16.2.07

Tudo pára



O relógio da cozinha marcava dez pras nove. Mas na verdade, a hora não era essa. A falta de pilhas atrasou o tempo. E o próprio relógio de fundo laranja marcava um outro tempo, do qual ela se lembrava com saudade. Era o tempo das coisas no lugar. Tempo em que as pilhas eram trocadas exatamente na hora em que paravam de funcionar para que nada, nada parasse no tempo por falta da vontade e de energia, seja qual fosse a fonte.

Sentada sozinha no banco de madeira da mesinha da copa, tentava em vão espantar o sono que iria fazer parte de todo o seu dia, deixaria seu olhar ainda mais sem brilho e despertaria a pena dos que iriam encontrá-la na reunião marcada para o início da tarde. – Que hora mais ingrata para uma reunião, pensou desejando desmaiar, ter um colapso, ficar toda torta para não ter de ir trabalhar. Olhou para a xícara branca de cerâmica comprada com tanto gosto para formar um conjunto bonito no armário da sala e um dia, se transformar na oportunidade de convidar alguns amigos para um café na varanda, em meio a plantas tropicais que havia ganhado no último verão.

Pensou no sentido de todas essas bobagens que acumulava em sua casa, em sua cabeça e em seus armários. Tinha um plano para tudo que pensava, mas não conseguia colocar em prática nenhum deles. O relógio, as plantas, as xícaras, o sofá, a tv, as cores da parede pertenciam a um desejo de deixar a vida mais intensa, mais divertida, com fotos que iriam registrar o sorriso de todos aqueles que faziam parte quase de uma confraria, amigos de fazer inveja, tão bacanas e modernos que só poderiam existir na sua imaginação.

E assim viveu imaginando que um dia tudo poderia acontecer da forma que havia planejado, e que nem ao menos sentiria aquele típico nervoso das pessoas que organizam festas e sofrem de ansiedade até que todos os convidados cheguem, felizes e com vontade de se divertir, sem hora para ir embora.

Mas entendeu que o tempo passou, as plantas murcharam, o relógio parou e as xícaras ficaram com o fundo amarelado dos cafés que tomou sozinha, todos os dias na mesa da cozinha. Queria comprar pilhas novas para o relógio, mas não tinha mais vontade de fazer nada funcionar. Nem o relógio nem sua vida.

3 comentários:

José Arnaldo disse...

.



Malditas pilhas.

;-)

Bira disse...

sempre soube q excesso de programação fazia mal...
Bonito texto!

Bruno R. disse...

às vezes falta chão.