes disse...

Pior quando os personagens muda, mas a história não...

Jacquerie Vogel disse...

...ótimo!

Jacquerie Vogel disse...

...ótimo!

Jacquerie Vogel disse...

...ótimo!

Jacquerie Vogel disse...

...ótimo!

Jacquerie Vogel disse...

...ótimo!

Jacquerie Vogel disse...

...ótimo!

LHISS disse...

ADOROOOOOOOOOOOOO vcs!

Marcos Satoru Kawanami disse...

merda pra mim, que li tudinho. coisa mais sem-noção.

Anami Brito disse...

Dizer que os textos de vocês são muito bons já virou clichê...rs..Pelo menos pra mim. Sempre aguardo com ansiedade, imaginando qual será o tema do próximo. Concordo com a opinião dos demais, publiquem um livro, certamente eu e mais um 'monte' de pessoas comprarão.Bjs!