14.12.05

De celulares, cinemas e finais felizes

Resolvi ir ao cinema sozinha. Nada demais, já havia feito isso outras vezes. É bom chegar, sentar, receber um tanto de informações e ficar com a cabeça borbulhando de idéias, sem ter alguém pra compartilhar ou perguntar "humm, então ela matou a vizinha, né?", quando eu nem havia me dado conta disso.

Comprei uma caixa de Bis, para não me sentir tão desamparada assim, e escolhi uma poltrona bem no meio de tudo, latitude e longitudenalmente. Na fileira acima tinha um cara, também sozinho. Cara de psico. Uns 25 anos, oclinhos redondos, tipo “mamãe quero ser John Lennon”, camiseta quadriculada abotoada até o gogó, master-big-mega saco de pipoca numa mão e um balde de Coca Light na outra. Como o rosto dele era oleoso, do tipo que dá pra fritar um ovo, os óculos escorregavam e iam parar no meio do nariz, deixando os olhos desprotegidos. Então, ele inclinava a cabeça pra trás, pra conseguir enxergar através da lente. Nada bonito de se ver.

Coloquei minhas meias, meu casaco, desliguei o celular, encontrei uma posição boa e au revoir, estava pronta pra minha sessão quase particular de cinema. O filme estava começando quando ouvi som de celular tocando. O psico da fila de trás esqueceu de desligar, imbecil. Não satisfeito, ainda atende e conversa.
- Meu amor, tô no cinema (...) É, vendo aquele filme que você não queria ver (...) Tô com ninguém não, benzinho, vim sozinho. Sim, claro que eu dei banho no seu cachorro hoje. (...) sim, levei seu irmão no parque, ele e mais cinco amiguinhos. Levados ele, né mô? Você foi ao salão enquanto isso? Fez a escova, as unhas também? Deve estar tão linda...

Já era demais pra mim. Mandei um xiiii e ele desligou o celular. O filme continuou. Trama legal, mas daquelas que têm tudo pra se perder no meio. Ó, não disse. Se perdeu mesmo. Merda de filme. Pior que meu Bis acabou. Quando eu ia começar a arrancar o esmalte no dente, toca de novo o celular do menino com jeito de nerd assassino:
- Oi (...) não, amor, não acabou (...) poxa, meu neném, não briga comigo, tô só vendo o filme (...) não chamei porque você não queria ver (...) e também porque você tava no salão e eu já tinha feito tudo que você pediu...

Eu já tava tensa, por causa do filme tosco, e esse ensebado ainda me vem com os problemas dele. Merece mesmo uma namorada chata. Sem educação. O que esse povo tem na cabeça pra conversar no cinema? O gene que determina que aquele ser humano vai ficar calado no cinema deveria ser premissa para qualquer nascimento. Não tem? Não nasce. É básico, já deveria fazer parte do inconsciente coletivo, de livros educativos. Ninguém quer ouvir os comentários alheios. Ninguém quer um Galvão Bueno narrando tudo no cinema. Na verdade, ninguém quer Galvão Bueno em lugar algum. E por que esses sem mãe sempre fazem comentários tão estúpidos, nunca algo que preste?

Quando é casal, sempre tem uma menina com vozinha dengosa pra fazer uma pergunta cretina. No meio de Hero, a sujeita solta:
- Ah, neném, mas isso é mentira.
Nooossa. Agora conta uma que eu não saiba, Nostradamus do Acari, Mãe Dinah da sétima arte. Pior é o namorado respondendo. Ou melhor, inventando uma resposta, só pra manter a pose ao lado da fêmea:
- Não, amor. Algumas artes-marciais orientais realmente ensinam os guerreiros a se movimentar com a leveza de uma pena.

Alguns planos me vieram em mente. Roteirizei várias, muitas formas de humilhar esses infelizes. Ir lá no gerente, bater nos marginais, jogar xixi neles,
levantar e dizer "quem aqui nesse cinema concorda comigo e acha que esses caras devem ser expulsos, levante a mão" e depois virar pros tagarelas e dizer "agora calem a boca ou chamo os seguranças pra tirar vocês daqui". Ou como disse Elisa, ficar em pé na frente deles, a sessão toda.

