31.8.07

Recomeço


Estava desnorteada. Sentia um mal-estar que ficava bem ali, entre o dedo do pé e o último fio de cabelo da cabeça. Olhava em volta e sentia-se uma poeira cósmica em um universo desconhecido. Ali ninguém a conhecia. Ninguém sabia de seu passado. Poderiam julgá-la de forma cruel pelo primeiro erro que cometesse. Para aquelas pessoas, não importava se ela sempre foi calma, legal, responsável. Ninguém sabia de seus filmes favoritos ou qual era sua última música preferida.

Para aqueles desconhecidos, que a olhavam como quem olha um bicho na vitrine, pouco importavam suas habilidades. Elas só existiriam a partir do momento que ela tivesse a chance de mostrá-las. Até lá, era um zero. Uma folha em branco, que cada um pintaria como quisesse. Não representava nada de importante. Apenas um mistério. Todas as piadas que sabia, o sanduíche de mortadela que aprendeu a fazer ou o último livro que leu. Ninguém ali sabia de nada.

Sentia saudade de seus amigos. Já sabiam de seus defeitos, suas qualidades. Mas era preciso levantar a cabeça e continuar seguindo por aquele longuíssimo corredor de poucos três metros até sua sala. Com o tempo, ela ia mostrar do que era capaz. Ia conquistar respeito e recolher méritos, como sempre fez.

À medida que entrava em sua nova sala, sentia o chão se construir a cada passo. Pensou em correr e fugir, deixar sua fama de boa moça para lá. Estava com medo, tanto medo que parecia que nunca ia passar. Mas lembrou de sua mãe dizendo que ela se sairia bem e foi até o fim. Seu coração batia tão forte que ela tinha medo de que alguém escutasse. Ocupou a mesa que agora lhe pertencia. Sentiu-se mais aliviada. Enfim tinha um espaço dela, ainda que num ambiente estranho.

Cada um de seus poros agia como um sensor. Ela sabia que estava sendo observada. Olhou em volta buscando mostrar atitude e esconder um pouco do acuamento. Um pensamento leve passou pela sua cabeça e ajudou a relaxar a musculatura das costas. Imaginou que um dia, um daqueles estranhos que não lhe diziam nada, se tornaria um grande amigo, visitaria sua casa e lancharia com ela.

Alguém bate à porta. Uma senhora alta, de terno azul marinho ligeiramente antiquado, coque alto e impecável.
- Com licença? Posso roubar só um minutinho? Gente, gostaria de apresentar Adélia. Esse é o primeiro dia dela aqui. Dêem um bom-dia bem alto de boas vindas.
Ela corou de vergonha, mas respondeu ao sonoro bom dia da 5º série C. Algum engraçadinho ainda disse ‘ficou vermelha’. Todos riram. Ela adorou. Sentiu-se menos estrangeira em seu novo colégio.
ilustração do galvão em www.vidabesta.com

16 comentários:

Clô disse...

Gata, É muito bom ficar corada, não vejo a hora de ter esta sensação novamente. Bjo

Giovana disse...

Me lembrou quando mudei de escola, aos 08 anos. Só quem passa por isso sabe como é...

fran disse...

O modo com que vocês escrevem me deixam emocionada. Sério mesmo. Acho que sentimento é o que falta hoje em dia, em qualquer lugar... e isso, vocês têm de sobra.

bacana disse...

Muito fofo! Quem é Adélia? :p

teo netto disse...

Irado girls!
bjs

Mariana disse...

ótimo! :)
meninas quero ilustrar um texto de vcs, pode?
beijos

leila disse...

ufa!!!!

Tudo ou nada ... disse...

Gosto por demais dos seus textos, são sempre surpreendes seus finais.

Bjos

bira disse...

Acho q todos ja passaram por isso... muito bem exemplificado meninas. Ótimo texto mais uma vez!
Parabéns e um ótimo feriado!

Cin disse...

Adorei seu blog!

dellconte disse...

Conheci o blog hoje...
Adoreiiiiiiiii, já esta favoritado"!

Ju disse...

Meninas!! 10 dias sem texto novo... =( síndrome de abstinência...
Beijos

Hiram disse...

Parabéns pelo Blog
Do dia 31/09 indiquei vocês nos meu blog.
E vou continuar indicando.
Muito bom trabalho.

parabéns!

Bruno R. disse...

eu já mudei tanto de escola que lá pra 7ª série nem me importava mais de recomeçar. mudava quase todo ano. engraçado como isso não se repete agora, como profissional. =)

manu, cara de anú disse...

Aaaaaaaaww! ^^
Saudades de vir aqui!

"D" disse...

Nao ha prazer comparavel ao de encontrar um velho amigo, a nao ser o de fazer um novo.
Rudyard Kipling