11.10.06

Poltrona 4


Lá estava eu em mais uma viagem de ônibus repentina. Entrei e ocupei minha poltrona executiva do lado da janela. Guardei a mochila no compartimento acima da cabeça, coloquei a bolsa encostada no apoio do braço e lembrei que havia esquecido o Dramim em casa. Ô, merda. E se viesse aquela pessoa que vale por duas sentar do meu lado? Sem Dramim, como é que eu ia dormir? Ou ao menos abstrair a invasão do meu território?

Fiquei com o olhar parado, mirando a entrada do corredor do ônibus. Entrou um senhor. Passou reto. Entrou uma adolescente, loira e lisa de mentira. Passou reto. Entraram mais umas senhoras simpáticas, um homem sério e uma jovem com cara de cansada. Nem um deles sentou ao meu lado. Droga, pareciam todos aptos a não me proporcionar uma viagem com conversas. Fui ficando tensa, imaginando o que o destino, ou a maldita mulher do guichê da Águia Branca, havia aprontado pra mim. Fiquei lembrando se tinha sido simpática com ela. Dei bom dia, obrigada, por favor, paguei tudo rápido. É, não tinha por que ela colocar alguém fedorento, falador e enorme ao meu lado. Entraram mais algumas pessoas. Alguns congelaram todo o meu sistema nervoso. Um bombado, com bermuda florida foi um deles. Depois um outro jovenzinho, que já entrou no ônibus falando "aê, galera, boa noite!". Esse aí me deu até falta de ar. Mas ele passou direto pela minha poltrona.

De repente, vejo o motorista entrar no ônibus. Ele segue até o corredor, cumprimenta os passageiros, diz que vai nos conduzir até o Rio, numa viagem de aproximadamente 8 horas, que pararemos em Campos por 20 minutos e que no final do corredor tem água e café à disposição. Disse também que é totalmente proibido fumar no interior do ônibus, inclusive no banheiro. Terminado aquele bem treinado discurso, invenção de algum marqueteiro, com certeza, ele foi para sua cabine e iniciou a viagem. Parecia mentira de tão bom que era. Eu ia sozinha até o Rio, com duas poltronas só pra mim. Dormi tão bem que teria ido até o Acre.

Era hora de voltar para Vitória. Entro agitada no ônibus e quase arranco cada pentelho meu de raiva quando lembro que novamente esqueci o Dramim. Não, não daria a mesma sorte da ida. Essas coisas não acontecem duas vezes. Agora era certo que um ogro, melequento, flatulento, bafudo e tarado sentaria ao meu lado. E sem meu Dramim eu passaria oito longas horas encolhida que nem feto pra não encostar sequer a ponta da unha nele.

Começam a entrar os ilustres passageiros. Como na ida, tinha de tudo. Alguns simpáticos, outros assustadores. Eu não acreditava que aquilo estava acontecendo de novo. Eu tensa, ombros duros, costas doendo, só de imaginar quem seria meu companheiro de viagem. As pessoas que vão entrando se aproximam da numeração da minha poltrona. Eu reparo tudo quase imóvel, apenas os olhos se mexem. E então, mais uma vez, o motorista começa o tal discurso e descubro que viajarei sozinha novamente. Tanta felicidade assim nem cabia naquelas duas poltronas executivas. Ri sozinha, olhei para os lados pra me certificar que era verdade e jurei pra mim mesma que daqui pra frente, não passo por essa tensão nunca mais.

Das próximas vezes não vou ficar imaginando quem comprou a cadeira ao meu lado. Vou ser a última a entrar e ser o pesadelo de outro passageiro. Urrárrárrá.

2 comentários:

everson disse...

gostei do "loira e lisa de mentira"
ahahahahhaa

Bruno R. disse...

hahahaha.
eu sempre tento entrar antes no ônibus pra não ser o pesadelo de ninguém. Mas se um dia viajar ao meu lado, não se preocupe: apesar de ser "meio grande", eu não sou de dar um pio e nem de me apoderar de cadeiras alheias. Sou um bom passageiro. Mas já passei tanto essas tensões que parecia q eu tava viajando de novo.
Depois do próximo feriado eu conto se foi "bom pra mim" hehe.