Mas nunca vou fazer nada disso mesmo, foi só pra desabafar. Mas de uma coisa eu tive coragem. Fui lá encarar o psico, que continuava com a namorada ao telefone.
- Não fala isso (...) Você sabe que eu te amo, meu amorzinho..
- Amigo? Com licença. Dá pra desligar esse celular, falar lá fora, enfiar essa porcaria na bunda (tá, isso eu não disse, mas bem que queria.)
- Peraí, amor (...) Oi, tá falando comigo?
- Sim, por quê? Tem que ligar pro seu celular pra conseguir falar com você?
- Amor, tem uma mulher aqui falando comigo (...) Não, não conheço (...) Nãooo, ela não veio comigo, ela tava aqui no cinema (...) Não, a gente não marcou nada, nem sei quem é.

Pronto, eu pensei. Aquele mela-cueca todo, além de acabar com minha sessão solitária e minha paciência, agora ia acabar com o namoro do psicose.
- Escuta, termina essa conversa lá fora, por favor.
O negócio ficou feio nessa hora. O filhote de cruz credo começou a chorar. O beicinho dele chegava a tremer, uma cena que valeu meu ingresso, meu lado sádico tem que confessar. E por mais revoltada que eu estivesse, fiquei com o coração na mão por ver aquele homem bobo, sem educação no cinema, chorar ao se ver cercado por duas mulheres que passavam ordens opostas pra ele. Para não contradizer nenhuma das duas, acabou indo lá pra fora mesmo.

Voltei a ver o filme.
- Hum... sabia que esse cara ia morrer, que previsível. O quê?! Como é? Alienígenas com dupla personalidade assombrando uma casa? Ah, não, haja clichê, filminho ruim.
Decidi que tinha coisa melhor pra fazer da vida do que ficar ali. Peguei minhas coisas, tirei minhas meias, pra não pagar mico do lado de fora, e saí do cinema. No corredor, dei de cara com o psico, encostado numa coluna. Celular na mão, cabeça baixa. Foi inevitável sentir pena dele. Ele não era de todo mau. Levou o cachorro pro parque, o menino pro banho, ou algo assim, enquanto a namorada estava no salão. E só atendeu ao telefone porque não queria deixar a menina chateada.

Decidi dar uma segunda chance ao Normam Bates capixaba.
- E aí? Fez as pazes?
Ele apenas balançou a cabeça negativamente. Nisso, o celular dele tocou. Algo estalou na minha cabeça e quando dei por mim, já havia arrancado o telefone de suas mãos. Não houve reação, tamanho foi o choque com minha atitude. Ele ficou só olhando, enquanto eu rejeitava a ligação. Ficamos nos encarando por alguns segundos. Tive mesmo, tive muito medo de apanhar, de tomar facada, de ser notícia na Tribuna. Mas respirei fundo e disse:
- Olha...você tá na merda. Esse filme é uma merda. Eu, bem, nem tô na merda, mas não tenho nada pra fazer. Quer tomar um chope e ouvir uns conselhos?
Ele olhou para o chão, para os lados, para trás e finalmente pra mim. Respirou fundo, segurou o ar nos pulmões por alguns segundos, expirou lentamente pela boca e disse:
- Melhor que esse filme minha história é.
E sorriu.

4 comentários:

Anônimo disse...

Esse ficou foda.

sal.

Marcelo Merçon disse...

Nossa, eu raramente vou a cinema agora, claro que por causa de tudo que já passei nessas salas de shoppings. Agora é só Metrópolis, sessões de 10 pessoas, essas que sempre estão sozinhas e a 10 cadeiras de distância uma da outra.

Lendo esses dois últimos post do blog, lembrei (não sei por que, não me pergunte) de um filme (maravilhoso, pequeno grande filme, pequena obra de arte) chamado 'Mundo cão', tradução cretina de 'Ghost world'...

Gus disse...

concordo com o sal.

Elga Arantes disse...

kkk
Só falta vc dizer, agora, que vcs se casarame viveram felizes para sempre. Tô brincando... Muito bom!