10.6.09

No fundo

Motivada pela tristeza e pela frase ouvida repetidas vezes, que se você está no fundo do poço não tem outro jeito a não ser começar a subir, resolveu que era hora de iniciar a escalada. Sabia que pela frente viriam paredes úmidas e fedidas. Quebraria algumas unhas, ralaria o joelho. Por isso ficou tanto tempo ali, encolhida no mundo que criou para se proteger. Porque não tinha forças para sentir mais nenhuma dor.

Mas o tempo de permanecer assim acabou. A primeira atitude, nada mais clichê, foi marcar hora no salão para dar uma repicada no cabelo. Assim, pra ficar moderno. A bicha com quem costumava cortar às vezes acertava, às vezes não. Se estivesse cheirada, a franja ficaria muito repicada, com pontas incontáveis, totalmente sem jeito. Se a mona tivesse apenas fumado um, ótimo. Ia ganhar um corte mais ajeitado. Mas a vida é feita de riscos, leu isso num desses livros de empreendedorismo, achou bom lembrar agora.

O corte ficou...um corte. Nada além disso. O que lhe restava de bom senso foi atualizado no momento em que o secador de cabelos foi desligado. Ficou um bom corte, nada demais. Ela não sairia mais confiante do salão, sua auto-estima não estaria renovada e dentro de um dois meses a franja já estaria sem jeito.

O procedimento padrão também exigia a volta à academia. Se matriculou, comprou roupas novas, mas baratinhas – ainda não acreditava que iria mudar totalmente sua vida e se tornar a rainha da abdutora. Aliás, sabia que existia alguma coisa de auto-sabotagem nela. Alguém precisa ter pena de mim, afinal. Acreditava nisso piamente.

O próximo passo era organizar o orçamento, que estava tão bagunçado quanto as ideias dela. Quebrou alguns cartões de crédito, chorou de desespero, ficou meia hora no telefone aguardando ser atendida para negociar a dívida, combinaram que ela pagaria em 8 vezes, com juros de 1,4 % ao mês. Detestava fazer contas, por isso concordou rapidamente.

Agora era a vez do armário, gavetas, estantes. Não vou entrar em detalhes a respeito porque arrumar tudo isso é muito chato. Ela achava, eu acho, você provavelmente acha também. A única pessoa que gostou foi a Dinalva, que levou uma sacola cheia de roupas e sapatos e brincos e cintos e bolsas pra casa.

Sim, o fim de um namoro provoca uma grande revolução na vida da gente. De certa forma, é uma ignição para um novo momento, às vezes melhor que o anterior. E pra finalizar toda essa etapa de mudança, resolveu que iria melhorar a pele, tratar as manchas, desmanchar algumas rugas, enfim, ficar mais bonita.

Marcou com a doutora Vanessa Eller às 15h40. Foi difícil sair do trabalho a essa hora. Mas era agora ou só daqui a quatro meses, querida, informou a secretária com voz anasalada. Chegou três minutos atrasada e ficou com raiva da sua falta de pontualidade, mais uma vez. Sentou, entregou a carteirinha do plano, tentou respirar para disfarçar o afobamento, pediu água e aguardou ser chamada. Começou a reparar na decoração. Tons rosas e lilases. Uma parede branca com texturas muito discretas e com vincos em baixo relevo que se cruzavam formando quadrados. Em cada ponta dos quadrados, alguma coisa brilhava. Quis levantar para olhar de perto que diabos era aquilo imitando um diamante mas se conteve.

- Flávia Damasceno!

