12.2.07

Tanto amor



Por um segundo desejei que você morresse logo. Quis antecipar a dor que um dia será inevitável. Quis que você morresse, pra eu não ter que viver mais nem um minuto ao seu lado, cultivando tanto amor. Cada dia a mais, seria uma nova lembrança triste de como fui feliz um dia.

Não quero que duvide do quanto sou apaixonada. Nem imagino como seria chegar em casa sem te encontrar. Adoro dividir a cama com você. A cama e até o banheiro, quando você chega querendo usar a pia enquanto faço xixi. Acordar de manhã com você me chamando é começar o dia de bom-humor.


Mas me desculpe. Por aquele segundo, aquele mesmo, em que você me olhou tão fixamente que até taquicardia eu tive, eu desejei que você morresse de vez. Lamentaria pelo que ainda não teríamos vivido, choraria e sofreria por meses. Mas prolongar sua vida é aumentar o sofrimento da perda por anos.


Me imaginei, naqueles milésimos de segundos, ajoelhada, cotovelos no chão, olhando para sua lápide, aliviada por tanto amor ter acabado. Por que onde vou colocar ainda mais amor, se ele continuar crescendo assim? Não cabe em mim. Mas caberia num túmulo. Ali, escuro, quieto, trancado.


Se você morresse logo, eu poderia dizer a todos o quanto amei e fui amada e estaria livre para viver uma vida plena, em que a busca por tanto carinho não seria mais necessária.
Por aquele segundo pensei em deixar a porta da varanda aberta e entregar seu destino a Deus. Mas um segundo depois, talvez até menos, o arrependimento de ter desejado sua morte prematura me tomou num gole, e sentei porque não agüentei o peso da minha estupidez.

Engoli minha covardia, olhei para o céu azul, tão azul quanto seus olhos, e só encontrei motivos pra sorrir. Um dia você vai morrer. De repente, eu até vá antes. Mas não adianta pensar agora. Por um segundo, quero acreditar que somos eternos.


ilustração: www.vidabesta.com

4 comentários:

oamareloeonada disse...

aff...lindo!

Bruno R. disse...

forma interessante de querer bem a alguém, né? :-)
mas às vezes não entendo esse medo todo de amar.
pra quê correr?
Beijos

José Arnaldo disse...

.



Está aí, mais uma forma estranha de amar...rsrs.




;-P

Everson disse...

tadinho... :P