Ela se levantou, pegou a bolsa e deu cinco passos antes de chegar na porta da sala e dar de cara com a doutora reluzente. O chão se abriu. Ela sentiu uma leve palpitação. A câmera lenta foi ativada. Ela reparou em cada detalhe daquela entidade luminosa, shinning happy person à sua frente. Cabelos num tom loiro que nunca tinha visto antes, a tintura devia ser importada. Os olhos cuidadosamente maquiados, nem um excesso de rímel, os cílios pareciam colados um a um. A pele lisa, irritantemente lisa. O corpo exato, magra sem deixar de ser gostosa. A roupa, que não era branca, era off-white. Usava joias discretas, com quartzo transparente e ouro branco, uma finura. Atrás dela, as fotos da vida perfeita: um bonito marido beijando-a no dia do casamento, a filha de poucos meses, linda, rosada, risonha, perfeita, no porta-retrato provençal. Teve vontade de desmaiar, de ver se não tinha resto de comida no dente, ficou com vergonha da pele que há tempos não via uma limpeza. E foi a primeira coisa que o ser de luz reparou.

- Antes de tudo, precisamos fazer uma limpezinha nessa pele, Flávia.

Não, não. E ainda por cima essa voz em tom baixo, calmo, embalante. Lembrou que todas as dermatologistas que conheceu falavam assim, baixinho, com delicadeza, com palavras doces que só faziam com que ela ficasse ainda mais arrasada. Jamais seria tão linda, leve e iluminada. Jamais.

Pegou a receita, deu um sorriso amarelo misturado com um muito obrigado, prometeu o impossível, que voltaria em dois meses, que faria a tal limpeza, que passaria o ácido todas as noites. Saiu do consultório e foi direto para o poço novamente.

36 comentários:

Ana Guimarães disse...

Anh, a tesoura do desejo...

Lari disse...

Ha! Muito bom.

Duas disse...

ah, flavia, nós te entendemos, nós te entendemos:)
beijo, docinhoooo

Rakky Curvelo disse...

Ah! E como entendemos!

Rodrigo Artur disse...

Estou entre a fase do orçamento e da academia.

RivaEscrita disse...

Poço vazio, não vale. Tinha que estar cheio. Se afogar em espelhos d'água seria o máximo !

Nessa disse...

Acho que já fiz esse ciclo umas 1.555 vezes!!! hehehe

Ana Silva disse...

Então eh assim com todo mundo? achava q era soh comigo...

Anônimo disse...

=]

MR disse...

Como mulher complica as coisas... vai entender.

Helga disse...

Não entendi! Ficou querendo ter a vida de uma pessoa que precisa pasteurizar o rosto para ficar bonita? Concluiu que ela é o ser mais feliz do mundo com base em porta retratos (vamos combinar que ninguém coloca foto dos momentos infelizes para exposição?) e em um estojo de maquiagem de boa qualidade?
Tsc, tsc, tsc. Dá aqui sua mão, te ajudo a subir... O joelho vai ralar, mas, aí, se conhecer um gato bem bacana é só não "dar" de quatro.

Força!

Seus textos são excelentes. Um dia passo meu endereço para vc me visitar, ok?

Eduardo Martins disse...

Vc é o seu pior perigo! Vá buscar Samara...
bjo

Emanuele Cordioli disse...

Nao é preciso estar deprimido pra ir diretinho pro fundo do poço qdo nos deparamos com um "ser perfeito"....
Detesto gente perfeita...
bonita e simpatica!!!!
Erghhhhhh.....

::Soda Cáustica:: disse...

to no poço, fazendo nado sincronizado. Já já saio dele, penso.

R,afael Paschoal disse...

Eu já estou na fase de comprar presentes para mim mesmo, estourando o orçamento, mas bombando na serotonina! Viva o chocolate!

Sentilavras disse...

Hahaha... Gostei do comentário da Soda Cáustica.

Agora q eu percebi q eu nunca fiz revolução nenhuma depois de terminar um namoro. Nunca quis renovar, virar outra pessoa... Só quis me resgatar, resgatar amigos perdidos, voltar a ser quem eu era.

Anônimo disse...

Isso é que é baixíssima auto-estima, interessante como temos esta têndencia de curtir sofrimento, esperando que alguém tenha pena de nós e inconsientemente( ou com total consiencia) nos deixamos afundar neste "poço" e infelizmente se acostumando com ele. Òtimo texto, linguagem simples e clara, parabéns!!!

Sam disse...

Nem sempre a escalada para dar a voltar por cima de tudo é fácil. Em algumas vezes, o poço pode ser mais confortável do que o risco de superar tudo.

Dedinhos Nervosos disse...

Eu te entendo. Entendo tb que deve ter saído do poço antes do tempo.

Na verdade, tô lutando para não voltar ao poço. Ainda bem que não marquei hora na dermatô, nem cortei o cabelo rs

Bjos e força na peruca.

Anônimo disse...

Eu acho engraçado quando as pessoas que comentam tratam a escritoras como as personagens das histórias. Ao menos eu imagino que seja tudo ficçao.
De repente é pq vcs conseguem passar bastante intmidade e simplicidade de um jeito natural.
Adoro aqui. Parabéns.

Anônimo disse...

Eu acho engraçado quando as pessoas que comentam tratam a escritoras como as personagens das histórias. Ao menos eu imagino que seja tudo ficçao.
De repente é pq vcs conseguem passar bastante intmidade e simplicidade de um jeito natural.
Adoro aqui. Parabéns.

teo netto disse...

Triste, triste.
Parabéns chuchus.

Bjs

Fernando R. Silva disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fernando R. Silva disse...

É...eu encontro meu poço toda vez que vejo alguém de aliança:

"Tá vendo, ele faz as coisas certas, é feliz e não um estúpido que joga pela janelas as boas oportunidades que tem, como vocês fez!"

Quem estará pior? Voto na personagem do conto.

Larissa Bohnenberger disse...

Ahahahahahahahahahah! Coitada! É difícil recomeçar a vida e sair de um fundo do poço. Dá até um desânimo sair dele, porque é certo que mais cedo ou mais tarde cairemos lá novamente!
Bjs!

elisa disse...

:)

bonito

Geise Coelho disse...

A pior parte ao ler os textos de vocês é sempre o fato de pensar "merda, já passei por isso antes! Por que me sobrou a brilhante incompetência de não escrever desse jeito? Redatoras de merda hein!"
hehe
Beijinhos

Mariana disse...

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades."

Já dizia Camões!

Adorei o movimento do texto, nos leva a sentir aquela dificuldade de se mover para o novo.

thatiana disse...

Na verdade se ele serve para proteger, não soa tão ruim assim. Ele só não precisa ser escuro. Muito menos ter pedras fedidas.

Leci Irene disse...

Bem, mninas... digam a Flávia que amanhã ela tem nova chance para sair da "clausura" a qual ela se condenou. Rainha da clausura? Ora, ora.... Amanhã é novo dia. Após pagar contas, limpar as gavetas, mudar o visual, será a hora do "sair para o sol"... reinar lá fora... eh! eh! O espaço que é nosso ninguém ´pega!
-vcs são geniais! -

Miguelina Astrôncia disse...

todas nós um dia também pegamos 'receitas', enfiamos no bolso e voltamos pra onde estávamos.

:D

maria disse...

É por isso que meu dermatologista é homem - eu faço tudo o que ele manda e volto só pra ouvir: "nossa, como ficou ótimo".

Lucas disse...

ah, esse poço que é frio mas confortavel, ah, esse poço que não tem fim... ha.


gosto tanto daqui.

=)

Lucas disse...

Ah, mulher reclama mesmo! Mas tem aquelas, poucas, que reclamam com estilo.

Fiquei mui feliz de ler "Duas deixou um novo comentário". Mui.

Vamos nos falar.
dread.luc@gmail.com

=)

Kamile disse...

O pior é se a reluzente não tiver celulite.

DESABAFO.COM disse...

Passar aqui pelo blog virou rotina pra mim. A identificação oferece alguma forma de conforto...eu acho...

Beijo!